P’ra cera de Santo António

A relação do povo português com Santo António adquiriu ao longo dos séculos características muito especiais.

É o santo a quem tudo se pede, já o comentava Padre António Vieira no século XVII, num dos vários sermões que lhe dedica:

Se vos adoece o filho, Santo António; se vos foge o escravo, Santo António; se mandais as encomendas, Santo António; se esperais o retorno, Santo António; se aguardais a sentença, Santo António; se perdeis a menor miudeza da vossa casa, Santo António; e, talvez, se quereis os bens da alheia, Santo António.

Sermão pregado em São Luiz do Maranhão, Brasil, em 1656.

No século XIX este carácter multifacetado de Santo António não vai escapar ao génio de Bordalo Pinheiro, que irá usar (e abusar) desta popular figura para a crítica e sátira política. A popularidade do nome António irá contribuir para este aproveitamento, pois muitos dos políticos tinham o nome de António, permitindo trocadilhos muito oportunos.

O desenho aqui apresentado, publicado no jornal A Lanterna Mágica na véspera de Santo António de 1875, recorre aos populares tronos de Santo António para fazer essa sátira política. O Chefe do Governo Regenerador, António Fontes Pereira de Melo, está no lugar de Santo António, levando ao colo o rei D. Luís. O Comandante da Guarda Municipal, Joaquim Bento Pereira, observa a cena, de chicote na mão, e Serpa Pimentel, o Ministro da Fazenda, pede um “tostãozinho para a cera do santo” ao Zé Povinho.

Esta é a primeira vez que Bordalo Pinheiro representa a figura do Zé Povinho, que se irá tornar um símbolo do povo português. As abelhas representam vários ministros, que zumbem em volta do “santo”.

Numa crítica mordaz, Bordalo Pinheiro evoca o peditório das crianças para o Santo António, e que afinal usavam o dinheiro para comprar guloseimas e fogos de artifício, para comprometer a classe política e denunciar os jogos de poder que acabavam por lesar o povo.

Mas este desenho é relevante sobretudo porque marca o nascimento da figura do Zé Povinho, e claro que tinha de ter subjacente o mais popular dos portugueses, Santo António de Lisboa.

Foto da capa: Periódico A Lanterna Mágica, 12 de junho de 1875. Desenho de Rafael Bordalo Pinheiro.

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