A gamela, os filhos e o avental

Maria Alice Brígida de Almeida nasceu em 1936 em Vila Nova de Tazem. É uma das protagonistas de “Mulheres em Portugal”, o documentário da RTP e da Fundação Francisco Manuel dos Santos transmitido em dois episódios, no passado mês de abril.

Maria Alice conta sobre o namoro com o marido, a oposição dos pais, a vida do casal, o campo (“os homens ganhavam 14 escudos, as mulheres, 7”), as crianças pequenas, a força e a arte com que cavava um rego tão bem como um homem.

Com a genica da gente da terra, que ainda assim não disfarça os maltratos de um corpo sacrificado na labuta, Maria Alice recorda a diferença entre a vida do marido e o acumular das tarefas dela que às vezes levava “uma gamela à cabeça, um filho ao colo e outro na ponta do avental”.

O documentário é apoiado pelas intervenções de pessoas ligadas ao estudo do tema bem como por dados estatísticos relevantes sobre os últimos quarenta anos da vida das mulheres em Portugal. É evidente a evolução positiva ao nível, por exemplo, da educação e da legislação (celebro aqui o marco igualitário que é a licença parental partilhada aquando do nascimento de um filho). E é também evidente o caminho que há para fazer em muitas áreas, como na igualdade salarial ou na representatividade política.

Quando o jornalista da TVI, Miguel Sousa Tavares, perguntou à coordenadora da task force do governo sobre ciências comportamentais, Margarida Gaspar de Matos, “que grupos […] é que acha que sofreram mais neste ano de vida […]?”, a psicóloga sorriu e tentou esquivar-se à resposta: “Acho que todos nós estamos a sofrer com isso, cada um de nós à sua maneira.” Para a investigadora, este nós inclui explicitamente crianças, adolescentes, mulheres, homens, migrantes, não migrantes, os mais velhos, os mais novos, trabalhadores, desempregados…

Margarida Gaspar de Matos acaba por recorrer aos resultados de estudos que dizem que os homens e os aposentados “não estão a sofrer tanto”. O jornalista sorri e a entrevistada interrompe o discurso para dizer, sorrindo também: “Está a ver? Já está com essa cara.” Sempre no tom ameno entre quem antecipa reações que já conhece e quem parece cansado de ouvir as mesmas análises, Sousa Tavares afirma: “Já me estou a sentir excluído.” E pergunta, “Porque é que os homens sofrem menos, já agora?” (TVI24, 19 de abril de 2021).

A partir daqui a conversa toma outro rumo, com várias questões importantes sobre a nossa vida atual face às crises abertas ou agravadas pela pandemia. Porque é que Margarida Gaspar de Matos quis evitar a referência a quem mais sofre ou a quem menos sente os impactos negativos da pandemia? É um frente a frente sem beligerâncias, mas com alguma, digamos, pirraça benévola, entre a mulher e o homem, que é mais do que entre uma mulher e um homem.

Por isso, “naquela cara” que o jornalista fez e no comentário sobre a “exclusão” está um bocadinho da resposta. É a reação de quem há mais de um ano está a ouvir que as mulheres sofrem mais com a pandemia e de quem há poucos anos começou a (ter de) ouvir que as mulheres continuam a arcar com a maior parte do quotidiano, acumulando tarefas exigentes, quer em casa, quer no trabalho, quer numa vida social de que as mulheres já não querem abdicar e que é uma terceira esfera de presença, além das esferas doméstica e laboral.

Os vários estudos académicos que se têm feito em Portugal sobre o impacto dos confinamentos e da pandemia na população, têm revelado resultados consistentes. No caso das mulheres, o impacto psicológico é também reflexo de um aumento das responsabilidades e da sobreposição do espaço/tempo do trabalho com o espaço/tempo das tarefas domésticas, e do apoio aos filhos e aos ascendentes dependentes.

Ademais, os empregos ligados às limpezas e ao cuidar, muito sobrecarregados durante a pandemia, são ocupados maioritariamente por mulheres. Esses empregos são, ao mesmo tempo, áreas em que há maior precaridade laboral, salários baixos e contratos inexistentes, tornando as trabalhadoras facilmente descartáveis. Por outro lado, sem escola para onde enviar os filhos, as casas encolheram (mesmo nas famílias em que o espaço não é exíguo), os horários diferentes exigiram novas dinâmicas e partilhas. Sendo as mulheres já mais propensas à depressão e à ansiedade, é natural que esses sintomas se tenham agravado.

Não estou apenas a enunciar factos objetivos, estou a pensar em vidas subjetivas: mesmo quando a panela tem nome simpático e ligação à Internet, não deixa de ser uma panela. Os auscultadores são moderníssimos, sem fios, o computador está apoiado na bancada da cozinha, câmara apagada: as reuniões em “horário de homem”, ao fim do dia em dias infindáveis, sobrepõem-se à hora de preparar o jantar.

É preciso gerir tanta coisa. Com o marido sempre em casa, não dá para substituir o almoço pela gulodice de um café com leite e pão com queijo em frente à TV; as saudades dos netos, as saudades dos pais; as dores nas articulações depois da limpeza da casa com as costas curvadas e sem a preciosa ajuda semanal da empregada doméstica; a falta das amigas; a inépcia informática; o contacto impossível com o centro de saúde; a incapacidade para ajudar a filha com as contas da matemática; a falta do silêncio e do tempo para se encontrar sozinha. Nem já aquela viagem na carreira, a caminho do trabalho, com a cabeça encostada à janela. E se não volta ao trabalho?

 Outra energia: poder para continuar desafiando - 16 artistas mulheres de todo o mundo, exposição no Museu de Arte Mori em Tóquio, Japão, 21 de abril de 2021. EPA / FRANCK ROBICHON.
Outra energia: poder para continuar desafiando – 16 artistas mulheres de todo o mundo, exposição no Museu de Arte Mori em Tóquio, Japão, 21 de abril de 2021. EPA / FRANCK ROBICHON.

Não tem sido sempre mau, nem mau para todos, é verdade. Sei que nem só de filhos e casamentos vivem as mulheres e sei que o sofrimento não é uma competição, sobretudo não é uma competição entre mulheres e homens. Mas não vale fazer “aquela cara”, entre o gozo e o enfado, e ser insensível aos concretos passos que todos (todos!) temos de fazer para não perpetuar fragilidades e invisibilidades baseadas no género.

Maria Alice levou sozinha a gamela, os filhos e o avental. É preciso entre todos equilibrar as gamelas, amparar os filhos e partilhar o avental.

Foto da capa: Maria Alice no documentário Mulheres em Portugal, de Ricardo Freitas, com guião de Juliana Santos e de Marta Curado, 2021.

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