As palavras do silêncio

Ilustração: Luca Salvagno

O silêncio para António não era apenas aquela pausa ansiada. Permanecer sozinho e em silêncio significava estar presente diante de si mesmo, diante dos irmãos e irmãs, e diante de Deus.
Se o silêncio e a solidão hão de “ser quebrados”, que seja apenas para ir ao encontro dos irmãos e irmãs e encontrar Deus nas suas histórias de vida.

O silêncio é paradoxal: para falar sobre ele, é preciso quebrá-lo. Pelo contrário, para ouvi-lo, é necessário que tudo, à nossa volta e dentro de nós, fique em silêncio. O silêncio é ambíguo: às vezes é culpado e clama vingança junto de Deus, outras vezes é sagrado e “grande”. Também a solidão, a sua companheira habitual, pode ser imposta e suportada com sofrimento desumano, ou pode tornar-se uma comunhão íntima com Deus. Os que vivem sozinhos, em silêncio, cruzam-se com ambas as dimensões, a negativa e a positiva, e experimentam na sua própria pele o pecado e a graça da solidão e do silêncio. E também o silêncio, por vezes incompreensível, de Deus.

São Francisco, que, certamente, não pode ser acusado de ser uma pessoa anti social, acreditava que podia manter juntos os opostos: silêncio e palavra, solidão e fraternidade, contemplação e ação, Maria e Marta (Cfr. Lc 10, 38-42), num equilíbrio precário a procurar constantemente, pois o homem respira com ambos os pulmões.

O seu confrade António de Lisboa comungou do mesmo pensamento. Também é significativo que os ermitérios franciscanos da Toscânia – Montecasale, Cerbaiolo e La Verna – mostrem, os três, uma suposta cela onde o nosso Santo teria sido hospedado! Além disso, não nos deve surpreender que o Santo, cujo aparelho vocal e a língua incorrupta se conservam em Pádua, que pregava incansavelmente às multidões, fosse também um eremi cultor, um amante do ermitério, como lhe chamam as antigas biografias.

Se é verdade que a solidão é a possibilidade, a condição da fraternidade; assim como o silêncio é a possibilidade, a condição da palavra; aquele que na sua curta vida franciscana proferiu muitas palavras e tantas outras escreveu nos seus Sermões, sabia bem que o silêncio não recusa a palavra, mas o palavreado, como mais tarde iria afirmar o filósofo Heidegger.

Da mesma forma o saber estar sozinho é o preâmbulo da relação com os outros, como a protagonista feminina do filme de Wim Wenders, O céu sobre Berlim, confidencia ao homem amado: “Hoje, estou finalmente sozinha, agora, nós os dois, somos mais que dois”.

A nossa mente é como uma máquina de flipper, e o nosso coração é como uma sala de espera superlotada de uma estação de comboios. Também na Igreja somos tentados pela “heresia do ativismo”, o agir pelo agir, sem raízes na graça de Deus, como o Papa Pio XII, em 1950, já tinha afirmado.

Mas o silêncio e a solidão não representam para António uma simples pausa desejada, uma recarga espiritual no meio das mil tarefas que entopem os nossos dias.

Sim, talvez também isso, mas não só e não principalmente. São um modo de estar presente diante de si mesmo, diante dos irmãos e irmãs, e diante de Deus. O silêncio e a solidão geram a possibilidade de acolher e ouvir, permanecendo sem palavras diante do mistério do outro, criando um espaço e um tempo de plenitude, propícios para esperar com confiança pela palavra que nos “contém” e garantir que as relações não nos enredam num atordoamento vazio.

Silêncio e solidão, que António procurará até ao fim, até à cabana entre os ramos de uma nogueira em Camposampiero, como os antigos monges orientais, para nos darmos conta de quem realmente somos e quem são os outros para nós: quando antes de agirmos, somos, simplesmente somos diante de Deus. Solus cum Solo, diziam os antigos, Sozinhos com o Só.

Se, entretanto, nalgum momento, o silêncio e a solidão hão de “ser quebrados”, então que isso aconteça apenas para acolher os nossos irmãos e irmãs e encontrar neles o Deus que habita nas suas histórias e experiências.

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