Quando a morte nos abre à vida plena

Toca o telemóvel, o coração acelera, esperam-se notícias, sabe-se que a vida está por um fio… ouve-se ‘O António acabou de morrer’! O António chama-se também Joana, Francisco, Maria, Luísa, João, Carolina, André, Lourenço, Isabel, Pedro… É pai, mãe, irmão, marido, esposa… e filho!

A morte dos que mais amamos ‘atira-nos’ ao chão e impõe o silêncio das perguntas sem resposta. A morte é sempre inesperada, mesmo quando sabemos que está próxima. No fundo, parece que chega quase sempre adiantada e sem pedir licença.

A morte de alguém que tratamos pelo nome fala-nos da fragilidade da vida e, por isso mesmo, paradoxalmente, fala-nos do privilégio que é estarmos vivos. A vida é um dom e um mistério que precisamos de aprender a agradecer e a partilhar.

Ver partir é repensar-se como existir. Quem sou eu e qual o sentido da minha existência? Sou um pedaço de história, entre sorrisos e lágrimas, entre ganhos e perdas, entre amor e desamor, entre certezas e interrogações, entre medos e coragem, entre rotinas e projetos. Somos apenas um pouco de tempo e um pedaço de terra.

Mas talvez a morte nos abra a outras perguntas ‘para quem sou eu’? O que estou a construir nesta oportunidade que me é dada? Que poema escrevo, que música componho, que horizonte contemplo…? Que esperança semeio?

Só há uma maneira de se ‘adentrar’ na morte: ‘descalços’ – como Moisés no episódio da sarça ardente ao descalçar as sandálias porque o terreno era sagrado (cf. Ex 3, 5). Este terreno é sempre sagrado – afinal é de vidas que estamos a falar.

Custa tanto ver partir quem mais amamos. Custa tanto dizer um último adeus. Esta dor torna-se ainda mais dolorosa quando não temos tempo para nos despedirmos, quando não podemos abraçar e tocar, quando não podemos celebrar a despedida.

A pandemia ‘rouba-nos’ vidas sem avisar, mas rouba-nos também a proximidade física que estes momentos exigem. Tudo é feito a correr, em pouco tempo, com poucas pessoas, sem proximidade e, muitas vezes, sem o alimento de uma Eucaristia.

Parece que nada há capaz de preencher o vazio deixado pela pessoa que tanto amamos e que agora vemos partir. Uma dor profunda penetra o nosso coração até ao mais íntimo. Estamos destroçados. Ao mesmo tempo, há um sentimento, não menos profundo, que nos diz que não é possível que tudo tenha acabado. Não é possível que aqueles que mais amamos simplesmente desapareçam.

A vida não pode terminar com o último suspiro, nem o cemitério pode ser a nossa última morada. O fim da vida não pode ser simplesmente a morte. Há um desejo de vida plena no nosso coração que não conseguimos ‘calar’. Há ‘qualquer coisa’ que reclama continuidade e sentido…

Os crentes dão-lhe um nome e arriscam uma possibilidade. Para um cristão o fim da vida é o encontro com Deus, com a vida plena, onde “seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é” (1 Jo, 3, 2).

Este encontro com Deus Trindade é o encontro com o Amor que Deus é (1Jo 4,8.16). Daí que possamos pensar na morte como “a passagem deste mundo para o Pai” (Jo 13,1), como “partir e estar com Cristo” definitivamente (Fil 1, 23), na comunhão com o Espírito Santo.

Daí que cada momento da nossa vida é já antecipação da nossa morte. Por isso, podemos concluir que “a única maneira de morrer bem é viver bem” (Danneels). Viver bem é ‘ensaiar’ e treinar a vida plena, a comunhão, o entusiasmo, a alegria… o encontro.

É este dinamismo existencial que sublinha claramente o morrer, não como o fim da vida, mas como o próprio modo de viver a vida. Desde o dia em que nascemos que nos aproximamos do dia da nossa morte. Essa consciência não nos deve assustar, mas alertar para o dom frágil que a vida é.

Na hora da morte queremos juntar à dor, a esperança da vida plena. Queremos celebrar a passagem desta ‘tenda terrestre’ à ‘habitação eterna’… “O instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existem” (Spe Salvi, 12).

Assim, em cada partida de um ente querido, uma parte de nós cumpre-se e alcança a eternidade, até que um dia chega o que falta de nós num abraço profundo. Como o Filho Pródigo no seu regresso à casa do Pai (Lc 15,11ss).


Pe. Nuno Santos

Nuno Santos – Padre da diocese de Coimbra e reitor do Seminário. Diretor do Secretariado Diocesano da Pastoral das Vocações e Assistente do Secretariado da Pastoral da Família. Assistente convidado da Universidade Católica do Porto. Membro da Comissão de Ética dos CHUC.
O seu maior desafio na vida é unir – no dizer e no agir – o divino ao humano e o humano ao divino.

Foto da capa: Ensaio do teatro “A Destruição de Sodoma” e “Yerma”, Teatro do Bairro, Lisboa, 11 de janeiro de 2021. MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

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