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A dureza do caminho

Da Sicília até Assis

Depois de todos os seus projetos fracassados, António parte da Sicília, onde tinha naufragado no regresso de Marrocos, em direção a Assis, para se encontrar com Francisco.

Parece um longo percurso de vida, mas na realidade, passaram, apenas, poucos meses desde o dia em que António tomou a decisão de sair dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho para ingressar nos Franciscanos.

Segundo os projetos de António, tudo deveria resolver-se num rápido martírio em Marrocos: tinha sido esta a condição acordada para a mudança de camisola e de equipa. Mas António nem imaginava os projetos que Deus lhe tinha reservado! Quantas vezes, após ter feito as malas para o destino definitivo, teve de mudar de ideias e refazê-las novamente.

Quantos passos um atrás do outro, percorrendo caminhos, pedregosos em Portugal, arenosos em Marrocos, perfumados na Sicília, líquidos no Mar Mediterrâneo; com quantas pessoas não se terá cruzado, todas devidamente cumprimentadas com a saudação franciscana de “paz e bem”, mas nenhuma conhecida profundamente; quantos lugares calcorreados sem parar e sem os habitar verdadeiramente; seguindo diretamente para a meta, evitando desvios e ansioso por chegar o mais rápido possível. E a meta parecia cada vez mais longe, inatingível pelo desejo demasiado curto de vistas, pelo olhar circunscrito aos próprios projetos. Mas, agora, falando a sério, terá mesmo existido uma época passada no mosteiro de São Vicente? E a estadia em Santa Cruz terá sido um sonho? Quem terá realmente mexido os cordelinhos? O que é que sobra daqueles sonhos iluminados pelas pinturas da abóbada da igreja, enquanto ressoavam os cânticos sagrados? E dos sonhos vividos à sombra dos ramos das oliveiras resplandescentes de luz, ao redor da igreja de Santo António Abade? E os mártires? Porque é que as contas, humanamente falando, nunca batiam certo?

Mais do que a saúde, foi, certamente, a ousadia juvenil que o sustentou ou não será, antes, que alguém se aproveitou dele, descaradamente, levando-o a passear de um lado para o outro pelo Mediterrâneo fora? Tal como aconteceu aos seus desejos ao descobrir que não eram exatamente os mesmos que ele queria. Mas, apesar de tudo e através deles, crescia a sua paixão por Deus e pelos irmãos. O entusiasmo nunca lhe faltou e nunca se deu por vencido, mesmo diante do aparente falhanço ou fracasso. Que lição ardente de vida e de fé nas areias escaldantes do deserto marroquino! Que escola a tempestade que o desviou para a Sicília, em vez de o levar para casa, em Portugal!

E, no entanto, o rosário das oportunidades falhadas é bem inferior às oportunidades que, de novo, Deus fazia surgir à sua frente. Bastava acreditar e aceitar de bom agrado que fosse Deus a indicar o caminho. Afinal, era isso mesmo que Francisco de Assis andava ensinando aos seus irmãos. Mas António ainda nem sequer o conhecia.

Tinha tantas perguntas para fazer,
tantos conselhos para escutar…

Porém, os frades que o acolheram na Sicília, deram-lhe logo uma boa notícia: esta era a hora de pôr-se a caminho novamente. Francisco, o seu fundador, tinha convocado todos os irmãos espalhados pelo mundo para uma reunião, em Assis, onde, na primavera seguinte, mais precisamente no dia 30 de maio, se iria realizar um “Capítulo”, nos prados e bosques ao redor da igreja de Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula. Assim, também António poderia finalmente encontrar e conhecer pessoalmente o Irmão Francisco! Que maravilha! Iria ser, sem dúvida, um encontro decisivo. Tinha tantas coisas para lhe perguntar, tantos conselhos para escutar e … centenas de quilómetros para percorrer a pé, desde a península italiana até à região da Umbria, bons para pôr em ordem as dúvidas e as perguntas.

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