Os verbos da Salvação – 8. Descansar e sonhar – II

Não é apenas um prazer
ou uma cedência
que nos concedemos,
um “tempo perdido”
no seio dos nossos calendários: descansar, como sonhar,
é uma pedagogia
que nos ensina
algo de nós mesmos,
silenciada pelas múltiplas vozes que nos pressionam…

Adelaide Miranda e Rui Pedro Vasconcelos

2. O sonho é criador

O título é criação de uma extraordinária escritora portuguesa, Maria Gabriela Llansol que, ao longo de vários anos, manteve um diário no qual registava as memórias dos seus sonhos. Desse património rebelde – rebelde porque não controlado pela nossa consciência, pelos valores éticos, pelos projetos e tarefas a que dedicamos os nossos dias – Llansol retirou pistas e imagens que encontrariam lugar na sua escrita.

Foto Gianandrea Villa | Unsplash
Foto Gianandrea Villa | Unsplash

Sonhar é uma das dimensões fundamentais do nosso tempo de descanso, a que talvez dediquemos menos atenção – por descansar entendemos momentos ou atividades que planeamos e executamos, como ler, caminhar ou simplesmente sentar. As ciências da mente que, no século XX, conheceram um progresso impressionante – a psicologia, a psiquiatria, a psicanálise – reorientam a nossa atenção para esse património que tanto tempo dispõe no nosso dia a dia e que, não obstante, permanece desapercebido. E não se trata aqui dos “sonhos” que temos quando estamos acordados, das nossas esperanças, projetos, ambições; aqui têm lugar, antes, os sonhos que não construímos, elaboramos ou projetamos, pelo menos de modo consciente.

As chaves de compreensão fornecidas pelos conhecimentos científicos permitem ler a uma nova luz um património antigo no qual os sonhos constituem uma linguagem importante: as Escrituras. A redescoberta do valor significante dos sonhos permite olhar com uma nova atenção o estilo literário dos sonhos que percorre as páginas das Escrituras. Nesse sentido ganha pertinência a síntese elaborada pelo livro de Job:

Deus fala, ora de uma maneira, ora de outra, mas o homem não o entende. Em sonhos ou em visões noturnas, quando o sono profundo cai sobre os homens adormecidos no seu leito, então, abre-lhes os ouvidos e assusta-os com as suas aparições.

Job 33, 14-16

Desde o seu princípio que a Escritura de Israel surge permeada por uma tensão fecunda entre o primado da Palavra tatuada na lei, na Escritura e nos oráculos proféticos da Aliança, e os diversos modos com que Deus fala a cada uma das personagens bíblicas. Ainda que mais tatuados nas camadas mais primitivas do texto bíblico, a linguagem dos sonhos permanece à medida que a Escritura se forma, até chegar ao Novo Testamento. Através da leitura – já habitual nos Verbos da Salvação – de três textos bíblicos, procuraremos relevar como este estilo literário pode continuar a fazer sentido para os dias de cada um de nós.

Quando Deus descansa

Foram assim terminados os céus e a Terra e todo o seu conjunto. Concluída, no sétimo dia, toda a obra que tinha feito, Deus repousou, no sétimo dia, de todo o trabalho por Ele realizado.
Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o, visto ter sido nesse dia que Ele repousou de toda a obra da criação. Esta é a origem da criação dos céus e da Terra.

Gn 2, 1-4a
Foto Tim Mossholder| Unsplash
Foto Tim Mossholder| Unsplash

O chamado primeiro relato da Criação (o livro do Génesis tem dois relatos: o texto seguinte, que meditaremos, pertence ao segundo relato) segue o esquema de sete dias de criação, com o sétimo dia, o sábado, a ser o dia de descanso divino. O autor ou a comunidade que elaborou este relato apresentam-no à imagem da experiência de Israel, que inaugurou, numa originalidade do mundo antigo, a noção de um dia de descanso consagrado ao Senhor.

Os discípulos de Jesus, após a manhã de Páscoa, continuarão esta tradição, transmitindo-a do sábado para o primeiro dia da semana. Pensar no verbo descansar na Bíblia conduz-nos de imediato para este paradoxo de ver Deus a descansar da sua obra criadora. As tradições espirituais judaica e cristã dedicaram-se, ao longo da sua história, a descobrir sentidos simbólicos e espirituais para este descanso: um desses sentidos, presente já no Novo Testamento, aponta para a Ressurreição de Jesus como a entrada da humanidade no seio de Deus.

Uma das tradições, presente sobretudo no judaísmo, apresenta esse descanso de Deus como um espaço aberto, concedido, partilhado pelo Senhor do Universo com o ser humano: Deus retira-se no final da sua obra, não por se ausentar ou demitir do seu senhorio sobre a criação, mas para não absorver, com a sua totalidade, a liberdade do ser humano e o seu papel na história. Até o próprio Deus é capaz de se retirar, criando uma aliança com o ser humano (através de um povo, Israel) que o respeita como parceiro, como interlocutor e não como um mero servo. O Novo Testamento conhecerá esta tradição através do rosto de Jesus, daquilo a que designa de kênosis (Flp 2, 7): o seu “esvaziamento”, a sua entrega até ao fim, o seu despojamento. Quase um Deus que deixa de ser Deus, um “Deus nulo” na expressão do poeta Ramos Rosa: trata-se de uma linguagem paradoxal, que nunca exprime senão “a ponta do manto” de um mistério que ultrapassa em muito a nossa linguagem.

Podemos assim compreender como, nas Escrituras, o descanso é uma dimensão fundamental da vida humana, a quem até o próprio Criador se expõe como exemplo. Um descanso que não é uma demissão, um adormecimento das faculdades e dos sentidos (como o permitido pelos meios de entretenimento, das redes sociais às séries televisivas), cuja distração mantém na verdade a estimulação neuronal. O descanso dá-se também no dia em que já não somos nós a criar, em que permitimos que seja o outro a continuar – ou a renovar – o nosso percurso. É também, no fundo, criador, como um sonho.

O sono de Adam

O homem designou com nomes todos os animais domésticos, todas as aves dos céus e todos os animais ferozes; contudo, não encontrou auxiliar semelhante a ele. Então, o Senhor Deus fez cair sobre o homem um sono profundo; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem. Então, o homem exclamou: “Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem!”.

Gn 2, 20-23
A criação de Eva, Giulio Bonasone/Michelangelo, sec. XVI,  Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, EUA, Wikimedia Commons
A criação de Eva, Giulio Bonasone/Michelangelo, sec. XVI, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, EUA, Wikimedia Commons

Não nos encontramos aqui diante de um sonho, no qual Deus transmite uma missão ou profecia a cumprir, mas sim um sono ainda mais profundo, no qual é o próprio Deus quem atua. A passividade é ainda mais total e radical. Como ensina o sábio a um seu filho e discípulo no livro dos Provérbios:

Bendita seja a tua fonte! Regozija-te com a companheira da tua juventude, corça amorosa, gazela encantadora. Inebriem-te sempre os seus encantos e as suas carícias sejam sempre o teu enlevo.

Pv 5, 18-19

Se a narrativa da formação da mulher (isshá no hebraico original) a partir do homem do homem (ish) poderá supor uma secundarização ou dependência daquela em relação a este, o facto de o autor bíblico recorrer à figura literária do sono permite superar essa possibilidade: ambos são obra criadora de Deus, o homem apenas desperta para a admiração e o louvor. Aí surgem as primeiras palavras que o ser humano pronuncia no livro do Génesis.

O surgimento da linguagem dá-se após o reconhecimento de uma falta, da ausência de um interlocutor para o homem, papel que nem os animais, nem o próprio Deus podem desempenhar de um modo perfeitamente correspondente.

É a esta aliança primordial, vocação anterior ao episódio do primeiro pecado ou rompimento, que Jesus se referirá nos Evangelhos e que será celebrada na Escritura, desde os Profetas ao livro do Cântico dos Cânticos, no Antigo Testamento, e das cartas de Paulo ao livro do Apocalipse, no Novo Testamento.

Mas atendamos ao elemento literário do sono e que dicas nos poderá revelar.

No surgimento da primeira relação, do primeiro encontro, há, para este texto bíblico, uma experiência de passividade, de acolhimento, de encontro com o outro cuja origem não depende de mim, não foi formado por mim nem passou pelo meu controlo ou ação. O sono, como o descanso ou a passividade, também tem uma fecundidade nas relações: a fecundidade de permitir que o outro seja na sua diferença (e que diferença mais radical existe do que aquela entre uma mulher e um homem?), naquilo que lhe é próprio, na sua liberdade, capaz de gerar em nós a surpresa e a admiração mas também a defesa, a recusa e a manipulação.

Para a linguagem guerreira que percorre muitas das páginas do Antigo Testamento, o sono é a posição de maior vulnerabilidade para um homem, quando as suas defesas estão em baixo, quando os seus projetos se podem deitar a perder e até quando a morte, essa impotência total, o pode visitar. Se o homem é formado do barro da terra para que a cultive e trabalhe – a vocação ao trabalho ativo, aos projetos, aos “sonhos acordados” – também lhe recorda que o ser humano é criatura, que nem tudo depende dele, a começar pelo outro. E que, numa vida de amor, até a maior passividade, confiança e entrega podem ser mais fecundos que a morte: foi esse paralelo que os cristãos dos primeiros séculos interpretaram quando, da morte de Jesus, novo Adam, surgiu sangue e água (Jo 19, 34), a plenitude da sua Ressurreição, de quem foi formada a Nova Humanidade e a comunidade dos discípulos, a Igreja (Ef 5, 32).

O sonho de José

O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo. José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.

Mt 1, 28-21

Os primeiros dois capítulos do Evangelho de Mateus gostam dos sonhos: o Anjo do Senhor (o mensageiro que transmite uma revelação divina) aparece a José por três vezes e uma vez aos magos do Oriente que foram ver o Menino, avisando-os a não passar por Jerusalém no regresso ao seu país. Quanto a José, além da passagem transcrita, recebeu uma visão em sonhos para fugir para o Egipto e outra para de lá regressar. As três vezes têm por pano de fundo a figura de Herodes que, como o faraó do livro do Êxodo, quer impedir que o povo de Deus seja guiado pelo novo Moisés, o Messias.

O sonho de José, Anton Raphael Mengs, sec XVIII, Museu de História da Arte, Viena, Áustria, Wikimedia Commons
O sonho de José, Anton Raphael Mengs, sec XVIII, Museu de História da Arte, Viena, Áustria, Wikimedia Commons

A passagem de Isaías 7, 14 é o pano de fundo deste relato: num contexto de perigo para a sobrevivência de Israel, Isaías apresenta ao cético rei Acaz a gravidez da sua esposa como o sinal divino de que a dinastia de David continuará e com ela a fidelidade de Deus à sua aliança com Israel. Ao contrário de Acaz, que não confia nesse sinal profético, José segue os passos de um outro José, um dos doze filhos de Jacob, que é vendido pelos irmãos no Egipto e se torna intérprete de sonhos (Gn 41, 15).

José pertence a essa tradição sapiencial, capaz de acolher o extraordinário da presença divina nas dificuldades e perseguições de um contexto hostil, onde até a lei religiosa ordena a difamação e consequente castigo. A capacidade de escuta e a abertura à revelação de Deus permitem a José, o justo, perceber o mistério do Outro, uma fecundidade nova cujo sinal é o nascimento de um filho e cuja virgindade materna aponta para uma salvação a cumprir-se na história.

Encontramos nesta passagem já não apenas a relação entre uma mulher e um homem, mas também a geração de um novo ser, de um filho, cujo mistério de fecundidade pertence, no seu mais íntimo, a Deus. O Messias é por excelência o sinal dessa novidade, dessa diferença radical de alguém na sua liberdade em relação aos pais, à família, ao contexto social, à tradição. José significará aqui, também, a fidelidade de uma história, da Aliança de David e de Abraão: é dela que vem o Messias. Mas, se é dela que vem, é também a ela que ultrapassa e supera: o Messias pertence a Deus, a sua vocação é universal, a sua salvação vai muito mais além da lei e do sangue.

Os sonhos serão, aqui, expressão dessa novidade, dessa rutura que pede a José uma confiança, uma fé que irá além da sua compreensão e das suas forças. E não sucede assim a cada ser que nos é confiado, a quem nos é pedido que dediquemos a nossa atenção e o nosso trabalho? E esse alguém será sempre diferente de nós, da nossa mentalidade, das nossas expectativas? Os sonhos são uma outra linguagem: saem do nosso íntimo, advêm de dentro de nós, mas a sua linguagem surge quando silenciamos os sentidos, os sentimentos, os projetos. Por vezes, somente assim o Outro – um filho, quem sabe – pode interromper a marcha da nossa identidade e tornar-se nosso interlocutor, abrindo-nos caminhos novos no deserto da nossa vida.

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