Critérios para construir a fraternidade

A fraternidade universal constitui a verdadeira utopia desta encíclica. Apesar das sombras de um mundo fechado, cheio de muros defensivos e de conflitos de todo o género, incluindo aqueles que se consideravam ultrapassados, como os nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos, agressivos (FT,11), é o sonho de uma fraternidade sem fronteiras que é reclamado desde as suas primeiras linhas.

O segundo capítulo fornece-nos os critérios evangélicos para prosseguir esse horizonte. A parábola do bom samaritano (Lc 10, 25-37) é-nos proposta “com a intenção de procurar uma luz no meio do que estamos a viver” (FT,56).

Atualizando a mensagem dessa narrativa, Fratelli Tutti lembra-nos que somos hoje confrontados com o homem entregue à sua sorte. As pessoas marginalizadas atiradas para as valetas são olhadas com uma perigosa indiferença, à semelhança dos dois religiosos da parábola, que passam ao largo, virando as costas ao sofrimento. A tentação é a de não nos julgarmos implicados nesta narrativa evangélica, quando, se fizermos uma lúcida revisão da nossa vida, descobriremos nela situações simétricas com cada uma das suas personagens. Na realidade, “todos temos algo do ferido, do salteador, daqueles que passam ao largo e do bom samaritano” (FT, 69).

Sou porventura guarda do meu irmão?

A parábola deve questionar cada um de nós, lançando-nos o desafio que já tinha sido equacionado no Livro do Génesis: Onde está o teu irmão? O Papa previne-nos que essa pergunta solicita uma reação da nossa parte:

A resposta é a mesma que damos nós muitas vezes: “Sou, porventura, guarda do meu irmão?” (Gn 4, 9). Com a sua pergunta, Deus coloca em questão todo o tipo de determinismo ou fatalismo que pretenda justificar como única resposta possível a indiferença. E, ao invés, habilita-nos a criar uma cultura diferente, que nos conduza a superar as inimizades e cuidar uns dos outros.

(FT, 57)

Os gestos do bom samaritano fazem ver que “a existência de cada um de nós está ligada à dos outros” (FT, 57). Por isso, o seu modelo “convida a fazer ressurgir a nossa vocação de cidadãos do próprio país e do mundo inteiro, construtores dum novo vínculo social” (FT, 66). O Papa Francisco insiste na relação entre o local e o universal, lembrando que a dimensão da fraternidade não será cultivada, se apenas ficar restrita ao domínio dos gestos caritativos individuais:

O amor que se estende para além das fronteiras está na base daquilo que chamamos «amizade social» em cada cidade ou em cada país. Se for genuína, esta amizade social dentro duma sociedade é condição para possibilitar uma verdadeira abertura universal.

( FT, 99)

Somos analfabetos no cuidar e sustentar os mais frágeis

A encíclica é fortemente interpeladora, ao socorrer-se da parábola evangélica para se dirigir a cada um de nós:

Com quem te identificas? É uma pergunta sem rodeios, direta e determinante: a qual deles te assemelhas? Precisamos de reconhecer a tentação que nos cerca de se desinteressar dos outros, especialmente dos mais frágeis. Digamos que crescemos em muitos aspetos, mas somos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis das nossas sociedades desenvolvidas.

(FT, 64)

O Papa põe-nos a pensar e isso desinstala-nos, ao fazer ver que há insidiosas maneiras de passar ao largo. Uma delas é a cultura da maledicência, para justificar o nosso descomprometimento:

Verifica-se uma triste hipocrisia, quando a impunidade do delito, o uso das instituições para interesses pessoais ou corporativos e outros males que não conseguimos banir, se associam a uma desqualificação permanente de tudo, à constante sementeira de suspeitas que gera desconfiança e perplexidade. Ao engano de que “tudo está mal” corresponde o dito “ninguém o pode consertar. Sendo assim, que posso fazer eu?” Deste modo, alimenta-se o desencanto e a falta de esperança; e isto não estimula um espírito de solidariedade e generosidade.

(FT, 75)

A encíclica dedica os seis últimos capítulos a indicar os vários campos que solicitam o nosso compromisso, contribuindo assim para que “a sociedade se oriente para a prossecução do bem comum e, a partir deste objetivo, reconstrua incessantemente a sua ordem política e social, o tecido das suas relações, o seu projeto humano “(FT, 66).

A necessidade e a urgência do compromisso político

A necessidade e a urgência do compromisso de todos na construção desse objetivo é relembrada no capítulo quinto, com estas palavras incisivas:

O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se dum pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja.

(FT, 168 )

A encíclica dá indicações claras sobre os lugares em que os cidadãos em geral se devem comprometer. Há aí uma forte insistência em aspetos já equacionados nas encíclicas anteriores: o respeito do planeta e a dimensão política como um lugar determinante para a promoção da fraternidade. Para os cristãos, este compromisso tem uma dimensão transcendente, “pois quem acredita pode chegar a reconhecer que Deus ama cada ser humano com um amor infinito e que assim lhe confere uma dignidade infinita” (FT, 85).

O relevo dado à dimensão crente do compromisso fica sublinhado com um apelo a renovar os métodos de educação da fé:

é importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa e as motivações para amar e acolher a todos.

(FT, 86)

O apelo a viver a fraternidade e a paz implica empreender percursos pacientes e perseverantes de escuta e de diálogo. Levar o fardo dos outros, aceitar as mesquinhas feridas diárias é a nossa grande ascese, com a qual se começa a pôr fim à cultura da indiferença. As palavras fechado e aberto aparecem várias vezes na encíclica em tensão. Percebe-se por detrás desta tensão a questão do fechamento da Igreja, quando se refugia num intimismo divorciado da vida, e do fechamento do nosso coração, atitudes que se inserem na mesma lógica do fechamento de fronteiras e do egoísmo financeiro e económico face aos pobres.

Foto da capa: Projeto de arte na paisagem Beyond Walls “Além das paredes”, do artista Saype que promove os valores da união, gentileza e abertura para o mundo. Cidade do Cabo, África do Sul , 19 JAN 2021. Foto: EPA / Valentin Flauraud para Saype.

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