Acesso à energia para escapar à pobreza

Texto de Diogo Bonvalot
Controller & Commercial Manager na Ratisbona IBERIA

Será possível criar um futuro no qual a energia não seja fonte de divisão ou poluição e que inclua as comunidades mais vulneráveis? O caminho é complexo, mas não impossível.

Um dos 12 temas que integram a urgência de uma “nova economia” que o Papa Francisco quis discutir com jovens de todo o mundo está relacionado com o binómio “Energia & Pobreza”. Da denominada pobreza energética – definida pela União Europeia como uma situação em que um agregado familiar ou um indivíduo não possui recursos para aceder aos serviços básicos de energia – à transição para energias alternativas que sejam limpas e renováveis, sem esquecer a responsabilidade social, não só das empresas, como dos cidadãos, são várias as questões que obrigam à reflexão e cujas respostas encerram uma enorme complexidade. Mas, e apesar de o caminho a trilhar ser longo, o desafio tem de ser aceite

Divididos em várias aldeias, coube a cada grupo preparar e apresentar os temas que integram a “Economia de Francisco”, sendo que o meu ficou com a responsabilidade de abordar a temática “Energia & Pobreza”.

Em conjunto, estas duas palavras suscitaram mais questões do que à partida poderíamos esperar. O nosso paradigma económico assenta no “crescimento infinito”, do qual resulta um aumento constante de necessidades energéticas e dos custos inerentes à sua produção. Desta forma, será possível criar um futuro no qual a energia não seja fonte de divisão ou poluição e que inclua as comunidades mais vulneráveis?

A exploração energética segundo o paradigma atual apresenta várias lacunas. A produção de energias fósseis, que ainda representam uma larga maioria do consumo, é comprovadamente prejudicial ao ambiente e põe em causa não só a saúde do nosso planeta, a nossa casa comum, como a subsistência das gerações futuras. Contudo, o custo acrescido de novas soluções de produção e de armazenamento de energias limpas, bem como a falta de estímulos à mudança, tornam-se grandes entraves à adopção de um modelo energético mais sustentável e justo para todos.

Esta falta de justiça evidencia-se de várias formas: por um lado, os países mais dotados de recursos energéticos naturais, em especial os fósseis, e por a sua extração e tratamento serem mais baratos, têm um processo de crescimento económico comparativamente mais fácil, quer seja pela acrescida dotação energética das suas indústrias, quer pela simples transação de recursos energéticos, largamente procurados a nível mundial. Por outro lado, a injustiça não é apenas uma questão geográfica e de dotação natural, mas também intergeracional. A exploração destes recursos tem efeitos nefastos para o ambiente, comprometendo a qualidade de vida e saúde das gerações futuras, bem como o desenvolvimento económico dos países de baixos rendimentos, muito dependentes da disponibilidade energética e que poderão não ter os recursos necessários ao seu progresso.

Podemos abordar este tema em três vértices de um mesmo triângulo: Pobreza Energética, Transição Energética e Responsabilidade Social.

A pobreza energética assume-se como o mais premente dos três. Um número significativo de famílias sofrem de significativas carências energéticas, sobretudo nos países em vias de desenvolvimento, menos dotados de infra-estruturas. A falta de luz eléctrica é, provavelmente, a mais problemática, na medida em que, por exemplo, dificulta o estudo ou o trabalho quando deixa de haver luz solar. Para colmatar esta falta, as famílias acabam muitas vezes por recorrer à combustão de biomassa, o que não só representa um enorme custo no seu orçamento, como poderá ter repercussões negativas na saúde humana. E mesmo nos países desenvolvidos, ainda que com expressões diferentes, este é um problema ainda muito presente. A incapacidade das famílias em aquecer ou arrefecer convenientemente as suas casas resulta não só num constrangimento ao seu bem-estar, como apresenta repercussões na saúde a longo prazo, podendo, em casos extremos, ser mesmo fatal.

Em segundo lugar, a transição energética é possivelmente o desafio mais complexo a enfrentar. Como podemos passar de um modelo de exploração económica alicerçado e muito dependente de matérias fósseis para energias alternativas que sejam limpas e renováveis? Sendo evidente que a segunda opção será menos perniciosa para o ambiente, o que não é tão evidente é de que forma é possível fazer-se esta transição para métodos de exploração menos aprimorados, financeiramente menos eficientes e com elevados custos de transição. Para qualquer conhecedor da encíclica Laudato Si’, a resposta deverá ser bastante imediata. O amor ao próximo, ao que herdará a nossa “casa comum”, deve superar qualquer custo de transição, financeiro ou de outra ordem. Porém, esta visão não agrada nem aos decisores de muitos governos, nem às grandes empresas energéticas.

Por fim, a responsabilidade social que toca a todos de uma forma muito direta. Felizmente é cada vez mais generalizada a consciência de que as empresas, especialmente as do sector da energia, têm a capacidade de transformar o atual paradigma com novas soluções e modelos de negócio, chegando a mais pessoas através de tarifas mais acessíveis ou disponibilizando infra-estruturas em zonas mais carenciadas. As soluções estão longe de estar esgotadas.

Feito este levantamento, ergue-se o grande desafio – tentar dar respostas a tão importantes perguntas. Com a dupla consciência de que a energia é absolutamente necessária ao desenvolvimento, mas que o seu consumo não pode aumentar infinitamente, partimos do seguinte mote: do Compromisso Verde ao Compromisso Social Verde. O trabalho já desenvolvido pela aldeia internacional “Energia & Pobreza” inspira-nos com projetos admiráveis e com respostas prementes e atuais às questões da pobreza energética. É importante ainda sublinhar que os países desenvolvidos têm um papel preponderante na resposta a estas necessidades.

Há ainda um longo e complexo caminho a percorrer. Muitas perguntas se levantaram e são muito poucas as respostas definitivas. Mas, apesar destas dificuldades, foi possível chegar a um consenso: por muito difícil que seja este tema, por muito injusto que seja o modelo atual e por muito trabalho que esteja por fazer, não temos que esperar por ninguém. Seja em grandes projetos ou em pequenas ações no nosso quotidiano, com as nossas famílias e amigos, a responsabilidade de cuidar da casa comum é de todos. E podemos começar já hoje.

Foto da capa: Avó e netos em casa, arredores de Oaxaca, México, 2011. Foto: Reuters / Jorge Luis Plata | CC BY-SA 4.0, in https://www.weforum.org.

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