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Drama humanitário em Pemba

Palavras do bispo da diocese de Pemba, Dom Luiz Fernando Lisboa, nos Diálogos com António 2020: Ninguém fica para trás, que decorreram no dia 1 de novembro de 2020, no mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, e por videoconferência , em Pemba e Lisboa:

Intervenção do bispo de Pemba nos Diálogos com António 2020: Ninguém fica para trás, 1 de novembro 2020

“A diocese de Pemba é a que está mais ao Norte de Moçambique e ela tem quase o tamanho de Portugal. Há 3 anos está a ser sacrificada por uma guerra que começou pequena com um ataque a um posto policial, mas que tomou proporções absurdas, já provocou mais de 400000 deslocados e já afetou mais de 1 milhão de pessoas, pois, na realidade, quem não é deslocado está a colher deslocados.

Aqui, na cidade de Pemba, é difícil encontrar uma família que não tenha no seu quintal, na sua casa, mais uma, duas ou três famílias e assim acontece nos outros distritos. Numa cidade vizinha chamada Metuge, nós temos 7 acampamentos e nesses acampamentos temos cerca de 25 a 30 000 pessoas, sem contar aquelas que estão nas  casas acolhidas pelas famílias. Então, Cabo Delgado que é a nossa província, o povo de Cabo Delgado tem dado um exemplo espetacular de acolhimento, pois, cada família, que já é pobre, está acolhendo na sua casa mais uma ou duas ou três famílias; há um quintal, por exemplo, que chega a ter 60 a 70 pessoas.

No último mês essa guerra tem-se intensificado muito, por exemplo, só neste último mês chegaram aos campos de Metuge, 13 a 14 000 pessoas e nestes últimos 10 dias chegaram a Pemba, mais de 10 000 pessoas e mais de 200 pequenas embarcações. É uma situação dramática de pessoas que estão a fugir da guerra, das suas aldeias, das suas ilhas. Só para terem uma ideia, nestes dois últimos dias, o distrito de Muidumbe teve sete ataques, em sete aldeias. Nós temos falado com as nossas lideranças que estão a dormir no mato. As pessoas passam 3, 4, 5 dias no mar. Chegam desidratadas, esfomeadas, muitos chegam doentes, já houve casos de chegarem já mortas. Duas senhoras deram à luz no barco, enquanto viajavam, num barco apinhado de gente. Algumas chegam com algumas capulanas, alguma coisa que conseguiram juntar, alguma panela, mas a maior parte das pessoas chega quase sem nada.

Refugiados na praia de Paquitequete, Pemba
Refugiados chegando na praia de Paquitequete, Pemba

A primeira iniciativa é acolher, atender as que precisam de médico e dar algum tipo de alimento e água, depois pouco a pouco o pessoal do bairro responsável faz uma ficha para identificar quem são essas pessoas, se tem algum familiar aqui em Pemba, ou não e aqueles que não têm ficam ali na praia em barracas, num acampamento improvisado, dias à espera de serem levadas para algum lugar ou casa de familiares.

A Igreja nunca pode ficar calada quando vê situações como esta, seria um grave pecado de omissão.

O mínimo que podemos fazer é emprestar a nossa voz para que esse povo seja ouvido, para que haja mais fraternidade e para que nós vençamos a indiferença, para que esse problema nos toque a cada um de nós. Não é um problema só daquelas pessoas, é um problema do mundo, é um problema nosso, é um problema de todos.

Não é justo que as pessoas morram de fome, não é justo que as pessoas sejam tratadas daquela maneira. É por isso que nós temos tentado falar e convidar toda a comunidade moçambicana, mas também internacional a ser solidária, a viver essa fraternidade que Francisco fala na sua encíclica”.

Intervenção do bispo de Pemba, Dom Luiz Fernando Lisboa, nos “Diálogos com António 2020: Ninguém fica para trás”, 1 de novembro de 2020

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