Os verbos da Salvação – 8. Descansar e sonhar – I

Não é apenas um prazer
ou uma cedência
que nos concedemos,
um “tempo perdido”
no seio dos nossos calendários: descansar, como sonhar,
é uma pedagogia
que nos ensina
algo de nós mesmos,
silenciada pelas múltiplas vozes que nos pressionam…

Adelaide Miranda e Rui Pedro Vasconcelos

Descansar não é perder tempo

O verbo descansar é tão essencial como qualquer um dos Verbos da Salvação que vimos até ao momento: comer, perdoar, caminhar, meditar, desejar, ouvir e escutar, recordar… Nos últimos 20 anos este verbo tem despertado a atenção de cientistas de várias áreas.

Lembram-se daquela base de dados, o PubMed, de que já falámos, por exemplo, no verbo meditar? Se usarmos como palavra-chave “descansar”, a plataforma diz-nos que até junho de 2021 existem 170469 artigos relacionados com este tema. E, claro, motivado muito provavelmente pelas mesmas razões que a meditação suscitou, o interesse cresceu na viragem do milénio. Vamos ao fundamental.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

Foto Benjamin Voros | Unsplash
Foto Benjamin Voros | Unsplash

A rotação da Terra à volta do Sol dá-nos o dia e a noite. Em termos evolutivos, para se adaptarem a estas variações de luz e temperatura, as bactérias, os fungos, as plantas e os animais têm algo que se chama ritmo ou ciclo circadiano.

Até as moscas da fruta, aquelas chatas que aparecem lá em casa sem sabermos muito bem como, as Drosophila melanogaster, dormem!

Nos mamíferos, de um modo simples, temos um relógio biológico interno que é regulado quer pelas células, quer pelo núcleo supraquiasmático. A este núcleo chega a luz ambiente que, depois de umas quantas reações cá dentro, acaba por se traduzir na formação de melatonina.

Entre os mamíferos dormimos todos de forma diferente: os elefantes dormem cerca de 4 horas; os tatus vinte horas; nos golfinhos e baleias metade do seu cérebro dorme enquanto a outra metade permanece ativa; os macacos dormem entre nove e catorze horas; os babuínos nove a onze horas; os chimpanzés dez horas e nós, seres humanos, dormimos 7 a 8 horas por noite.

Este ciclo circadiano regula desde os processos fisiológicos até à forma como nos comportamos. Contrariar o nosso ciclo circadiano não é boa ideia!

O relógio circadiano (do latim circa + diem - cerca de dia) antecipa e adapta a nossa fisiologia às diferentes fases do dia. Adaptado da nota de imprensa de atribuição do Nobel da Fisiologia ou Medicina de 2017.
O relógio circadiano (do latim circa + diem – cerca de dia) antecipa e adapta a nossa fisiologia às diferentes fases do dia. Adaptado da nota de imprensa de atribuição do Nobel da Fisiologia ou Medicina de 2017.

Quando o nosso estilo de vida está alinhado com este relógio interno que é regulado também pelo dia/noite, por princípio tudo corre melhor. Há vários estudos que apontam para maior prevalência de certas doenças, quando, por exemplo, se trabalha por turnos.

O que é que acontece ao cérebro quando descansamos?

Em ciência, o que para nós em 2021 é considerado um dado adquirido, já foi discutido, às vezes acesamente, entre pares. Que o diga Bharat Biswal, engenheiro elétrico de formação, quando numa conferência, no início da década de 90, foi insultado por um reputado cientista que lhe disse que ele e a sua investigação deviam ser enterrados, que tudo não passava de lixo, que aqueles resultados eram um produto de ter sido deixado “à solta”.

Retrocedamos aos primórdios da ressonância magnética funcional por imagem. Basicamente, com esta técnica conseguimos ver imagens de diferentes áreas do cérebro a funcionar conforme o consumo de oxigénio.

Bharat Biswal, conta o próprio num artigo, andava às voltas com um ruído de fundo que aparecia nas imagens do cérebro mesmo quando as pessoas estavam deitadas, em repouso. Eliminou o sinal cardíaco, o respiratório, mas mesmo assim havia um sinal menor que estava presente no cérebro.

Tinha chegado à conclusão que o cérebro de uma pessoa em descanso estava, ao contrário do que se pensava, a trabalhar. Era o que mais tarde se veio a designar por rede de modo padrão.

Esta rede é muito complexa, gasta quase tanta energia como quando o cérebro está concentrado, varia conforme a idade e está relacionada com a atividade cognitiva e emocional relevante, a autoconsciência, a memória, a capacidade para imaginar o futuro, a empatia, o juízo moral, a sanidade, a criatividade, a inteligência.

O cérebro das crianças descansa?

Como descansa o cérebro de uma criança?

Esta é uma pergunta que o laboratório de Susan Perlman, da Universidade de Washington em Saint Louis, tenta responder.

Como vimos no verbo recordar, à nascença temos 100 mil milhões de neurónios.

Dizer a uma criança, até aos 8 anos, “está aí quietinha, deitadinha, descansa enquanto tiramos aqui umas fotografias ao teu cérebro”, é complicado, porque o natural é que não esteja a descansar, mas atenta ao próximo estimulo.

Experimentalmente ainda há muito a fazer nesta área para eliminar fatores externos e internos que introduzem erros nas medições. A teoria que este grupo de cientistas propõe é que o cérebro de uma criança não descansa como o de um adulto, já que períodos mais longos de descanso representam, ao contrário de um adulto, um aumento do controlo cognitivo.

Ao longo da vida o cérebro também aprende o que é descansar.

“Preciso de passar cinco minutinhos pelas brasas”…

E porque não? Há vários estudos que apontam para uma melhoria das funções cognitivas, da regulação emocional e do domínio de si mesmo depois de uma sesta.

Não é uma coisa só de portugueses ou espanhóis. Do mundo anglo-saxónico temos, por exemplo, Charles Darwin, J. R. R. Tolkien e Winston Churchill, que a fazia mesmo em plena II Guerra Mundial. E não é uma coisa de antigamente ou apenas para alguns sectores de atividade nalgumas zonas do mundo.

No ritmo frenético a que se vive, dominado pela luz azul, é essencial respeitar o ritmo circadiano. Arianna Huffington, escritora e empresária, cofundadora e diretora do Hufftington Post e fundadora e diretora do Thrive Global, tornou-se defensora acérrima da sesta como pausa no trabalho depois de ter acordado na sua secretária com sangue por desmaiar de cansaço.

E se no início fechava a cortina do seu gabinete para dormir a sesta, passou em seguida a deixá-la aberta, para incentivar os seus colaboradores a fazerem o mesmo. E conta a própria que depois das 20 horas não há correio eletrónico, telefones a tocar ou trabalho…

Ainda há muitas perguntas em aberto e termino com a sensação de que ficou muito por contar. O tema é vasto. Apenas uma certeza: o descansar, o devaneio mental (a “cabeça na lua”) e o dormir não são um luxo. São fundamentais para vivermos e vivermos bem.

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