Rezar de olhos abertos

José Tolentino Mendonça, como poeta e teólogo, conhece a relação ambivalente entre as palavras e a oração. Em Rezar de Olhos Abertos, o Autor assume a missão de guiar o crente e a comunidade na verbalização orante, inserindo-se assim numa tradição espiritual que conhece nos Salmos a sua expressão talvez mais plena e fecunda. Não se trata de um caderno íntimo de oração agora publicado, mesmo que por vezes o leitor seja agraciado com fragmentos que intuímos de forte densidade pessoal. Para fecundar a relação que o exercício de leitura constitui, o Autor necessariamente se expõe: mais ainda quando se trata de pistas para a oração, esse exercício pessoal por excelência.

Ao mesmo tempo, não nos encontramos aqui com uma tradicional elaboração mais teórica ou doutrinal sobre o âmbito da oração; o breve Ingresso que acompanha os textos apresenta perguntas: De novo: como se aprende a rezar?. A resposta é dada pelos gestos.

A verdadeira oração cristã é aquela onde a vida está completamente comprometida. Ela atravessa, por isso, o corpo. Ela é a respiração, o grito, a interrogação, a súplica, o gesto sem palavras, a estação dilemática, o atraso, o imprevisto, as mãos cheias, as mãos vazias. Não é uma coisa mental. Não é certamente uma fórmula que se repete de forma desencarnada.

Por vezes tratando a Deus por Tu, por vezes em meditação sapiencial, por vezes exortando os irmãos, numa diversidade de tons que recorda, de novo, a polifonia sálmica, Rezar de Olhos Abertos propõe ao leitor uma prática de oração, não apenas na repetição ou fruição dos breves textos que compõem a obra, mas na aprendizagem da sabedoria de contemplar os diversos gestos e matérias-primas que, na vida de cada crente, alimentam a sua oração.

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