Catequese e Vaticano II

O recente discurso do papa aos participantes do encontro promovido pelo Departamento Catequético Nacional da Conferência Episcopal Italiana (30 de Janeiro de 2021) não pode deixar de merecer a todos nós uma importância significativa no momento em que vivemos.

Como irá ser a catequese de crianças, jovens e adultos depois da pandemia?

Neste momento, as dificuldades de quem está numa comunidade e sente sobre si o peso e a responsabilidade da catequese não podem ainda ser bem equacionadas. Pode acontecer um deserto, pois há quase um ano que não tem havido oportunidade para uma catequese normal.
Vamos recuperar ou estaremos diante de um grande desafio à imaginação e criatividade da comunidade cristã? Agora que estou longe já das responsabilidades paroquias, vejo com alguma apreensão os tempos que se seguem.

É por isso mesmo que o discurso do Papa Francisco neste encontro abre portas e desafios que não podem deixar de ser tidos em conta por todos os que têm a responsabilidade pastoral destes difíceis tempos.

Foto Economy of Francesco

O Papa coloca três desafios:

O primeiro é: catequese e querigma

Tem-se escrito e refletido muito sobre o querigma mas esta reflexão não é ainda uma práxis no envolvimento catequético. A nossa tendência para os aspetos práticos e operacionais facilmente substitui a Bíblia pelo catecismo, Evangelho pelo direito canónico, uma visão testemunhal e celebrativa por uma objetivação em normas e práticas morais.
Mais do que o Belo e a Verdade estamos muitas vezes preocupados com o bom e o mau.

A escritura é o Livro; não um subsídio

“A escritura é o Livro; não um subsídio, mesmo que fosse o primeiro”, diz o papa citando o documento base do encontro. A Sagrada Escritura deve ser o “ambiente no qual cada um se sente parte da mesma história de salvação”… Mas o Papa avança: “O coração do mistério é o querigma e o querigma é uma pessoa: Jesus Cristo”.

Serão as nossas catequeses um espaço de encontro com o mistério, com o Senhor Jesus?

Eis um motivo para refazer esquemas e programas no pós-pandemia, quando reencontrarmos os que estão em processo catequético aos três níveis: crianças, jovens e adultos. Os catequistas devem ser capazes de “aprender o dialeto, isto é, aquela linguagem que vem do coração, que nasce, que é a mais familiar, a mais próxima de todas”.

O Concílio Vaticano II é magistério da Igreja

No segundo ponto o Papa aborda a catequese do futuro para lembrar o cinquentenário do documento da Conferencia Episcopal Italiana que adotava para a catequese as indicações do Concílio Vaticano II. E ao lembrar o Concílio, o Papa faz a afirmação contundente:

Isto é magistério: o Concílio é magistério da Igreja. Ou estás com a Igreja e por isso segues o Concílio, e se não seguires o Concilio, ou o interpretares à tua maneira, como quiseres, não estás com a Igreja. Temos que ser exigentes e rigorosos quanto a este ponto. O Concílio não deve ser negociado… Não, o Concílio é assim.

Tem sido notável em muitos locais o esforço de introduzir o espírito do Vaticano II nas diferentes instâncias da catequese. Mas estas palavras do Papa ganham uma força maior quando surgem no interior da Igreja vozes que veem no Concílio a origem dos graves problemas da Igreja de hoje.
Cito, como exemplo, as palavras do Arcebispo Carlo Maria Viganó ao comentar este texto em Chiesa e post concilio:

Se é muito verdadeiro e aceitável que os Concílios da Igreja Católica são parte do Magistério, o mesmo não se pode dizer do único “concílio” da nova Igreja, que – como já afirmei várias vezes – representa o engano mais colossal que foi feito pelos pastores ao rebanho do Senhor; um engano – repetita juvant – que ocorreu quando uma reunião de especialistas conspiratórios decidiu usar os instrumentos do governo eclesiástico – autoridades, atos magistrais, discursos papais, documentos das Congregações, textos da Liturgia – com um propósito oposto ao do divino Fundador estabelecido quando ele instituiu a Santa Igreja. Ao fazer isso, os súbditos foram forçados a aderir a uma nova religião, cada vez mais claramente anticatólica e, em última análise, anticristo, usurpando a autoridade sagrada da velha, desprezada e depreciada religião pré-conciliar.

Quando esta oposição crítica ao Vaticano II no interior da Igreja tem nos movimentos fundamentalistas meios sofisticados, alguns pregadores inflamados e grupos bem determinados que querem influenciar o caminho da Igreja é bom acolher o que o Papa sugere para que a leitura dos sinais dos tempos ajude a “acolher os desafios presentes e futuros sem ter receio de falar a linguagem das mulheres e dos homens de hoje; de falar a linguagem fora da Igreja, isso sim, devemos ter medo. Não devemos ter medo de falar a linguagem do povo”.

Uma Igreja feliz com um rosto de mãe

O terceiro ponto é a catequese e a comunidade

Num regresso à normalidade como vamos ultrapassar isolamentos e confinamentos? Como vamos ser criativos para “descobrir o sentido da comunidade onde cada um pode encontrar a própria dignidade em plenitude”?

Comunidades abertas onde os talentos de cada um são colocados ao serviço de todos, comunidades compassivas que saibam aproximar-se dos que ficaram feridos pelo isolamento, pela dor, ou pelas dificuldades económicas.

Uma comunidade, e o Papa repete o que disse no Congresso Eclesial de Florença há cinco anos: “uma Igreja cada vez mais próxima dos abandonados, dos esquecidos, dos imperfeitos… Uma Igreja feliz com um rosto de mãe, que compreende, acompanha e acaricia”.

Foto da capa: Papa Francisco na vigília com os jovens, em Madagascar, 7 de setembro de 2019. EPA / LUCA ZENNARO

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