27 JANEIRO | DIA DA MEMÓRIA

Maximiliano Maria Kolbe: uma luz no inferno de Auschwitz

Em 27 de Janeiro – aniversário da libertação do Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau (27 de janeiro de 1945) –, celebramos o Dia Internacional da Memória da Shoah, uma data para lembrar a memória de milhões de vítimas provocadas pelo genocídio da Alemanha nazi e a necessidade de combater o antissemitismo, o racismo e qualquer outra forma de intolerância que possa levar à violência.

Um dos seis milhões de vítimas nos campos de extermínio nazis foi Maximiliano Maria Kolbe, um franciscano conventual que, no inferno de Auschwitz marcado pelo ódio, “conseguiu a vitória mais difícil e maior: a do amor que perdoa” (São João Paulo II).

Escolhi esta foto para o apresentar, a última, que lhe foi tirada em 1940, pela KennKarte (documento de identidade de base utilizado durante o Terceiro Reich). Maximiliano aparece sem a longa barba, despido do seu traje franciscano e, sobretudo, com um olhar de mansidão que será a sua verdadeira identidade no campo de concentração.

São Maximiliano Maria Kolbe. A última fotografia, tirada em 1940, pela KennKarte (documento de identidade de base utilizado durante o Terceiro Reich)
São Maximiliano Maria Kolbe. A última fotografia, tirada em 1940, pela KennKarte
(documento de identidade de base utilizado durante o Terceiro Reich)

Batizado no mesmo dia do nascimento, 8 de janeiro de 1894, na Polónia, com o nome de Raimundo, vive a sua infância numa família pobre, mas muito religiosa e trabalhadora. Em 1910 entra, ainda adolescente, na Ordem dos Franciscanos Conventuais, assumindo o nome de Maximiliano. Aluno brilhante, continuou os seus estudos em Roma e a sua relação especial com Nossa Senhora.

Em 1917, ainda estudante de Teologia, juntamente com outros seis jovens frades, funda a Milícia da Imaculada, como reação ao anticlericalismo e com a intenção de evangelizar o mundo tendo a Virgem Maria como intermediária.

Regressado à sua terra natal em 1922, Maximiliano, após alguns anos de apostolado, através de uma revista mariana por ele iniciada, funda a Cidade da Imaculada, em polaco Niepokalanów, um centro de comunicação social cristã em que chegaram a viver 672 religiosos. Em 1930, vai para o Japão, a fim de fundar a mesma obra e difundir, num país onde o catolicismo estava quase completamente desconhecido, a devoção a Maria. Nasce em Nagasaki a Cidade da Imaculada japonesa, Mungenzai no Sono. Em 1936, regressa a Polónia.

Em 1939, dia 1 de setembro, com a invasão repentina da Polónia pelo exército alemão sob o comando de Hitler, rebenta a II Guerra Mundial. Os nazis começaram a prender e deportar judeus e, com eles, outros grupos étnicos e líderes católicos.  Os quase setecentos frades que viviam em Niepokalanów foram dispersos. Os nazis procuraram convencer Maximiliano a colaborar com eles, e o frade até podia valer-se do nome do seu apelido de origem alemã, Kolbe. Mas ele recusou e foi preso uma primeira vez a 19 de setembro de 1939. Libertado, juntamente com outros frades, e regressados à cidade da Imaculada, começaram a dar abrigo a refugiados, judeus e a qualquer outra pessoa perseguida pelos nazis. A 17 de fevereiro de 1941, Maximiliano foi preso novamente e nunca mais voltou para Niepokalanów. Despediu-se dizendo: «Irmãos, não esqueçais o amor!»

Foi levado para o campo de trabalhos forçados de Auschwitz. Para os nazis era apenas o número 16670, mas para os prisioneiros Maximiliano destacava-se pela sua mansidão. Sigismundo Gorson, um judeu que sobreviveu, deixou este testemunho.

Tinha treze anos e vinha de uma bela casa, onde o amor era uma palavra-chave. De repente encontrei-me órfão e só no inferno de Auschwitz. Padre Kolbe foi para mim como um anjo e como uma mãe galinha me pegou nos braços. Enxugava as minhas lágrimas. Ele sabia que eu era judeu, mas isso não fez diferença: amava a todos e dava amor, somente amor. Distribuía uma porção tão grande das suas rações que foi um milagre para mim que ele continuasse vivo… era um príncipe entre os homens.
Muitos iam ter com ele para se confessar ou para receber conforto. Graças ao exemplo dos outros, eu também, de noite, rastejando no chão, aproximei-me de Maximiliano. A saudação foi tocante. Trocámos algumas palavras sobre a impressão que metia o crematório. Ficámos em silêncio. Depois disse-me: “O ódio não é uma força criadora. Só o amor é uma força criadora… Essas dores não nos vão quebrar, mas devem-nos ajudar a sermos fortes. São necessárias para que os que vierem depois sejam felizes”.

Um dia, um prisioneiro do campo fugiu. A lei era conhecida: dez deles teriam sido sorteados para morrer à fome num subterrâneo. Maximiliano não foi sorteado, mas saiu da fila para se oferecer em lugar de Francisco Gajowniczek, um pai de família. Único sobrevivente do grupo, Maximiliano resistiu por quinze dias à fome, à sede, ao desespero na escuridão do cárcere. Confortava os companheiros, os quais, um após outro, aos poucos sucumbiam. Morreu com uma injeção de fenol que lhe administraram. Era o dia 14 de agosto de 1941. O seu corpo foi queimado no dia seguinte, forno onde eram lançadas as centenas de corpos de judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais, padres e religiosas e muitos outros da inteligência considerados opositores do regime nazista.

Por todo o campo espalhou-se a voz da generosa oferenda deste homem que tinha oferecido a sua vida em prol de um outro ser humano.

Demo-nos conta – testemunhou mais tarde Jorge Biellecki, ex-prisioneiro de Auschwitz – que alguém de nós, naquela escura noite espiritual da alma, tinha elevado a medida do amor ao nível mais alto. Um estranho, um como qualquer outra pessoa, torturado e privado do seu nome e da sua posição social, tinha-se prestado a uma morte horrível para salvar alguém de que nem era seu parente. Portanto, não é verdade, gritávamos, que a humanidade é lançada e pisada na lama, esmagada sem esperança. Milhares de prisioneiros convenceram-se de que o mundo continuava a existir e que os nossos carrascos não podiam destruí-lo. Mais de um indivíduo começou a buscar esse mundo, essa verdade dentro de si, para encontrá-la e compartilhá-la com os outros camaradas do acampamento e apoiavam-se um ao outro para lutar contra o mal. Afirmar que o Padre Kolbe morreu por um de nós ou pela família daquela pessoa seria redutivo. A sua morte foi salvação de milhares de vidas humanas. Nisto, posso dizer, está a grandeza daquela morte. É isto que sentimos. E, enquanto vivermos nós que estávamos em Auschwitz, inclinaremos a nossa cabeça em memória daquilo que aconteceu, assim como inclinámos a cabeça diante do bunker da fome. Aquele foi um choque que nos restituiu o otimismo, que nos regenerou e nos deu força. Ficámos sem palavras com o seu gesto, que se tornou para nós uma explosão de luz muito poderosa, capaz de iluminar a noite escura do acampamento.

Maximiliano Kolbe foi beatificado pelo Papa Paulo VI em 1971 (há 50 anos) e canonizado pelo Papa João Paulo II, em 1982 (presente em ambas as celebrações Francisco Gajowniczek, o homem que ele salvou). Poucos dias depois da sua beatificação em São Pedro, o Papa Paulo VI disse: “Se o grande patriarca São Francisco pela sua conformidade a Cristo mereceu tornar-se o Crucifixo do monte Alverne, Maximiliano Maria Kobe, com o sublime holocausto da sua vida, identificou-se a Cristo no ato supremo da caridade”. E o Papa João Paulo II no dia da canonização do seu conterrâneo apresentou-o ao mundo como o patrono do nosso difícil século (o século XX).

Foto da capa: Portão principal de Auschwitz I, onde se lê a frase “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”). De acordo com dados do memorial de Auschwitz, pelo menos 232.000 crianças e jovens foram deportados para Auschwitz, dos quais 216.000 eram judeus, 11.000 ciganos, cerca de 3.000 poloneses, mais de 1.000 bielorrussos e várias centenas de russos, ucranianos e outros. No total, cerca de 23.000 crianças e jovens foram registados no acampamento. Um pouco mais de 700 foram libertados no território de Auschwitz em janeiro de 1945. Foto EPA / PAWEL SAWICKI / http://www.auschwitz.or.

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