A flor da nossa Ressurreição

A Palavra de Deus

Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para irem embalsamar Jesus.
E, no primeiro dia da semana, partindo muito cedo, chegaram ao sepulcro ao nascer do sol.
Diziam entre si:
“Quem nos há de rolar a pedra da entrada do sepulcro?”
Mas, ao levantar os olhos, viram que a pedra já tinha sido rolada; e era muito grande.
Ao entrarem no sepulcro, viram um jovem sentado no lado direito, revestido com uma longa veste branca, e ficaram apavoradas.
Mas ele disse-lhes: “Não fiqueis apavoradas ! Procurais Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou, não está aqui. Vede o lugar onde o tinham posto. Mas ide, dizei aos seus discípulos e a Pedro: Ele vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis, tal como Ele vos disse”.

Mc 16, 1-8

A palavra de Santo António

“A amendoeira florescerá, o gafanhoto engordará…” (Ecl 12, 5).

Por amendoeira entendemos a esmola; por gafanhoto, a consolação do pobre.

A amendoeira é o pedir esmola.

Mas não é sem dor que referimos atitudes dos grandes deste mundo. Fazem esperar muito tempo, à sua porta, os pobres de Cristo… Por fim, depois de bem saciados e talvez inebriados, mandam-lhes dar alguns restos da sua mesa e as lavaduras da cozinha…

Diz o profeta Naum que “os gafanhotos pousam nas sebes em dia de frio” (Na 3,17).

Assim os pobres, no frio da pobreza que os aperta, pousam, à letra, ao longo das sebes, pedindo esmola aos transeuntes, lançados fora pelos homens como se fossem leprosos. Ou então, as sebes, em que há paus aguçados e picos, manifestam as picadas, as dores e as enfermidades dos pobres. Eis quão grande é a sua aflição! Por isso, precisam de consolação.

O Senhor está à porta, na pessoa dos seus pobres, e bate. Abre-se-lhe quando se dá de comer ao pobre.

A refeição do pobre é o descanso de Cristo: “O que fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos”… (Mt 25,40).

Sermão da Ressurreição do Senhor

Aprofundemos

É maravilhoso como Santo António, no sermão da Páscoa, conseguiu associar a flor da amendoeira à caridade para com os pobres. Os pobres, para ele, não são os pedintes que nos incomodam nas ruas, mas os pobres de Cristo, os amigos d’Aquele que se empobreceu de bens materiais para nos enriquecer com as suas riquezas espirituais. E o Santo sabe descrever as misérias dos pobres e os sentimentos que devem suscitar em nós: estão apertados, pressionados, pela fome, pelo frio, marginalizados como os leprosos, e ele lança o seu grito: “Quão grande é o seu sofrimento! … Quão impiedosos e duros de coração são os ricos e todos aqueles que fogem deles!”.

Esta chamada de atenção, por ocasião desta Páscoa vivida na pandemia, é, não só oportuna, mas urgente. A pobreza aumenta. Os mais pobres não fazem barulho, não têm voz nem meios para organizar manifestações. Cabe-nos a nós encontrá-los, como fizeram e continuam a fazer os cristãos sensíveis às palavras de Jesus: dai esmola, mas sem pompa; curai os enfermos, mas sem tocar a trombeta. O amor não faz barulho; mas tem uma força que pode mobilizar o mundo. O seu valor é todo interior, respeitoso, discreto, como tudo o que sai dum coração sincero.

Não admira, pois, que seja a estes que o Senhor dirá no dia da ressurreição universal: “Vinde, benditos do meu Pai” (Mt 25,34).

Foto da capa: Amendoeira em flor. Foto de Anna Anichkova, março 2011 | Wikimedia Commons.

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