Aprender a sentir e a chorar

Na sua icónica visita a Lampedusa o Papa Francisco foi chorar por “aqueles que ninguém chora”.
Uma sociedade de bem-estar afasta o choro, a morte. No dizer do Papa Francisco, com esta sociedade “desaprende-se o sentir e o chorar…”.

Mas o confinamento da nossa fragilidade obriga-nos a reaprender o choro, a sonhar os afetos e a reencontrar os laços. O sonho de Jeremias: “Dar-lhes-ei um coração novo e infundirei no seu íntimo um espírito novo. Arrancarei do seu corpo o coração de pedra e dar-lhes-ei um coração de carne,” ganha novo sentido quando procuramos o tempo de Deus.

Isaías e João Batista são figuras emblemáticas que nos remetem para os tempos messiânicos e anunciam novas oportunidades para a vida e para o mundo. O sonho dos tempos messiânicos de Isaías foi repetido de uma forma brilhante por Thiago de Melo no Estatuto do Homem.

Estatuto do Homem, Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

João Batista proclama a chegada do “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” e anuncia que Ele já está entre nós: “No meio de vós está alguém que não conheceis”.

O Advento é oportunidade. A espera é brecha por onde descortinamos a luz da esperança. A vigilância é o desafio de encontro para perceber os sinais d’Aquele que vem.
Urge escutar a Palavra que se encarna na vida dos corações atribulados e pobres, simples e puros, promotores de paz e de justiça, odiados, perseguidos e misericordiosos.
O advento é o tempo de cuidar dos caminhos, de endireitar as veredas para que haja lugar para o Esperado das nações.

Passado esse tempo de espera, vivemos este tempo de Deus experimentando a celebração do Natal como Luz e como plenitude de vida. Mas também de coração apertado. No silêncio e na solidão. Porque à pandemia COVID junta-se a pandemia climática, e, se não houver solidariedade, anuncia-se uma dramática pandemia da fome, mais terrível que esta que nos atravessa e que já está visível nos 30 000 000 de pessoas que só sobrevivem com a ajuda humanitária.

Este tempo de Natal, mas também de pandemia, é um convite a pensar um mundo outro, um mundo salvo. É um mundo amado por Deus, te tal modo que “lhe enviou o seu Filho Unigénito”.

Na fragilidade do nosso Deus, nascido entre pastores, nas margens da grande Cidade, urge encontrar soluções de saúde para o homem e para a nossa Terra ferida.

Como diz o P. António Spadaro:

É evidente que é preciso pegar novamente nas mãos a encíclica Laudato si, encíclica sobre a casa comum que não é apenas uma encíclica sobre o ambiente, mas que também diz respeito à doutrina social da Igreja. Ela leva a compreender as questões ecológicas que têm um impacto muito forte e devastador sobre a vida nesta nossa Terra e sobre a justiça social. Essa encíclica é um ato de liderança global que supera também as fronteiras entre crentes e não crentes, e indica uma direção… Nunca, como neste momento, percebemos que as fronteiras, de facto, não têm valor, precisamente porque o vírus as cruza com grande facilidade. Existe uma humanidade que nos faz sentir como irmãos, porque compartilhamos exatamente o mesmo problema.

Mas é na Fratelli Tutti que o Papa Francisco remete para uma atitude frontal de conversão da vida e das instituições no pós COVID. Urge aprender novas formas de vida e não apenas mudar alguma coisa para que tudo continue igual, de uma forma ‘Lampedusiana’:

Passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta. No fim, oxalá já não existam «os outros», mas apenas um «nós». Oxalá não seja mais um grave episódio da história, cuja lição não fomos capazes de aprender…
Se não conseguirmos recuperar a paixão compartilhada por uma comunidade de pertença e solidariedade, à qual saibamos destinar tempo, esforço e bens, desabará ruinosamente a ilusão global que nos engana e deixará muitos à mercê da náusea e do vazio.

Foto da capa: Papa Francisco, no início do seu pontificado, desloca-se a Lampedusa para lembrar e rezar pelos refugiados mortos ao atravessar o Mediterrâneo, agosto 2013. Foto: SIR.

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