Famílias dos outros

Sara Belo Luís

Sou jornalista há mais de 20 anos. Quando comecei, no final da década de 90 do século passado, o mundo ainda não estava ligado em rede e, na Redação, tive a sorte de me cruzar com alguns jornalistas da velha guarda que me ensinaram muito do que hoje sei. Uma das lições que então aprendi foi que jamais devemos escrever um texto na primeira pessoa, a prioridade deve ser sempre dada aos outros, aos seus problemas e às suas conquistas, às injustiças e aos esquecimentos, ao estado do mundo, em suma. Continuo a considerá-la uma regra sagrada e só muito de vez em quando admito quebrá-la. Ser jornalista é, antes de mais, estar ao serviço. Não por acaso, é justamente esta a palavra que utilizamos quando saímos da Redação para fazer uma reportagem ou uma entrevista: “Fui fazer um serviço”.

Trono de Santo António na casa da Sara Belo Luís.
Trono de Santo António na casa da Sara Belo Luís.

Desde o princípio da pandemia do novo coronavírus que não paro de pensar nisto e até já o escrevi noutro local: esta pandemia devia obrigar-nos a calçar os sapatos dos outros. Ver o mundo a partir dos olhos dos outros, percebermos as dores dos outros, entendermos o sofrimento dos outros. Também por isso, não me agrada particularmente falarmos de Famílias como as nossas, proponho que falemos antes das Famílias dos outros. A propósito vem uma citação de um gigante, uma das mais célebres frases da literatura mundial: “Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira” (Anna Karénina, Lev Tolstói).

Falar de Famílias como as nossas – como a minha, no caso – é ter plena consciência dos meus privilégios, assim como dos da esmagadora maioria das pessoas à minha volta. Não perdemos os nossos empregos, pudemos trabalhar a partir de casa sem problemas de maior, vivemos numa casa grande e luminosa, conseguimos ajudar os nossos filhos a estudar à distância durante o confinamento da primavera, mantivemo-nos saudáveis.

Mais: temos familiares e amigos sempre disponíveis e até vizinhos que se preocupam com o nosso bem-estar. Por tudo isto, sinto-me obrigada a olhar para as Famílias dos outros, para aqueles que, apesar de estarem no mesmo barco que nós, como bem lembrou o Papa Francisco, têm outras condições de navegabilidade: para os que estão doentes e para os que morreram, para os que perderam os seus empregos, para os que não têm boas casas.

Pelos livros, ficámos a saber que todas as epidemias da História da Humanidade originaram novos paradigmas e mudaram as sociedades de forma estrutural, mas também acentuaram desigualdades sociais e económicas, aceleraram mudanças em curso. Já se disse que, desta vez, temos a Ciência do nosso lado e um mundo quase integralmente escolarizado. Não temos desculpas nem perdões, é nosso dever, nossa obrigação, proteger os mais frágeis: estar ao serviço.

Por fim, recordo Santo António. Nasceu em Lisboa, fez-se santo em Pádua, depois de, pelas palavras e pelos atos, cativar tudo e todos no Sul de França e no Norte de Itália. No dia em que faleceu, em 1231, o povo saiu à rua anunciando a sua morte, o seu querido Santo. Continua a ser um santo próximo das pessoas, nada lhes pede, nada lhes exige, nada lhes impõe. Nem orações, nem atos de contrição, nem atitudes. Está ao serviço dos outros.


Sara Belo Luís

Sara Belo Luís é subdiretora da VISÃO. Começou a escrever para a VISÃO no final dos anos 90 e desde então integrou as secções de Cultura (ainda há quem se lembre disso) e de Portugal (ninguém se lembra disso). Editou a VISÃO Se7e e, a partir de 2016, assumiu funções como editora executiva.
Licenciada em Comunicação Social e pós-graduada em Ciência Política e Relações Internacionais, também deu aulas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Nasceu em Lisboa no Verão Quente de 1975, tem três filhos e, apesar de na família não haver registo de algum dia ter dito que queria ser jornalista, gosta muito do que faz.

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