O novo Templo

7 de março de 2021 – Evangelho do III domingo da Quaresma
Ano B – Jo 2, 13-15
Tradução livre a partir do comentário de Luciano Manicardi, prior do mosteiro de Bose

Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio”. Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: “Devora-me o zelo pela tua casa”. Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: “Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?”. Jesus respondeu-lhes: “Destruí este templo e em três dias o levantarei”. Disseram os judeus: “Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?”. Jesus, porém, falava do templo do seu corpo. Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus. Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem.

Jo 2. 13-15

O texto do evangelho deste Terceiro Domingo da Quaresma abre com a nota de que Jesus, perto da Páscoa, vai a Jerusalém (Jo 2, 13). Esta é a primeira de várias subidas a Jerusalém que Jesus fará de acordo com o Quarto Evangelho. Segundo os Sinópticos, por outro lado, foi lá apenas uma vez no fim do seu ministério e da sua vida. Aqui estamos no início do ministério (e do evangelho) e o texto como que resume e antecipa os acontecimentos da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Na verdade, quando questionado sobre um sinal que fundamente a sua autoridade para realizar os gestos proféticos que faz no Templo, Jesus responde: “Destruí este templo e em três dias vou reerguê-lo” (Jo 2, 19). O verbo usado, eghéiro, significa erguer, mas é usado igualmente para indicar a ressurreição. É uma proclamação da Páscoa, como, aliás o narrador especifica: “Ele falava do templo do seu corpo” (Jo 2, 21). O texto é, portanto, uma revelação: Cristo morto e ressuscitado é o templo escatológico, o local do encontro, da aliança e comunhão entre Deus e o homem. Além disso, na Páscoa Cristo é a vítima e o oferente. Ele, que afasta do Templo não só os cambistas, mas também os animais para os sacrifícios, morrerá como um cordeiro da Páscoa a quem nenhum osso é partido (cf. Jo 19, 33.36) e vai livremente dar a sua vida para a retomar de novo (Cf.  Jo 10, 17-18).

Mas se este é o significado teológico que João atribui ao episódio, historicamente Jesus comporta-se como um profeta. Jesus denuncia a deterioração da situação do Templo. Não diz que o Templo não deveria existir, mas que o Templo foi pervertido do seu significado original, mudou para outra coisa. Agora é “um mercado” (Jo 2, 16), “um covil de ladrões”(Mt 21, 13; Mc 11, 17; Lc 19, 46), um centro de poder económico e negócios obscuros e não de autenticidade religiosa. A parrésia (frontalidade) de Jesus nasce, antes de mais, do simples ato de ver e dar um nome à situação: sem meias tintas, sem desculpas, sem enfeites.

O Templo transformou-se num “mercado”. De Domus Patris mei, diz Jesus, o Templo transformou-se num centro comercial. Podemos perguntar: mas como é que isto aconteceu? Como é que isto foi possível? E do mesmo modo perguntamo-nos como é possível que no espaço eclesial e no seio de uma comunidade haja certas dinâmicas de perversão, desvio, enviesamento da intenção original.

É importante colocar a pergunta em referência ao texto do Evangelho: e se não tivesse havido a voz profética de Jesus para denunciar a situação, e pagar o preço com a própria vida, será que tudo teria continuado como sempre? Não haveria mais ninguém que tivesse levantado a voz? Ninguém teria dito nada? Sim, mesmo as instituições e criações mais sagradas não estão imunes à deterioração, à perversão e ao afastamento da intenção original. E precisam de correções, de reformas, para voltarem ao brilho original querido por Deus, para recuperarem o sentido evangélico. Precisam de purificação, de revisão mais ou menos radical.

Então, o que faz Jesus? Limpa o Templo: afasta, derruba, retira. Não acrescenta, não junta, não aumenta, mas retira, subtrai, afasta. Não é diferente o que acontece com as nossas vidas pessoais e comunitárias. Não é o ter pouco que nos assusta, o que nos assusta é ter menos quando estamos habituados a ter tanto, é a diminuição que nos assusta e que rejeitamos, é o empobrecimento, mais do que a pobreza, que tememos. E isto tanto a nível material, como espiritual ou humano.

Como recorda o Salmista, “a grandeza de um homem não o salva da morte, como todos os animais também ele tem de morrer”  (Sl 49, 21). Às vezes, há cegueiras que nos impedem o discernimento. Jesus, na sua lucidez, anuncia que do Templo não permanecerá pedra sobre pedra, tudo será destruído: só o fim, ainda que ruinoso, mesmo daquilo que foi portador de vida, pode, por vezes, ajudar-nos a uma renovação, a um renascimento. O texto sugere que os discípulos não compreenderam na altura. Só mais tarde, ao recordarem-se das Escrituras, é que compreenderam e contextualizaram o sentido do comportamento violento de Jesus, ao fazer um chicote de cordas para expulsar toda a gente do Templo. Entenderam o seu gesto à luz das Escrituras: “O zelo da tua casa me consome” (Sl 69, 10). Jesus é movido pela paixão, é devorado pelo zelo da casa do Senhor, é habitado pelo pathos do lugar sagrado, está indignado e escandalizado pelo uso que é feito dele (Jn 2:17). A parrésia inclui estas atitudes básicas, na verdade encontra precisamente nesta partilha do pathos de Deus o elemento sem o qual o comportamento profético não poderia acontecer. Mas Jesus está plenamente ciente do preço a pagar pelas suas ações. O verdadeiro profeta paga sempre com a sua pessoa o preço das palavras que profere e das ações que executa. Jesus fala da destruição do seu corpo: “Destruí este templo e em três dias o reerguerei”(Jo 2:19). João emprega a palavra naòs, que designa não tanto todo o complexo do Templo, para o qual João usa o termo ieròn, mas que indica, antes, o Santo dos Santos, o lugar mais interior do Templo.

Assistimos à transição do Templo lugar das pedras para o lugar da Presença, do templo de Jerusalém para o corpo de Jesus, de uma ordem de tipo cultual a uma ordem pessoal e relacional, do mecanismo de delegar a oferta através de um animal à dinâmica da oferta pessoal feita com liberdade e amor.

O que é central não é tanto a destruição, mas o amor e a liberdade. O amor e a liberdade com que Jesus deporá as próprias vestes, amará os seus até ao fim, se curvará e ajoelhará perante Judas, irá para o Monte das Oliveiras quase facilitando a tarefa do traidor, e, portanto, deixará de se opor à perspetiva da sua morte violenta. Mas mesmo esta referência ao corpo de Jesus, velada por trás da referência ao naòs, ao Santo dos Santos, os discípulos só a entenderam mais tarde, após a ressurreição e a efusão do Espírito (Jo 2, 22).

O texto litúrgico encerra ainda uma última nota: ” Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem.” (Jo 2, 23-25). Há uma fé em que Jesus não confia. Há uma confiança nele de que Jesus desconfia. Jesus faz emergir a fé nos outros, Jesus inspira e desperta confiança, mas também sabe discernir atos de confiança infundados que não merecem qualquer crédito. Jesus sabe discernir e desmascara a confiança interesseira, aquela que nasce das maravilhas feitas por Jesus.

Aqueles que confiam n’Ele apenas pelos sinais que faz não estão realmente interessados em segui-Lo, mas em obter algo d’Ele, em ganhar algo. A confiança em Deus dá origem em Jesus não só à confiança nos seres humanos, mas também à vigilância, à lucidez e a uma atitude crítica. Alguns “acreditaram no seu nome ao ver os sinais que ele fazia” (Jo 2, 23), mas Jesus não confia na sua fé, não os sente fiáveis. Esta desconfiança é motivada pelo facto de Jesus saber discernir “o que há no homem” (Cfr. Jo 2, 25).

Na época de Jesus, um traço característico do profeta era o conhecimento do coração, isto é, a capacidade de ler os pensamentos do coração. Não é nada de mágico ou extraordinário, mas apenas a inteligência humana que sabe discernir e penetrar, adivinhar e entender. Jesus sabe ler no outro, sabe como compreender os seus movimentos profundos, sabe adivinhar o que o outro está a pensar e as motivações ocultas do seu discurso e da sua ação. O conhecimento de Jesus leva-o a discernir as motivações que os animam e, portanto, a compreendê-los na verdade. E esta verdade às vezes é impiedosa.

Assim, Jesus desconfia de uma adesão baseada apenas em esperar por milagres. A sua confiança no homem não o leva a deixar-se usar por quem gostaria de segui-lo apenas para obter vantagens: “Procuram-me porque comeram até ficar satisfeitos, e não por compreenderem o significado dos meus sinais” (Jo 6, 26). Jesus desconfia daqueles que o procuram para o tornar um líder político, desconfia do que seria um reconhecimento do seu poder para tornar a sua missão mais eficaz entre os homens: “Jesus percebeu que queriam levá-lo à força para o proclamarem rei, e retirou-se de novo, sozinho, para o monte” (Jo 6, 15). Jesus não confia nas multidões que distorcem os seus gestos de gratuitidade num mecanismo de troca, no qual concedem poder a quem lhes dá comida e subsistência. Jesus não age com a lógica dos governadores e dos reis que exigem poder em troca de esmolas de bens. Jesus não age como os sedutores e manipuladores que precisam de seguidores para serem líderes. Jesus recusa-se a ser feito rei porque para ele não há súbditos, mas apenas irmãos.

A sua parrésia é credível precisamente pela sua honestidade. Trata-se de uma frontalidade que não teme o julgamento dos outros, obstáculo sobre o qual esbarram as nossas boas intenções de uma ação ousada e livre.

Foto da capa: Ruínas do Templo de Jerusalém do sec I. Foto de Yusuf Dundar | Unsplash.

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