O tempo da criação é o nosso tempo

Um texto de Filipa Pires de Almeida

Todos os anos (no mês de setembro) celebra-se o Tempo da Criação. Esta é a celebração cristã anual de oração e ação pela nossa Casa Comum. A família ecuménica ao redor do mundo une-se para rezar, lembrar e proteger a criação de Deus. No ano de 2021, o tema será: Uma Casa para todos? Renovar o oikos de Deus (sendo que oikos significa precisamente casa/família, segundo a sua etimologia grega).

Em 2021, esta celebração ocorre entre 2 de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, e a 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis, santo padroeiro da ecologia e padroeiro da Economia de Francisco (movimento que alimenta esta rubrica, em particular).

Sendo que o símbolo deste tempo de oração em 2021 é a tenda de Abraão, os cristãos são convidados a colocar fisicamente uma tenda nas suas casas. Esta tenda, associada à tenda de Abraão espelha precisamente esta ambição e desafio, que foi outrora colocado a Abraão e nos é agora colocado a nós: acolhermos a todos nesta Casa Comum, que é o nosso planeta. Todos os que fazem parte da criação, incluindo o ser humano e a integralidade da natureza e tudo o que ela contém como obra divina e sagrada.

Este tempo dedicado à criação leva-nos a questionar alguns dos temas com que nos debatemos todos os dias em sociedade e que hoje gostava de enfatizar. Somos todos convidados, portanto, a refletir sobre algumas questões:

  • Como cristão e como cidadão como tenho vivido a proteção da criação?
  • Renovo na minha vida, e em cada situação concreta, a minha chamada batismal a cuidar e sustentar todas as vidas sobre a terra, para que possam florescer?
  • Cuido de todas as criaturas para que possam encontrar o seu lugar na nossa casa comum?

Esta missão dos cristãos é a mais basilar missão que Deus transmitiu à humanidade no Jardim do Éden aos nossos primeiros pais. Inclui a nossa nobre missão de proteger e exponenciar a vida, a integralidade da criação e todos os seres que Deus criou. Não podemos, como cristãos, fugir às nossas obrigações ecológicas ou alimentar cepticismos que negam a destruição do planeta. Por outro lado, não somos aqueles que descuidam a vida humana em prol de ideologias ecologistas e eugenistas, que descartam o homem e o negam como o centro da criação divina sobre o planeta.

Assim, em momentos em que as Convenções Internacionais e as ideologias políticas se pronunciam, é chegado o momento de sabermos, como cristãos, ao que somos chamados.

Em primeiro lugar somos chamados a proteger a Vida

Este passo começa por defendermos a vida desde a concepção à morte natural e rejeitar propostas europeias de legislação que querem tornar o aborto um direito humano1. Queremos valorizar a vida de todos, principalmente dos mais débeis, não colocando em causa a vida dos mais velhos. Para tal cabe ao cristão recusar reiteradamente a eutanásia e todas as formas que alteram a vida no seu estado mais divino: o estado natural. Não obstante, temos obrigação de melhorar a vida do homem sobre a terra – o que requer uma missão continuada e profunda de combater a dor, garantir a qualidade de vida, a dignidade e o acolhimento a todos.

Assim sendo, valorizar a vida não pode nunca dissociar-se das obrigações sociais do cristão: garantir a justiça, o destino universal dos bens, a caridade. O olhar apaixonado de Cristo pede-nos que não deixemos de aclamar a vida e a sua dignidade com o olhar misericordioso de Deus.

Em segundo lugar, o cristão é chamado a proteger a Natureza

Uma declinação da primeira chamada a proteger a vida, num mundo em que como diz o Papa Francisco “tudo está interligado”. Neste sentido, não poderemos ser cristãos se rejeitarmos a emergência e urgência da degradação ambiental da nossa Casa Comum. Poluir, descuidar o uso justo dos recursos naturais, descuidar a vida animal é igualmente destratar a vida e a Criação.
E esta chamada não pode ser descuidada pelos 1.3 biliões de católicos que têm por missão cuidar da nossa Casa Comum.

Como nos relembra numa carta enviada a todos os cristãos, Monsenhor Bruno-Marie Duffé, Secretário do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, o “Tempo da Criação” também será um momento fundamental para as comunidades católicas levantarem a voz pelos mais vulneráveis e pelo Planeta. Após este tempo de oração, realiza-se a Conferência da ONU sobre Biodiversidade, na China, onde os líderes mundiais terão a oportunidade de definir metas significativas e robustas para proteger nosso lar comum. Em novembro realiza-se a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP26), será também um momento onde os países devem anunciar os seus planos para cumprir as metas do histórico acordo climático de Paris.

No meio de um mundo em que, como o Papa nos diz, não podemos ficar indiferentes ao grito da Terra e ao Grito dos Pobres, como andamos nós os cristãos a cuidar da Casa comum? Esta é a pergunta que vos deixo. Que faço eu e tu quando os países legislam sobre estes temas? Apoio legislações que estão de acordo com o que acredito e faço ouvir a minha voz quando é necessário proteger a vulnerabilidade da Casa Comum?

Filipa Pires de Almeida é vice diretora do Centro de Liderança e Negócios Responsáveis da Católica de Lisboa (School of Business and Economics).
Integra o grupo de Economistas que aconselha o Papa Francisco sobre um novo Modelo Económico, na iniciativa do Papa chamada “Economia de Francisco”.

1 17 de junho 2021, in Agência Eclesia:
“O relatório sobre a situação da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos na UE no contexto da saúde das mulheres, chamado ‘Relatório Matic’, vai ter apresentação final na próxima sessão plenária do Parlamento Europeu. O projeto de resolução apresenta o ‘serviço de saúde’ do aborto como um direito humano, para que os Estados-Membros cumpram as suas obrigações de acordo com os tratados internacionais de Direitos Humanos ao garantirem a sua prestação”.

Foto da capa: A hospitalidade de Abraão, ícone dos finais do sec. XIV, Museu Benaki, Atenas, Grécia, Wikimedia Commons. A cena representa os três estrangeiros (três Anjos) acolhidos por Sara e Abraão, junto ao carvalho de Mambré, sendo considerada uma representação simbólica da Santíssima Trindade.

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