O Cuidado, azimute para um tempo novo

A mensagem do papa Francisco para a celebração do 54º dia mundial da Paz – 1 de janeiro de 2021 – tem como título A cultura do cuidado para o percurso de paz.

No início de mais um ano, tempo tão oportuno para refazermos compromissos e redesenharmos itinerários, eis que nos é sinalizado de novo o exercício do cuidado como azimute que deve orientar a nossa caminhada.

Para quem não esteja familiarizado com técnicas de caminhada e orientação talvez valha a pena dizer que o azimute aponta-nos uma direção, definida a partir de uma meta à qual pretendemos chegar.

Lembro-me bem dos cursos de orientação que fiz quando comecei a praticar caminhada em montanha. Primeiro ensinaram-nos a encontrar no mapa a nossa localização, depois a identificar o ponto para o qual nos queríamos dirigir. Finalmente, com a ajuda de uma bússola, a traçar o azimute que nos permitisse encontrar, no terreno, a direção que deveríamos seguir para alcançar o ponto anteriormente escolhido.

Com a bússola na mão, percorríamos, então, o caminho na direção indicada. Muitas vezes tínhamos que fazer desvios, pois as dificuldades do terreno a isso nos obrigavam, mas como tínhamos definido qual o horizonte para que nos dirigíamos e conhecíamos a direção que deveríamos tomar, então, apesar dos desvios, conseguíamos reorientar-nos e colocar-nos da direção certa.

Hoje, com os GPS as coisas estão bastante mais facilitadas, mas os princípios de orientação mantêm-se os mesmos. Se não soubermos qual é o horizonte para onde queremos caminhar e não conhecermos a direção (o azimute) que nos pode colocar nesse sentido, então certamente continuaremos a correr o perigo de nos perder.

Ainda a lidar com uma pandemia e com as suas consequências a sentirem-se cada vez mais, o ano de 2021 vai certamente ser muito importante para nos reorientarmos no nosso caminhar não só como indivíduos, como comunidades, como povos e como estados, mas também como humanidade. Intuindo a importância do momento atual que estamos a viver, o papa Francisco, nesta mensagem, volta a propor a cultura do cuidado como azimute pelo qual orientar o nosso caminhar.

Na mudança de tempo que estamos a viver é necessário definir bem o horizonte para onde queremos caminhar

Estamos verdadeiramente a viver, como já se tornou evidente para quase todos, uma mudança de tempo. É, por isso, necessário, definir bem o horizonte para o qual queremos caminhar. Nessa tarefa a promoção da dignidade humana, a procura do bem comum, a prática da solidariedade, a salvaguarda da criação, a defesa da paz são princípios fundamentais a ter bem presentes. A partir deles poderemos encontrar a melhor direção, como nos é sugerido nesta mensagem:

num tempo dominado pela cultura do descarte e perante o agravamento das desigualdades dentro das nações e entre elas, gostaria de convidar os responsáveis das Organizações internacionais e dos Governos, dos mundos económico e científico, da comunicação social e das instituições educativas a pegarem nesta «bússola» dos princípios acima lembrados para dar um rumo comum ao processo de globalização, «um rumo verdadeiramente humano».
Na verdade, este permitiria estimar o valor e a dignidade de cada pessoa, agir conjunta e solidariamente em prol do bem comum, aliviando quantos padecem por causa da pobreza, da doença, da escravidão, da discriminação e dos conflitos. Através desta bússola, encorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado, a fim de preencher tantas desigualdades sociais. E isto só será possível com um forte e generalizado protagonismo das mulheres na família e em todas as esferas sociais, políticas e institucionais.

Um Fundo Mundial para eliminar a fome

E porque se trata de uma mensagem escrita no contexto da celebração da paz, não quero deixar de sublinhar a proposta concreta que, uma vez mais, aqui é repetida por Francisco: “Como seria corajosa a decisão de criar «um ‘Fundo mundial’ com o dinheiro que se gasta em armas e outras despesas militares, para poder eliminar a fome e contribuir para o desenvolvimento dos países mais pobres»! Seguir um azimute, implica mesmo a decisão de dar passos concretos.

No início de um novo ano, que queremos possa ser também início de um tempo novo, tomo emprestadas as palavras de Francisco, desejando a todos um excelente 2021.

Neste tempo, em que a barca da humanidade, sacudida pela tempestade da crise, avança com dificuldade à procura dum horizonte mais calmo e sereno, o leme da dignidade da pessoa humana e a «bússola» dos princípios sociais fundamentais podem consentir-nos de navegar com um rumo seguro e comum.
Como cristãos, mantemos o olhar fixo na Virgem Maria, Estrela do Mar e Mãe da Esperança.
Colaboremos, todos juntos, a fim de avançar para um novo horizonte de amor e paz, de fraternidade e solidariedade, de apoio mútuo e acolhimento recíproco. Não cedamos à tentação de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais frágeis, não nos habituemos a desviar o olhar, mas empenhemo-nos cada dia concretamente por «formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros».

Foto da capa: Frei Mauro Gambetti na altura guardião do Convento de Assis e recentemente nomeado cardeal, saúda Simon Peres, na altura presidente de Israel, na sua visita a Assis, 1 de maio de 2013. Foto: EPA / Pietro Crocchioni.

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