O Tempo das igrejas vazias

A experiência do chamado primeiro confinamento foi a oportunidade para o teólogo checo Tomás Halík – autor de Paciência com Deus ou O meu Deus é um Deus ferido, entre outros – desenvolver uma fecunda reflexão sobre um modo novo de ser Igreja na sociedade ocidental. Recusando, no seu ministério paroquial, a mera transmissão digital dos rituais litúrgicos – pois, para haver uma celebração sacramental, é necessária a presença real da comunidade cristã – Halík propôs ao invés um conjunto de reflexões bíblicas em torno dos domingos da Quaresma e Tempo Pascal, acompanhadas de propostas de oração pessoal e familiar. “Sim, às vezes é útil interromper mesmo a prática comum de ‘ir à igreja’, na medida em que se tornou uma rotina de consumo passivo, e procurar novos caminhos”. São estas homilias que surgem agora reunidas nesta obra.

A ausência de celebrações públicas foi uma oportunidade para mergulhar mais para o fundo e colocarmo-nos questões essenciais. Se para muitos católicos a ida à missa dominical era um dos principais pilares da sua identidade cristã, agora terão de se questionar sobre o que pode ser uma nova e mais profunda fonte da sua vida de fé. O que faz de um cristão um verdadeiro cristão, quando o ‘funcionamento da Igreja’ tradicional de repente deixa de funcionar?

Seguindo a pedagogia do mistério pascal – a fé que permite a ferida, a passagem, o silêncio e a morte para renascer de um modo novo, diferente e fecundo – Halík expõe, numa linguagem coloquial, uma compreensão sapiencial da experiência cristã. O cristão e a comunidade cristã seguem aqui os passos do seu Mestre, na transfiguração de uma época histórica atual difícil, chamados e impelidos pela força de um vírus a sair das igrejas em direção a um mundo carente de fraternidade e compaixão.

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