Todos na linha da frente

Sento-me a escrever estas linhas depois de ter tido conhecimento dos últimos números relativos à pandemia. Outra vez mais mortos e outra vez mais infetados. São números verdadeiramente aterradores, porque por detrás de cada um deles há pessoas e famílias concretas.

Tento imaginar, ainda que não seja totalmente capaz, a ansiedade, o sofrimento e a dor de todos os que estão mais diretamente envolvidos. E ao pensar assim caio rapidamente na conta de que, apesar de no meu círculo mais próximo não haver mortes, nem neste momento infetados, também eu estou diretamente envolvido. Não digo isto por mera empatia com os que estão a passar por esses momentos dramáticos, digo-o na mais profunda convicção de que os meus atos podem ter, certamente têm, implicação na vida dos outros.

Não posso estar na linha da frente, mas posso fazer muitas outras coisas

Não tenho qualquer tipo de formação especial no âmbito da saúde, por isso não posso estar nessa linha da frente, mas posso fazer muitas outras coisas, sendo a principal delas evitar a todo o custo ser um dos elos propagadores da doença. E depois posso sempre, devo sempre, estar atento aqueles que me rodeiam, sejam familiares próximos, ou vizinhos, de modo a poder ajudar naquilo que for necessário.

Estou perplexo, confesso. Os números são agora infinitamente superiores ao que eram no pior momento da chamada primeira vaga. Então, lembro-me bem, mesmo antes de nos mandarem recolher, fechámo-nos em casa. Sabemos hoje que talvez uma das principais razões para essa atitude residiu no medo de não sabermos com o que estávamos a lidar. Hoje temos um conhecimento muito mais profundo deste vírus e, em certo sentido, parece que perdemos o medo.

Estamos perigosamente a habituar-nos a números altos, tornando-nos insensíveis aos dramas pessoais que cada um deles significa. Estamos também bastante cansados de certas limitações que, de um modo ou de outro, sempre foram permanecendo. Muitos já não têm capacidade para aguentar mais a situação e pensam como podem salvar o seu posto de trabalho. E todos já intuímos que as consequências sociais serão certamente terríveis. Tudo isto está a empurrar-nos para atitudes que são, não tenhamos medo de o reconhecer, pouco sensatas.

É verdade que o processo de vacinação já começou. Mas também é verdade que é lento e, se bem que pode ajudar muito, não é nele que reside a verdadeira resolução dos nossos problemas. Aliás, uma vez mais este processo revela enormes desigualdades. Os países ricos, entre os quais nos incluímos, mesmo que constantemente estejamos a dizer que somos pobres, concluirão o processo de vacinação muitíssimo mais cedo do que os países pobres. A não ser que nos queiramos fechar dentro de enormes muros (bolhas de segurança), impedindo mais de metade da população mundial de por eles poder passar, não se vê como possamos adquirir a tão desejada imunidade de grupo.

Olhando uns pelos outros, mesmo confinados em casa. Desenho de Sophie Holt, Nova Zelândia, 2021, em https://unitednations.talenthouse.com/artworks/2287910
Olhando uns pelos outros, mesmo confinados em casa. Desenho de Sophie Holt, Nova Zelândia, 2021, em https://unitednations.talenthouse.com/artworks/2287910

A perigosa linha divisória entre puros e impuros

Sinceramente, pessoalmente não quero uma imunidade de grupo que seja só para alguns. A humanidade que daí se formaria, perigosamente, muito perigosamente mesmo, ficaria dividida em puros e impuros. Numa situação destas, como podemos ler no nº 36 da Fratelli Tutti,
“o princípio «salve-se quem puder» traduzir-se-á rapidamente no lema «todos contra todos» e isso será pior do que uma pandemia”.

O caminho tem de ser obrigatoriamente outro e este é mesmo o tempo para percebermos que todos estamos diretamente implicados. A cada um de nós toca o dever de fazer o que tem de ser feito. Todos na linha da frente. Linha que passa pelos hospitais, pelos serviços de segurança, pelos abastecimentos de bens essenciais, pelos mais diversos serviços necessários ao funcionamento da nossa sociedade. Linha da frente que passa também pela casa de cada um, onde devemos estar recolhidos sempre que não seja verdadeiramente necessário e indispensável sair.

Não podemos viver este momento histórico sem tirar as devidas lições. Este é o tempo, e volto de novo à Fratelli Tutti, para que “descubramos, enfim que precisamos e somos devedores uns dos outros, para que a Humanidade renasça com todos os rostos, todas as mãos e todas as vozes, livres das fronteiras que criamos” (nº 35), este é o tempo para (re)descobrir “esta (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos” (nº 32).

Somos todos convocados a estar na linha da frente. Na frente a que cada um é chamado a estar.

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