Os verbos da salvação: 6. OUVIR e ESCUTAR 1

Não sendo o primeiro verbo da salvação que meditamos,
o verbo escutar é, no entanto, o primeiro verbo de 2021.
Porque é talvez o primeiro, o inicial, o germinal na vida humana
e, certamente, na experiência cristã.

Adelaide Miranda e Rui Pedro Vasconcelos

Ouvir e escutar | Escutar e ouvir

The world becomes silent (O mundo fica em silêncio), aço, Rui Chafes, 2004, Jardim da Sereia, Coimbra, Portugal
The world becomes silent (O mundo fica em silêncio), aço, Rui Chafes, 2004, Jardim da Sereia, Coimbra, Portugal

Não se vê, não se toca, não se cheira, não se prova, mas não se esquece. O que é? Podia ser uma adivinha daquelas que os meus avós contavam, tendo aprendido na escola, mas não é.

E assim do nada, o SOM faz parte da nossa memória.

É dos primeiros sentidos (senão o primeiro) a ser desenvolvido. Ali pelas quatro a cinco semanas de gravidez, as células no embrião começam a rearranjar-se para dar forma ao que será a cara, o cérebro, o nariz, os olhos e os ouvidos. Lá pelas 18 semanas o bebé começa a ouvir o som e pelas 25-26 semanas responde ao som que vem do exterior. 25 semanas correspondem a seis meses de gravidez.

Não é fantástico que um bebé nesta etapa do desenvolvimento já reaja a estímulos sonoros exteriores? Dos sons interiores, como o bater do coração da mãe, vai recordar-se quando nascer.

Vamos à etimologia. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira diz que ouvir tem origem no latim audire e significa perceber, pelo sentido do ouvido, os sons, a voz, a palavra… Por outro lado, escutar vem do latim auscultare, e significa notar, perceber, sentir pelo aparelho auditivo; aplicar a atenção para ouvir, prestar ouvidos; atentar… Ouve-se o sino, o apito do comboio, o aviso do professor, ausculta-se o doente.

O som interessa à biomedicina, à saúde, à física e até à botânica…

A propósito de auscultar o doente… No PubMed procurámos saber qual seria o interesse do ouvir e do escutar nas áreas biomédica e da saúde. Não deixa de ser interessante ver que as primeiras publicações que datam do século XIX são sobre auscultar o doente. Nestas áreas, o estudo mantém-se tímido até à década de 70, tem algum crescimento até ao fim do século e é no início do século XXI que cresce exponencialmente.

Tal não será alheio ao desenvolvimento das neurociências e das técnicas de imagiologia médica. Por outro lado, a física entreteve-se com uma matemática intrincada para explicar aquilo que não se vê, mas que se ouve.

Os cientistas que adoram medidas, maneiras de quantificar aquilo que nos rodeia, lá arranjaram uma forma de quantificar o som. Se para a distância temos, por exemplo, o quilómetro, para o tempo o segundo e para a temperatura o grau Celsius, para o som temos o decibel. O decibel, cujo nome é uma homenagem ao cientista e inventor Alexander Graham Bell, é uma medida relativa de intensidade de um som, ou seja, é uma unidade que compara duas pressões. Por isso, um decibel na água não é igual a um decibel no ar, porque as medidas de referência que se usam para o ar e para a água são diferentes. E descobri que até a botânica se está a interessar pelo som.

Ervilheiras: Foto: Gryffyn M | Unsplash
Foto: Gryffyn M | Unsplash

“Fala com as plantas que elas crescem melhor”…

Hein? Pois, pelos vistos estas recomendações têm a sua razão de ser! Num artigo de revisão da literatura publicado em 2019, o grupo liderado pela investigadora Lilach Hadany da Universidade de Tel-Aviv, em Israel, teve como objectivo resumir o que já se sabe sobre a forma como as plantas percepcionam o som.

Nesta área, considerada emergente, cunharam um novo termo, a fitoacústica, que tem como objetivo estudar a capacidade das plantas emitirem e responderem a sons. Como reagem as plantas aos sons dos animais, da água e de outras plantas? E como trasmitem ondas sonoras? De que forma é que o som, no seu entorno, as afeta biomecanicamente? Os autores categorizam a proveniência do som pelo ar e pelo solo e explicam o que já se sabe.

Das Pisus sativum, que não são mais que as ervilheiras (à data de publicação da revista devem estar a produzir uma belas ervilhas), relatam-nos um resultado engraçado, obtido por Monica Gagliano da Universidade de Austrália Ocidental. As ervilheiras foram usadas para investigar o mecanismo pelo qual as raízes sentem e localizam a água. O que fizeram as raízes num substrato sem humidade? Na ausência de qualquer humidade no substrato, as raízes das ervilheiras foram capazes de localizar a origem da água pelas vibrações que tinham origem no movimento da água dentro de canos. Por isso, não é necessário as ervilheiras terem água no solo para detectarem água na sua vizinhança. E quando as ervilheiras tinham humidade no solo e as vibrações acústicas? Neste caso, as raízes usavam preferencialmente a humidade que existia no solo.

Os resultados sugerem que as vibrações acústicas ajudam as raízes a detectar uma fonte de água à distância e a estabelecer qual a rota mais eficaz para essa fonte, e a humidade ajuda-as a atingir o seu alvo com exatidão. Atenção, que as ervilheiras não são “parvas”. Quando as expuseram a uma gravação da água elas não responderam da mesma maneira, provavelmente por causa do campo magnético gerado pelo equipamento eletrónico que usaram. Quando o ruído estava presente, as raízes não conseguiram da mesma forma percepcionar e responder ao som ambiente. É importante perceber estes fenómenos, porque a invasão das raízes nos canos nas áreas urbanas tem consequências severas aos níveis económico, ambiental e até social.

Abadia Saint-Benoît d’En Calcat
Abadia Saint-Benoît d’En Calcat

Quando lhes cortaram o pio…

Quando estava a pensar neste artigo lembrei-me de uma história que li num dos livros de Norman Doidge, há meia dezena de anos. Norman Doidge é médico psiquiatra e psicanalista, e foi durante três décadas investigador da Universidade de Toronto, Canadá, e da Universidade de Columbia, Nova Iorque, EUA.

Vamos até ao sul de França, meados dos anos 60, à Abadia Saint-Benoît d’En Calcat, na qual 70 dos seus 90 monges estavam a definhar, cansavam-se facilmente e sentiam-se exaustos. Não se percebia porquê. Não havia nenhum surto infeccioso na abadia. Até que foram visitados por um médico otorrino e inventor, que entendeu o que se passava.

O abade zeloso, no fervor do Concílio Vaticano II (1962-1965), tinha decidido que o canto gregoriano ao qual dedicavam seis a oito horas do seu dia não servia para nada. Como tal foi proibido. Seguiu-se um colapso nervoso colectivo. A eliminação do canto retirou aos monges, que já faziam votos de silêncio, qualquer estimulação de voz humana, quer dos seus irmãos, quer da sua. Não era de carne, nem de vitaminas, nem de dormir que precisavam, mas da energia do som.

O canto gregoriano foi reposto, os seus sons e os seus estímulos foram restituídos, e com a terapia inventada por esse médico francês, a postura encurvada dos monges foi desaparecendo e a sua saúde foi restabelecida. Esta é apenas uma história de como o som, ou a falta dele, nos pode influenciar. E explorar o mundo da música como terapia ou da sua neurobiologia seria outra história longa e entusiasmante.

Património auditivo

Comecei por dizer que o som faz parte da nossa memória. Atenção, estou a escrever a pensar nos casos em que a fisiologia do nosso ouvido funciona corretamente. E faz parte do meu património auditivo afetivo o ouvir contar histórias, lengalengas e adivinhas nos serões à lareira ou nas noites quentes e secas, o toque da entrada, a canção do Vitinho para ir dormir ou a música de Zeca Afonso que nos acompanhava nas intermináveis viagens. Há muitas outras memórias de sons e certamente que as minhas fazem eco na de muitas outras…

Foto da capa: Cristina Gottardi | Unsplash

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