A ousadia também é caminho…

O Papa Francisco surpreende constantemente. Atente-se na carta do Secretário Geral do Sínodo dos Bispos, Cardeal Mario Grech, em que ele apresenta o caminho sinodal do Sínodo dos Bispos Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão, com início em outubro de 2021, para terminar em outubro de 2023, nas suas três fases: fase diocesana, fase continental e fase universal.

A este propósito convêm reler algumas das ideias expressas pelo Papa no cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos:

Desde o início do meu ministério como Bispo de Roma, pretendi valorizar o Sínodo, que constitui um dos legados mais preciosos da última sessão conciliar. Segundo o Beato Paulo VI, o Sínodo dos Bispos devia repropor a imagem do Concílio Ecuménico e refletir o seu espírito e o seu método. O mesmo Pontífice previa que o organismo sinodal, “com o passar do tempo, poderia ser aperfeiçoado”…

O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio

Jesus constituiu a Igreja, colocando no seu vértice o Colégio Apostólico, no qual o apóstolo Pedro é a “rocha” (cf. Mt 16, 18), aquele que deve “confirmar” os irmãos na fé (cf. Lc 22, 32).

Mas nesta Igreja, como numa pirâmide invertida, o vértice encontra-se abaixo da base. Por isso, aqueles que exercem a autoridade chamam-se “ministros”, porque, segundo o significado original da palavra, são os menores no meio de todos.

É servindo o Povo de Deus que cada bispo se torna, para a porção do Rebanho que lhe está confiada, vicarius Christi, vigário daquele Jesus que, na Última Ceia, se ajoelhou a lavar os pés dos Apóstolos (cf. Jo 13, 1-15). E, num tal horizonte, o Sucessor de Pedro nada mais é do que servus servorum Dei.

São imprevisíveis as consequências deste anúncio do programa do Sínodo. Há quem considere que estamos diante da ideia mais revolucionária para a Igreja depois do Concílio Vaticano II. Como disse a professora Myriam Wijlens, teóloga holandesa e canonista que leciona na Universidade de Erfurt, na Alemanha:

O Papa está carregando no botão de reiniciar. Quando reinicializamos o nosso computador, não se acrescenta nada, mas ele fica novamente configurado para funcionar de maneira otimizada. Francisco não está a acrescentar nada de novo. Ele está a implementar mais profundamente o Concílio Vaticano II.

Estarão as Igrejas locais disponíveis para ousar este caminho?

As primeiras referências do Secretário, Cardeal Mario Grech, são de entusiasmo, afirmando que a reação dos bispos contactados é “surpreendente e muito positiva”.

Nos primeiros sínodos, sobretudo no sínodo sobre “A evangelização no mundo moderno”, em outubro de 1974, houve uma participação alargada de pessoas e movimentos. Recordo, a título de exemplo, que o Instituto Justiça e Paz de Coimbra fez chegar à Secretaria do Sínodo um excelente documento que recolhia o contributo de vários encontros de universitários como resposta ao “documento de trabalho”.

Igualmente os assistentes Europeus dos movimentos estudantis e universitários católicos realizaram um encontro em Lérida para debate e resposta às questões propostas para a preparação do Sínodo.

O Documento pós sinodal do Papa Paulo VI Evangelii nunciandi deixa entrever a participação diversificada que teve.

Curiosamente, o caminho sinodal foi-se estreitando durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI. Era, no dizer de alguém, praticamente “a cozinha eclesiástica” a dar as respostas ao chamado instrumentum laboris.

Com o Papa Francisco há um retomar da participação nos sínodos abrindo novos espaços de intervenção e de escuta.

O caminho foi-se aperfeiçoando e o Sínodo sobre a Amazónia, nas diferentes modalidades de escuta que promoveu, torna-se uma referência para organizações futuras.

O debate eclesial depois do texto do Papa no 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos permite antever que as resistências dos que preferem esconder a cabeça na areia pode estar bastante enfraquecida.

Como disse o Papa na Homilia do Pentecostes:

O Paráclito impele à unidade, à concórdia, à harmonia das diversidades. Faz-nos sentir parte do mesmo Corpo, irmãos e irmãs entre nós. Procuremos o conjunto! E o inimigo quer que a diversidade se transforme em oposição e por isso faz com que se tornem ideologias. Dizer “não” às ideologias, “sim” ao conjunto.

Os ventos que sopram dos sínodos, da Alemanha, da Assembleia do Celam, da Irlanda e da Austrália, bem como da preparação de sínodos diocesanos, podem ajudar a mover a barca de Pedro por mares desconhecidos e audazes.

O Sopro de Deus está a agitar esta Igreja que precisa de reencontrar-se permanentemente com o Evangelho.

Foto da capa: O bispo auxiliar Mark Stuart Edwards, de Melbourne, Austrália, conversa com a delegada dos jovens da Indonésia, Anastasia Indrawan, antes de uma sessão do Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a fé e o discernimento vocacional. Vaticano, 9 de outubro de 2018. Foto Catholic News Service / Paul Haring.

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