Gritar um sussurro

Continuo, nesta partilha, a tentar identificar os grandes desafios do momento presente. A nossa vida e as nossas rotinas aproximam-se cada vez mais daquilo a que estávamos habituados. Já nos encontramos com mais gente, já ousamos fazer saídas em conjunto, já marcamos almoços e jantares com amigos e familiares, já podemos ir ao teatro, ao cinema e a outros eventos culturais, e muitos outros «já» de que sentíamos tanta falta.

As fronteiras estão abertas, os voos estão a multiplicar-se e os turistas começam a chegar num número significativo. O tempo também começa claramente a convidar às saídas e fins de semana noutros lugares, pelo que se animam os hotéis, as casas rurais, os turismos de habitação e tantos outros complexos turísticos que aguardavam ansiosamente por estes dias. As férias começam a aproximar-se e estão a ser pensadas e marcadas com todo o entusiasmo.

Também as ruas se animam de outra maneira, com o comércio e as lojas abertas. As pessoas regressam, de uma maneira mais evidente, aos seus locais de trabalho, permitindo que as casas retomem a sua missão habitual, abandonando o papel multitask que durante tanto tempo desempenharam ao transformaram-se, quase que subitamente, em local de trabalho, escola, ginásio, igreja e tantas outras coisas, à medida que as necessidades iam sugerindo.

Entre nós, o número de vacinados vai aumentando a um ritmo que muitos julgaram até não ser possível, de tal modo que começámos a acreditar que a meta da tão ansiada imunidade de grupo já não é uma miragem longínqua. E se temos consciência de não ser assim em todas as partes do mundo, pois muitos ainda estão a passar muito mal, e se reconhecemos que ainda não podemos abandonar as atitudes cuidadosas, a verdade é que estamos muito contentes por já não faltar muito para podermos, de novo, abraçarmo-nos e estarmos uns com os outros sem grandes preocupações.

Quando tudo parece claramente ir em direção da normalidade, eis que se torna urgente voltar a fazer escutar aquela interpelação sussurrada ao ouvido do Cardeal Jorge Mario Bergoglio, no dia 13 de março de 2013, poucos momentos depois da sua eleição para exercer, na Igreja, o Ministério de Pedro: Não te esqueças dos pobres.

Hoje, conhecemos bem o impacto profundo que essas palavras tiveram. Bergoglio escolhe o nome de Francisco, tendo bem presente o estilo de vida do santo de Assis e coloca os pobres no centro da atenção e ação da Igreja.

A este propósito convém revisitar e nunca esquecer o que a esse respeito afirmou na Exortação Evangelii Gaudium:

Se a Igreja inteira assume este dinamismo missionário, há-de chegar a todos, sem excepção. Mas, a quem deveria privilegiar? Quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, «àqueles que não têm com que te retribuir» (Lc 14, 14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, «os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho», e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!

Tão central é este vínculo para Francisco que não hesita em afirmar como para a Igreja, a opção pelos pobres é essencialmente uma categoria teológica mais do que cultural, sociológica, política ou filosófica, sendo esta chamada a reconhecer a força salvífica das suas vidas e a colocá-los no centro do seu caminho, sem ter medo de ser uma Igreja pobre para os pobres (cf. EG, 198). De tal modo esta opção é decisiva, que ficar surdo ao clamor dos pobres é não estar atento à vontade de Deus, ficando fora do seu projeto (cf. EG, 187).

Mais de 5000 migrantes chegaram a nado cruzando a fronteira de Tarajal, em Ceuta, 17 de maio de 2021. Foto EPA/ Brais Lorenzo.
Mais de 5000 migrantes chegaram a nado cruzando a fronteira de Tarajal, em Ceuta, 17 de maio de 2021. Foto EPA/ Brais Lorenzo.

Esta chamada de atenção, neste preciso momento, não quer em nada diminuir o entusiasmo pelo fim do desconfinamento, nem quer ser um apelo romântico à pobreza. Aliás os textos citados dão a centralidade aos pobres, não à pobreza, sobretudo aquela que é indigna do ser humano e que deve ser combatida sempre e em todos os locais.

Mas não tenhamos ilusões, não nos podemos distrair, pois os longos meses de pandemia vão cobrar agora, de um modo mais evidente, a sua fatura. À medida que tudo vai regressando ao normal, as proteções que fomos capazes de construir vão desaparecendo e muitos mais sofrerão com isso. A qualidade humana da sociedade que somos chamados a construir exige esta atenção muito cuidada aos mais frágeis e desprotegidos.

As comunidades cristãs têm de ser sempre, mas de um modo especial em momentos como estes que estamos a viver, sinal e testemunho desta opção preferencial pelos pobres. Têm de dar-lhes voz e visibilidade, criando as condições para que possam ser protagonistas da sua dignificação. Por isso, no momento em que a nossas sociedades se estão a reorganizar para seguir em frente, é preciso que o sussurro soe bem alto, de modo a que nunca nos esqueçamos dos pobres, de modo a que ninguém fique esquecido para trás.

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