Um cardeal franciscano

Temos de aprender com Santo António a ser mais incisivos na vida social, económica e política

Caros leitores, hoje estamos em diálogo com frei Mauro Gambetti, até há pouco Custódio do Sagrado Convento de Assis e que, surpreendentemente, foi feito cardeal no passado mês de novembro, pelo Papa Francisco. Partilho convosco algumas passagens da entrevista de Sabina Fadel, publicada no il Messaggero di Sant’Antonio, de abril de 2021.

Se não fosse a cruz que traz ao peito, não diríamos que é um cardeal, pois continua a vestir o hábito franciscano que sempre usou e continua com a mesma forma de ser: simples, alegre e direto. Mauro Gambetti tornou-se cardeal no dia 28 de novembro de 2020 e foi nomeado, pelo Papa Francisco, Vigário-Geral para a Cidade do Vaticano e Presidente da Fábrica de São Pedro, no dia 21 de fevereiro de 2021.

Frei Mauro, não sabia mesmo de nada quando, no dia 25 de outubro, o Papa Francisco o nomeou cardeal?

Não, não sabia de nada. Quando o Papa disse o meu nome, no fim da oração do Angelus, eu estava ocupado numa reunião com uma pessoa e, de repente, comecei a receber muitos telefonemas. Fiquei preocupado e pensei que tivesse acontecido alguma coisa grave. Assim que terminei a reunião com a pessoa liguei para um amigo, que me deu a notícia. Ao início pensei que fosse uma brincadeira. Até fui ver ao site do Vaticano e não encontrei lá nada.

E depois? O que pensou?

Pensei… que a minha vida tinha mudado de forma radical.
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Quais são os objetivos a que se propõe enquanto cardeal?

À parte o mandato e a função específica que o Papa Francisco me confiou, quero ser servo fiel do Papa e da Igreja segundo o espírito de São Francisco, em humildade e obediência, mas também com a criatividade que faz parte do nosso carisma franciscano.

O seu mote episcopal, Omnibus subiecti in caritate, faz parte da expressão de São Pedro (1 Pe 2, 13) e de São Paulo (Ef 5,21) (Submisso a todos por amor). É uma clara referência à espiritualidade franciscana: “Não façam discussões nem contendas, mas sejam submissos a toda a criatura humana por amor de Deus” (Francisco de Assis, Regra não bulada, XVI, 6).

Estou convencido de que este deveria ser o modo de viver a fé para todo o cristão e não só para quem tem de viver um ministério dentro da Igreja. Antes de São Francisco, foi o próprio Jesus a traçar este caminho para os seus discípulos: somos chamados a ser submissos uns aos outros.

O Papa Francisco, a começar pelo nome que escolheu, demonstrou apostar muito no “franciscanismo”. A sua nomeação segue também esta direção?

Creio que a questão não é “franciscanizar” a Igreja, mas beber de alguns aspetos da espiritualidade franciscana que hoje podem ajudar a responder aos desafios que o mundo nos coloca e que permitem testemunhar, de forma simples e imediata, a mensagem de Jesus. Basta olhar para os temas clássicos do Cristianismo, como a promoção da paz e a defesa da criação.
Ou para a fraternidade, se pensarmos na encíclica Fratelli tutti. Há um novo estilo de ser Igreja presente no mundo franciscano e no Papa: a menoridade.

O frei é proveniente da Província Italiana de Santo António, dos Frades Menores Conventuais. Quem é para si Santo António?

"Há um novo estilo de ser Igreja presente no mundo franciscano e no Papa: a menoridade". Cardeal Gambetti, Roma, 1 de abril de 2021. Foto Cristian Gennari/Siciliani.
Há um novo estilo de ser Igreja presente no mundo franciscano e no Papa: a menoridade. Cardeal Gambetti, Roma, 1 de abril de 2021. Foto Cristian Gennari/Siciliani.

É um grande Santo que me acompanha desde o meu nascimento: o meu segundo nome é António. Antes de entrar no convento, passei um longo período longe da Igreja. Licenciei-me em Engenharia Mecânica, tinha uma namorada e estava a trabalhar numa empresa familiar, mas já não vivia a dimensão da fé. A minha mãe e a minha avó estavam preocupadas e rezavam a Santo António por mim.

No entanto, quando disse em casa que queria tornar-me frade, a resposta atónita da minha mãe foi: “demasiada graça Santo António! Eu só tinha pedido que o Mauro voltasse à Igreja e não que se tornasse frade”.

De facto, ao início, não é que a minha família tenha exultado de alegria com a minha decisão de ser frade; isso só veio mais tarde, com o tempo.

Mas para além da minha experiência pessoal, creio que Santo António é um Santo que todos sentem muito próximo.

Santo António foi muito importante na história do “franciscanismo”: grande orador, tinha o dom da palavra e falava da vida concreta. Nós, franciscanos, temos de aprender com ele a ser mais incisivos na vida social, sem ter medo de entrar nas dinâmicas económicas e políticas. Ele viveu uma espiritualidade muito concreta no contexto onde vivia e num horizonte de universalidade. A nós, pede-nos que façamos o mesmo.

Foto da capa: Frei Mauro Gambetti e o Papa Francisco na Basílica Superior de São Francisco, durante a visita pastoral a Assis, a 4 de outubro de 2013. Foto Cristian Gennari/Siciliani.

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