Sétimo dia

Sétimo Dia junta-se ao conjunto de obras póstumas de Daniel Faria. Trata-se de uma obra de fragmentos, próxima do estilo literário de O Livro do Joaquim. O leitor que se aproximar de Sétimo Dia encontrará apenas cinco conjuntos de fragmentos, cinco “dias” a que correspondem cinco “homens”. Cada conjunto é formado por vinte e quatro fragmentos, embora alguns conjuntos estejam incompletos. O paralelismo com as horas do dia, por um lado, e com o esquema bíblico da criação em sete dias será fácil de estabelecer.

A morte prematura de Daniel Faria não nos permite saber que andamento ou conclusão daria a este projeto. Chegou-nos assim, incompleto, e assim nos criará sentido.

Os fragmentos expõem-se de forma aberta, como diálogos do Poeta a sucessivos interlocutores (um amigo, a Mãe), estilo que encontramos também quer nas obras poéticas, quer em O Livro do Joaquim. O leitor é assim inserido numa intimidade, num caminho interior marcado por tudo o que de agónico tem a vida humana, o homem como lugar mal situado (a solidão, a perda, a doença): da leitura brota a consciência de que também o Poeta é convidado, acolhido na intimidade do leitor, nascendo assim uma amizade que perdurará. O texto – ou o fragmento – torna-se aberto, ponto de chegada e ponto de partida, de permanência e de retorno: converte-se, à semelhança da passagem bíblica, em possibilidade de memória, de ruminação, de companhia e de sentido. É assim com a poesia de Daniel Faria, e também assim será com estes Cinco Dias que, acompanhando-nos no nosso dia que é o Sexto, nos conduzirá ao Sétimo Dia.

E no entanto confesso que gostaria bem de ser um eremita, poderia muito bem ser um eremita: também procuro a sabedoria de estar com todos. Encontrar-se é passar. O que resta é o coração onde o que passou caminha e respira? Quando nos afastamos tudo se aproxima. Eu poderia ser um eremita. Nem a busca do silêncio nos desiguala.

Autor: Daniel Faria
Edição: Assírio & Alvim
Páginas: 160

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