O Senhor deu-me o cuidado dos irmãos

Estava eu a meditar o Testamento de São Francisco, quando se deu a queda da cidade de Kabul, capital do Afeganistão, nas mãos dos Talibãs. Ao observar as imagens de desespero de muitas pessoas que fugiam na esperança de sair do país e encontrar quem as acolhesse, lembrei-me da expressão de Francisco: “O Senhor deu-me o cuidado dos irmãos…”.

É verdade que esta frase se referia aos primeiros companheiros de vida do Santo de Assis, todavia não deixei de aplicá-las àquelas pessoas, particularmente crianças, que imploravam um acolhimento que lhes permitisse viver em paz e liberdade. Como posso eu acolher as pessoas (e são milhões…) que, em todo o mundo, são escorraçadas, escravizadas, violentadas, vendidas e exploradas? Eles e elas são “meus irmãos e minhas irmãs”!

São Francisco não tinha nenhuma intenção de juntar ao redor de si um grupo de pessoas nem de formar uma nova congregação, mas quando se deu conta que tinha sido o Senhor a “doar-lhe” companheiros, aceitou-os de bom agrado. Mais ainda, Francisco achou que o Senhor lhe tinha dado não discípulos, soldados ou amigos, mas “irmãos”, isto é, filhos do mesmo pai, o Pai do Céu e, portanto, de igual valor e dignidade.

Foi assim que Francisco chegou a ser o “irmão de todos”, o irmão universal: reconhecendo no outro um dom do Senhor e a mesma dignidade. Desta forma, Francisco estabeleceu com todas as pessoas e com toda a criação uma fraternidade universal, que nenhuma diversidade de cultura, raça ou religião, podia ou devia quebrar ou obstaculizar.

O mundo ocidental ficou perplexo e impotente diante do desfecho da situação política e social no Afeganistão, assim como se encontra em dificuldade perante tantos outros problemas que afetam a humanidade e a criação. Talvez esteja a faltar uma reflexão profunda sobre a qualidade das nossas relações com os outros e com a obra da criação. É o que o Papa Francisco vai repetindo constantemente nestes últimos anos.

Com o mês de setembro, começamos um novo ano escolar e pastoral. Urge recomeçar. A experiência da crise devida à pandemia e todas as outras crises humanitárias constituem um desafio para renascer. Estaremos à altura de enfrentar este desafio?

Foto da capa: Menino muçulmano reza pela paz, por ocasião do festival Eid Al-Adha, que assinala o início da peregrinação a Meca, 21 de julho de 2021. Foto EPA / Idrees Mohammed.

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