Maria, videira entrelaçada à verdadeira cepa

A Palavra de Deus

Naquele tempo, enquanto Jesus falava à multidão,
uma mulher levantou a voz no meio da multidão
e disse: “Feliz a mulher que te trouxe no seu ventre
e te amamentou ao seu peito”.
Mas Jesus respondeu:
“Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus
e a põem em prática”.

Lc 11, 27-28

A palavra de Santo António

É na verdade bem-aventurado quem te trouxe a ti, Deus e Filho de Deus, Senhor dos Anjos, criador do céu e da terra, redentor do mundo.
A Filha trouxe o Pai, a Virgem pobrezinha trouxe o Filho…

Os seus seios inebriar-te-ão em todo o tempo, escreve Salomão nos Provérbios (Pv 5,19).
Mas é muito de admirar que tivesse dito: “inebriar-te-ão”,
quando nos seios não há vinho que inebrie, mas leite agradabilíssimo.

Ouve o porquê: “Quão formosa e encantadora és, ó querida, entre as delícias! A tua silhueta é semelhante a uma palmeira e os teus seios a dois cachos de uvas” (Cântico, 7,6-7).

O cacho é um conjunto de uvas reunidas; a cepa, assim chamada por ter força de ganhar raízes ou por se entrelaçar, é Maria Santíssima que,
de modo inseparável se entrelaçou ao seu Flho, “a verdadeira cepa” (Jo 15,1). Os cachos de uvas na cepa são a pobreza, a paciência e a abstinência na Virgem. Estas são as uvas maduras donde provém o vinho maduro e saboroso, que inebria e, inebriando, torna sóbrios os corações dos fiéis.

Refugia-te nela, ó pecador, porque ela é a cidade do refúgio.
Também agora a misericórdia do Senhor deu refúgio ao nome de Maria.
Refugie-se nela o pecador e salvar-se-á.

Nome doce, nome que conforta o pecador, nome de bem-aventurada esperança. Senhora, o teu nome está no desejo da minha alma.

Sermões de Santo António, Em louvor da Santíssima Virgem Maria, 3

Aprofundemos

A Virgem Maria é mencionada mais de 250 vezes nos Sermões de Santo António, com o título de “bem-aventurada”.

A maior felicidade de Maria é ter carregado no seu ventre e alimentado por longos meses o seu filho Jesus. Tal elogio só poderia vir de uma mulher, modesta, sem nome, perdida na multidão, mas consciente daquilo que ela própria tinha experimentado. A esta felicidade inteiramente natural de Maria, António acrescenta a graça tão abundante que lhe permitiu vencer todas as formas de pecado e merecer dar à luz aquele que nunca pecou.

A felicidade de Maria é, portanto, a de uma mãe natural. Mas há mais. A resposta de Jesus vai além da maternidade física, porque Aquele que Maria trouxe é “Deus e Filho de Deus, Senhor dos Anjos, criador do céu e da terra, redentor do mundo”. A verdadeira felicidade de Maria vem do seu título de Mãe de Deus; o alimento com que O alimenta é a Palavra de Deus, mais doce e nutritiva do que o leite materno. “Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,28).

A resposta de Jesus refere-se à atitude com que Maria acolheu o anúncio do Anjo: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Maria acolheu e pôs em prática esta Palavra, guardando-a no seu coração (Lc 2, 51), meditando-a ao pé da cruz, alegrando-se com ela na manhã de Páscoa e quando foi “elevada à glória do céu”.

Também nós seremos bem-aventurados quando, em todos os momentos da nossa vida, felizes ou dolorosos, como neste tempo, soubermos encontrar no coração de Maria um modelo de fidelidade e um refúgio de esperança e de paz.

Foto da capa: Nossa Senhora do leite, onde a Virgem é uma uma mãe serena que, enquanto amamenta o filho, procura o seu olhar e lhe sorri. Pintura de Andrea Solari (1460-1522), Museu do Louvre. Foto: Sailko, 2013 | Wikimedia Commons.

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