É comigo, também!

Manifestar a verdade tem sempre um preço, mas é uma escolha que define a nossa coerência e a nossa humanidade.

António e os poderosos: eis o tema de fundo deste artigo que segue o caminho de António através da região da Calábria (Sul da Itália). Um tema que implica falar claro, sempre, porque esta é a linguagem do Evangelho, que ultrapassa a simples legalidade.

Mas que fazer, então, com toda esta abundância dos dons de Deus?!

Explico-me: todos concordamos que a fé é um dom e ainda por cima um dom gratuito semeado na nossa vida, que cresce e dá fruto graças também ao cuidado e à atenção que lhe dedicarmos, mas, e depois? Fica tudo na mesma, guardamos essas “consolações interiores”, tratamos da nossa consciência e atravessamos incólumes a existência?

Toda a escuta da Palavra de Deus, quer a escrita nos livros sagrados, quer aquela que o próprio Deus semeia no nosso dia a dia, afinal, que fruto deixou em António? Habilidades exegéticas, capacidade de explicar a Palavra, doutrina teológica segura, tudo bem.
Mas, e depois? Se acreditar é o ponto mais concreto do homem, a adesão à fé deve tornar-se simplesmente toda a nossa vida.

Pois que o nosso Santo António está convencido que a verdadeira escolha do cristão não está entre a fé e o ateísmo, mas entre a fé e a idolatria, então, ele não pode calar-se: onde e sempre que um “ídolo” – o sucesso à custa dos outros, o poder, a força, a duplicidade e a falsidade para com os mais fracos, o mito da raça, o egoísmo disfarçado de auto-realização, a riqueza não partilhada, a corrupção, a ilegalidade que cria injustiça – se substitui com prepotência à dignidade indiscutível de cada homem e mulher, todos igualmente filhos e filhas daquele Deus a quem rezamos no plural, Pai nosso, e não meu.

Nesse sentido, a escuta profunda e atenta de Deus é a premissa para a indignação e só a indignação que brota dessa escuta é evangelicamente capaz de desmascarar o “bezerro de ouro” de cada circunstância.

A assídua leitura da Bíblia sugeriu a António uma palavra-chave, que é ao mesmo tempo estilo de vida, discernimento quotidiano e compromisso: parrésia, ou seja, a coragem de dizer sempre a verdade, de permanecer íntegro até ao fim, mesmo diante do poder, seja sob que forma ele se apresentar. Uma mistura de fé, audácia, liberdade, franqueza, coragem, indignação, confiança de quem não tem nada a perder, da qual o apóstolo Paulo escreve e testemunha, não por mérito próprio, mas pela graça de Deus (Ef 6,20; 1Ts 2,2), qualidades que o Evangelho reconhece ao próprio Jesus (Mc 8 , 32; Jo 18:20).

Uma mistura letal para uns e outros, uma escolha que nunca é isenta de efeitos colaterais: expressar a verdade tem sempre um custo – em amizade, em dinheiro, em votos eleitorais – mas é também uma escolha da qual depende a nossa coerência e a nossa humanidade. Confirmado apenas por esta parrésia, António podia apresentar-se sem medo perante o tirano sanguinário Ezzelino da Romano, em Verona, quando todos pensavam que iria ser morto imediatamente ali mesmo, tão claras e veementes foram as palavras que lhe atirou. E com o mesmo cartão de visita censurava abertamente e com veemência os bispos que exerciam indignamente o seu ministério.

Não é uma escolha tática definida à priori, nem o hábito de estar “sempre contra”, mas a rendição quase obrigatória do amante: “ Quando o Senhor Deus fala, quem se recusa a ser profeta?” (Am 3,8).

E a palavra flui
imparável:
ora grito de arauto,
ora sussurro
implorante.

Annette von Droste-Hülshoff

António permanece fiel a esta exigente palavra da verdade até ao fim. Uma palavra sem limites, porque inatingível e irredutível à mentira ou à injustiça. “Odeio os indiferentes”, confessou António Gramsci. Nós também: em nome de Jesus, de Santo António, dos jovens turcos do Gezi Park, dos indignados espanhóis, de todos os jovens calabreses, portugueses e do mundo de amanhã. Porque o futuro é para eles!

Foto da capa: A escuta profunda e atenta de Deus é a premissa para a indignação e só a indignação que brota dessa escuta é evangelicamente capaz de desmascarar o “bezerro de ouro” de cada circunstância. Ilustração: Luca Salvagno.

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