1. Santa Irene (Iria)

Jovens… e santidade “à portuguesa”

Ao longo dos últimos meses, fomos guiados pelos exemplos de santidade juvenil que o Papa Francisco nos propõe na Christus Vivit: um percurso que atravessa os séculos, cruza diferentes latitudes e longitudes, incarna múltiplos contextos e que se concretiza em outras tantas formas de dizer “sim” a esse desafio que Deus faz a todos nós: Sede santos como Eu sou santo (Cfr. Lv 11, 44; 1 Pd 1, 15-16; 1 Ts 4, 3).

Estendendo esta viagem, e porque se aproximam as JMJ Lisboa, gostaria de apresentar mais alguns exemplos de jovens santos, desta vez unidos pelo facto de de terem Portugal como a terra que os viu nascer.

Começamos com a jovem e mártir Iria/Irene, “madrinha e padroeira de Santarém” (cf. Almeida Garrett – Viagens na Minha Terra, caps. XXIX e XXX), cuja hagiografia está também ligada a Tomar.

Santa Irene (Iria)

A história de Irene/Iria é um intrincado “problema hagiográfico e toponímico”, como lhe chamou o padre e historiador Avelino Jesus da Costa, uma vez que, tal como acontece com outros santos, aquilo que acerca dela se afirma está envolvido, por um lado, pela memória, literatura, espiritualidade e devoção e, por outro, pelo silêncio a que a História positivamente nos atira quanto à existência real de tal personagem.

De facto, estamos no registo da lenda… Mas não se entenda esta como algo de meramente fantasioso: lenda tem origem no latim legenda, ou seja, “coisa/aquilo que deve ser lido”, histórias que “devem ser lidas”, quer dizer, conhecidas e transmitidas de geração em geração, pois através delas perpassa também a nossa cultura, a nossa identidade e, no fundo, algumas das “lições” que a História nos tem para dar.

Ora, narra então a lenda de Irene (que se mistura com a lenda popular de Iria) que esta nasceu por volta do ano 635, em Nabância, uma villae (casa de campo) romana próxima de Sellium, nome antigo da cidade de Tomar.

Oriunda de uma família abastada, seus pais eram Ermígio e Eugénia, de sangue nobre. A jovem recebeu uma educação refinada num mosteiro de monjas beneditinas governado pelo seu tio, o Abade Célio. Reconhecendo o carácter bem-disposto e vivaz de sua sobrinha, encarregou o monge Remígio, homem sábio e religioso, de instruí-la nas letras e nos bons costumes.

Irene era uma jovem inteligente e bela, pelo que facilmente foi alvo da afeição das demais monjas e pessoas da sua terra. Totalmente separada das “coisas do mundo”, tinha como companheiras suas tias Casta e Júlia. No dia da festa de São Pedro, costumavam visitar a capela dedicada ao santo, situada nas imediações do palácio de Castinaldo, governador daquelas terras. Britaldo, filho único de Castinaldo, também por ali se demorava na composição das suas trovas.

Quando, certo dia, Britaldo vê, pela primeira vez, a bela Irene, o seu arrebatamento foi tão intenso que ficou febril, ansiando pela companhia da jovem. Irene, através de uma revelação divina, fica a saber do amor de Britaldo e decide visitá-lo, para lhe dizer que a sua doença não era mortal e que Deus o curaria se ele afastasse de seu coração tais desejos… Britaldo acabou por se tranquilizar, sobretudo quando esta lhe prometeu que nunca se entregaria aos braços de outro homem. Reanimado, o jovem recupera a saúde e converte-se num dos maiores financiadores do mosteiro onde Iria se recolhera.

Mais tarde, seria a vez do seu precetor, o monge Remígio, nutrir por ela uma paixão. A jovem rejeita todos os intentos do frade, repreendendo-o pela sua conduta. Frei Remígio, desgostoso, decide envenená-la com uma tisana que a fez inchar tanto que se pensou que estivesse grávida. Britaldo, ouvindo tais rumores e suspeitando que ela faltara à promessa, manda o seu servo Banão matá-la, ordem cumprida a 20 de outubro de 653, degolando-a e atirando o corpo ao rio Nabão.

Na manhã seguinte, dando pela sua falta, pensaram alguns que teria fugido com o amante; mas o abade Sélio, guiado por uma revelação sobrenatural, conta a verdade aos demais monges e ao povo, logo partindo, com estes, à procura do corpo.

Das águas do Rio Nabão, o corpo é levado às do Zêzere e logo às do Tejo. Foi então que o abade viu as águas do rio afastarem-se e revelarem um sepulcro de mármore, onde jazia, por milagre, o corpo da jovem. Não o podendo retirar das águas, levou consigo relíquias do cabelo e da túnica, ficando tudo submerso novamente nas águas do Tejo.

O culto tornou-se tão popular que a cidade de Scalabicastro (próxima do local do aparecimento do túmulo) passou a chamar-se “Santa Iria”/”Santa Irene”, tendo daí derivado o atual nome de Santarém.

Certamente percebemos bem a atualidade da legenda de Irene/Iria.

Foto da capa: Detalhe da coleção de azulejos que narra a lenda de Santa Iria, na igreja paroquial de Santa Iria. Foto: Habibicb, 2020 | Wikimedia Commons.

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