O dom frágil da vida

Texto de Ana Rocha

A palavra “dom” alude a uma dádiva, um benefício, um dote natural. Quando a aliamos à palavra vida percebemos que existe nesta associação, a maior dádiva que todo o ser humano recebe e que lhe possibilita a existência no Mundo!
E este é o ponto de partida.

Não pedimos o dom da vida, mas é-nos dado e junto com ele vem a incógnita de como será a vida, as relações que ela possibilita e até quando existe. O dom da vida decorre da união de 2 pessoas, alicerçada ou não pelo amor, e traduz-se numa nova existência humana que tem tanto de belo como de incógnito e de frágil.

Enquanto enfermeira, no cuidar do ser humano ao longo do seu ciclo vital, desde a gestação à sua finitude (morte), verifico que a fragilidade da vida se encontra patente em vários momentos. Logo à partida, o dom da vida resulta da vontade de outrem, ou seja, a primeira fragilidade surge logo na gestação. Nascemos porque outros determinam que tal aconteça ou não. Somos dependentes do outro na conceção e no nascer e depois na manutenção da nossa vida, na primeira infância. Existir, porque o outro assim o determina ou apoia essa existência, é a primeira fragilidade que encontro na vida, a qual se vai perpetuando noutras dependências e circunstâncias.

Outra fragilidade da vida é não sermos integralmente donos dela, pois ela não é só o que queremos que seja. Ouvimos tantas vezes dizer num grito de autodeterminação, que “a vida é minha, faço dela o que quero”! E até certo ponto é verdade, mas não o é na sua totalidade. E por não o ser, identifico uma nova fragilidade no dom da vida.

A vida acontece e mostra-nos que os nossos planos não são assim lineares e fá-lo, sempre que nos surpreende com uma doença ou deficiência física/mental grave inesperada, um acidente que nos empurra para uma nova dependência, uma perda de emprego que nos deixa com dívidas, uma pandemia que nos obriga a alterar a liberdade individual pelo bem maior coletivo e a privar-nos do abraço e de estar com os que amamos sem limitações. Em todas estas situações, somos sujeitos a perda de controlo e somos confrontados com a vulnerabilidade da vida que, desta forma, nos faz depender de outros para que subsista. E isto torna-nos frágeis, vulneráveis e mostra o quanto o dom da vida também o é.

Quando somos confrontados com a fragilidade do dom da vida, sobretudo perante o envelhecimento, a dependência, o sofrimento e a morte, somos impelidos a ativar a nossa humanitude, a juntar energias que conferem resistência ao outro na sua fragilidade, a assumir um olhar dirigido às necessidades do outro e a tocar a sua vida enquanto suporte de cuidado. É imprescindível ativar os mecanismos individuais da pessoa, da família ou da comunidade, objetivando o alívio do sofrimento.

Nas fragilidades do dom da vida somos convidados, quer quem passa pela fragilidade, quer quem está à sua volta, a ser tampão plaquetário e cascata de coagulação.

Explicando melhor! Perante uma hemorragia, a coagulação sanguínea permite a transformação do sangue líquido num gel sólido, designado de coágulo sanguíneo com o objetivo de parar a hemorragia. Quando existe uma lesão (fragilidade), as plaquetas são ativadas e vão iniciar a sua função na formação do tampão plaquetário, que dá um contributo para iniciar a cascata da coagulação, uma sequência de passos que permite ativar outros fatores necessários para controlar ou parar a hemorragia. Se nada fosse feito, se o sangue não se transformasse de líquido em sólido, se as plaquetas não se unissem e os fatores de coagulação não se ativassem, os danos da hemorragia seriam maiores.

Esta metáfora procura demonstrar que, perante a fragilidade do dom da vida somos impelidos à transformação, tal como o sangue líquido se transforma em coágulo, não deixando de ser na sua essência o que é, mas mutando-se para uma nova realidade e necessidade, agindo perante a fragilidade que se apresenta. Do mesmo modo, somos convidados a ser e criar redes de suporte (tal como as plaquetas), ativando apoios que fortaleçam e/ou aliviem o sofrimento causado pela fragilidade da vida na sua dimensão física, psicoemocional, socioeconómica e espiritual. A fragilidade do dom da vida incita-nos a “ouvir com outros olhos”, como alude o Dr. João Lobo Antunes, num convite à intencionalidade da nossa humanitude para com a vulnerabilidade da vida, à inquietação interminável de nos aproximarmos do outro e à capacidade de nos reinventarmos, ao ponto de escutarmos a dor do outro sem a cegueira do ritmo alucinante da vida, com a certeza que o valor da vida está no hoje e naquilo que ela nos possibilita hoje.

O amanhã é esperança, mas também é incógnita por sabermos que a vida terrena é finita.

Acresce ainda a esta reflexão perceber que, vida é tão frágil para nós, que não termina nela própria e se perpetua para além da nossa finitude física, do nosso último sopro, da nossa morte biológica. Não temos controle sobre isso! A maioria dos que estão no leito da morte ou que pensam na sua finitude, preocupam-se como ficarão os que amam na sua ausência, pois sabem que permanecem vivos na lembrança das pessoas para as quais foram significativos e perpetuam-se neles e na sua existência. E essa permanência traz inicialmente, na vivência de quem está no inexorável caminho para a morte, elevado sofrimento e angústia, que se apazigua ao transformar a dor em amor.

É sem dúvida na fragilidade, que o dom da vida assume a sua intensidade. É a fragilidade que confere à vida maior valor, que lhe imputa sofrimento, lhe alude cuidado e nos desafia no amor.

E quando o amor encontra o sofrimento nasce a compaixão que promove a solidariedade, o altruísmo, o acolhimento e outras ações essenciais do ser humano para a existência e sobrevivência da humanidade.


Ana Rocha

Ana Maria Neves Rocha, enfermeira no Serviço de Cuidados Paliativos do IPO Coimbra.
Mestre em Cuidados Continuados e Paliativos e Especialista em Enfermagem Médico Cirúrgica à pessoa em situação crónica e paliativa.
Assistente Convidada na Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro e na Faculdade de Medicina de Coimbra.

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