O desafio da encruzilhada

O momento histórico que estamos a viver como humanidade e, também, como comunidades cristãs pode bem ser compreendido a partir da metáfora da encruzilhada. Com ela quero evocar aqui a necessidade de termos de tomar opções, decidindo porque caminho queremos ir.

De um modo ou de outro, todos temos a experiência de já ter chegado a encruzilhadas. Nelas sabemos como os caminhos se cruzam levando-nos em direções diversas.

Algumas já conhecemos e sabemos que não queremos ir por aí, outras parecem-nos suspeitas, mas verdadeiramente não sabemos aonde nos podem levar, por ventura algumas parecem simpáticas e até parecem estar a convidar-nos a que as possamos percorrer. Algumas parecem ir em sentidos diferentes, mas depois aproximam-se e até acabam por poder levar-nos para a mesma meta. Outras, parecendo ir no mesmo sentido, acabam por levar-nos para sítios bem diferentes. São tantas as direções, são tantas as possibilidades, que podemos correr o risco de permanecer demasiado tempo na dúvida e, quando tomamos a decisão, já vamos tarde, e o caminho, ao escurecer, torna-se ainda mais difícil.

A encruzilhada é o tempo e o espaço das decisões

Apesar das dúvidas e das incertezas, apesar dos anseios que daí decorrem, há, no entanto, algo que todos também sabemos: a encruzilhada não é a meta e se nela permanecermos, no fundo, acabamos por ficar num não lugar, num sítio e num tempo que não nos leva a lado nenhum.

A encruzilhada é, pois, um momento que teremos de experienciar, pois se não o fizermos não progrediremos no caminho, mas é simultaneamente um lugar, onde não podemos permanecer, pois ela não pode ser a nossa morada.

Neste sentido, o permanecer nela pode até ser mais perigoso do que optar por um caminho que mais tarde possa até revelar-se errado, pois, neste caso, teremos sempre a possibilidade de voltar a escolher outra direção, mesmo que isso implique voltar para trás, de modo a recomeçarmos de uma maneira mais certeira. A encruzilhada é o tempo e o espaço das decisões.

Pois bem, é nela que nos encontramos neste momento. Como humanidade esta é verdadeiramente a hora de grandes decisões. Que direção escolher? Queremos criar um futuro de riqueza só para alguns, deixando uma parte cada vez maior da humanidade de fora? Vacinamos o mais depressa possível as populações dos países ricos e poderosos, de modo a regressarmos o mais depressa possível, também à dita normalidade a que estávamos habituados, aumentando ainda mais as desigualdades já existentes, ou estamos dispostos a ir um pouco mais devagar, para podermos, juntos, vencer a pandemia?

Ponhamos a questão com toda a crueza: queremos um mundo cada vez mais rico, mas mais excludente, ou arriscamos ter menos (aqueles que temos em demasia), para que todos possam ter mais? Pura utopia, dirão alguns, decisão civilizacional dizem outros, entre os quais me quero incluir.

Que caminho escolher?

Também para as comunidades cristãs este é um momento de decisões. Que caminho escolher?

O de uma certa segurança e de um certo conforto que as fecha sobre si mesmas, procurando evitar as tensões inerentes às dúvidas que surgem quando se caminha com outros que pensam diferente? O caminho de uma dita pureza que não dialoga muito, que tem dificuldades em construir o futuro em comum, porque teme, nesse exercício, perder a identidade?

Casa da Família Abraâmica
Modelo do interior da Igreja, na Casa da Família Abraâmica. Foto https://www.adjaye.com

Queremos fazer o caminho sozinhos ou arriscamos caminhar juntamente com os outros, que dão um nome diferente a Deus, que acreditam de outro modo, ou mesmo não acreditam, de modo a poder alargar as possibilidades de todos, porque cada um contribui com aquilo que de melhor tem, com a riqueza da sua fé e dos seus dons?

Estamos numa encruzilhada. As dúvidas e hesitações vão surgir. Aliás, elas já estão aí e já as sentimos das mais diversas maneiras. Mas porque as encruzilhadas nos obrigam a tomar decisões, elas podem ser, igualmente, oportunidades necessárias, que nos permitem reavaliar, reequacionar, repensar a direção do caminho.

Neste sentido não há que ter medo das encruzilhadas, elas podem até ser assumidas como momentos muito importantes do caminho. Nelas podemos e devemos fazer o exercício de voltar a olhar o mapa para vermos bem a meta para a qual queremos caminhar. Elas podem constituir uma oportunidade de fazer uma certa paragem para retemperar forças, para discernir, para esperar pelos que andam mais devagar, para reagrupar, para poder colocar as diversas competências e capacidades de cada um ao serviço de todos.

Necessárias sim, oportunas também, mas as encruzilhadas não são o sítio que a humanidade e as comunidades cristãs devam transformar em lar. É necessário optar, decidir, e seguir…

E no que às comunidades cristãs diz respeito, este tempo possivelmente é ainda mais oportuno, pois a celebração da ressurreição é constante interpelação e convite à renovação da vida, é constante interpelação a, nesta encruzilhada, ousarmos, sem medo, tomar as decisões a que o Ressuscitado nos convida.

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