Vacinas para todos

Os alarmes de quem está no terreno soaram: 13% da população mundial possui metade das vacinas anti Covid. A afirmação é de Pe. Pirmin Spiegel, diretor geral da Misereor, Organização dos Bispos Católicos Alemães para a Cooperação e para o Desenvolvimento.

Neste tempo de angústia e de incerteza para muitos, é bom revisitar o momento profundamente simbólico da oração do Papa na Praça, vazia, de São Pedro, em 27 de Março de 2020:

À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda.

Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos, todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados “vamos perecer” (cf. 4, 38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos.

A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade.

A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de “empacotar” e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente “salvadores”, incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades.

Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso “eu” sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela abençoada pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.

A informação do P. Pirmim é a preocupação de alguém que vem do terreno e conhece a realidade da pobreza, não só porque trabalhou nas zonas perdidas do Brasil, mas pelo acompanhamento dos muitos projetos de apoio dessa instituição da Conferência Episcopal Alemã.

Numa entrevista que dá ao programa alemão da Radio Vaticana convida a uma ampla participação dos estados e das instituições na COVAX (Covid-19 Vaccines Global Access), fundada no âmbito da Organização Mundial da Saúde (OMS) e que procura apoios para que a vacina esteja disponível para os países pobres.

De momento o seu objetivo está centrado na procura de apoios para uma vacina eficaz para todos os países. Ao mesmo tempo, está a apoiar a fabricação e a compra de componentes para que 2 bilhões de doses possam ser distribuídas de forma justa até ao final de 2021.

Deslocados da violência armada em Cabo Delgado reunidos no campo de deslocados de Manono, Metuge, Moçambique, 22 de julho de 2020. Foto RICARDO FRANCO/LUSA.
Deslocados da violência armada em Cabo Delgado reunidos no campo de deslocados de Manono, Metuge, Moçambique, 22 de julho de 2020. Foto RICARDO FRANCO/LUSA.

Nesse sentido também a Comissão Anti Covid-19 em colaboração com a Academia Pontifícia para a Vida insiste na necessidade de um esforço coletivo para que a vacina seja um bem comum e que os diferentes estados se comprometam a ajudar os que têm maiores dificuldades:

A distribuição de vacinas requer una série de ferramentas que devem ser identificadas e aplicadas para cumprir os objetivos acordados de acessibilidade universal. A Congregação para a Doutrina da Fé insiste na existência de um imperativo moral para a indústria farmacêutica, os governos e as organizações internacionais que possam garantir que as vacinas, eficazes e seguras desde o ponto de vista sanitário, e eticamente aceitáveis, sejam também acessíveis aos países mais pobres e sem um custo excessivo para eles. O COVAX Facility é a chave para acabar com esta pandemia e só funcionará se todos nós nos unirmos. Agora é a hora de tornar nosso compromisso com o acesso equitativo uma realidade, para que todos, em todos os lugares, tenham acesso a uma vacina que salva vidas.

Este documento, nos seus 20 pontos para um mundo mais justo e são, reclama que a vacina seja considerada um bem comum:

Não podemos deixar que o vírus do individualismo radical nos vença e nos torne indiferentes ao sofrimento de outros irmãos e irmãs… colocando as leis do mercado e das patentes acima das leis do amor e da saúde da humanidade.

Estamos diante de desafios únicos para a humanidade. É um problema de salvação coletiva. Um país pode imunizar-se, mas continuará desprotegido se os outros países não estiverem, como diz Karina Gould, Ministra do Desenvolvimento Internacional do Governo do Canadá, ao somar-se às iniciativas de ajuda: “Sabemos que enquanto um país estiver em risco, todos corremos risco”.

Se o projeto COVAX (Covid-19 Vaccines Global Access) conseguir realizar o que está desenhado, poderemos estar, de facto, diante de um bom sinal. Poderemos ter esperança na solidariedade internacional. A Fratelli Tutti poderá tornar-se um grande documento profético.

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