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Deus quis fazer-se homem para poder chorar

O mês de Novembro, na nossa tradição cultural e religiosa, começa com a solenidade de Todos os Santos e a comemoração dos fieis defuntos.

São dias marcados pela visita aos cemitérios e pela recordação dos familiares e amigos que nos precederam no caminho da vida. Estas recordações são acompanhadas, quantas vezes, por lágrimas: umas, mais vistosas, outras, talvez a maior parte, mais silenciosas e contidas. São lágrimas de saudade, de dor, de tristeza e de sofrimento.

Este ano, às lágrimas ligadas ao “dia dos Finados”, juntaram-se as lágrimas devidas à pandemia, que continua a fazer vítimas e a assustar toda a gente e em todo o mundo.
Nesta situação, o pior que nos pode acontecer é sofrer ao abandono, sem ninguém que se lembre de nós.

Até Jesus experimentou o abandono, na cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt 27, 46). Ele, porém, teve a coragem de lançar o seu brado para o Céu, porque é a oração que nos pode salvar do abandono.

Nos Salmos, encontramos outra expressão particularmente bonita: “Tu, Senhor, recolheste e guardaste as minhas lágrimas” (Sl 56, 9); quer dizer: as nossas lágrimas são a garantia de que Tu não nos abandonas.

O Papa Francisco, numa das últimas catequeses das Quartas-feiras sobre os Salmos, realçou o valor das lágrimas e, recordando que também Jesus chorou diante da dor das pessoas, disse:

Deus chorou por mim, Deus chora pelas nossas dores. Porque Deus quis fazer-se homem – dizia um escritor espiritual – para poder chorar. Pensar que Jesus chora comigo na dor é uma consolação: ajuda-nos a seguir em frente. Se nos mantivermos numa relação com Ele, a vida não nos poupa os sofrimentos, mas abre-se a um grande horizonte de bem e encaminha-se para a sua realização.

Quanto à importância da oração, o Papa Francisco referiu:

Os salmos ensinam-nos a não nos habituarmos à dor e lembram-nos que a vida não se salva, se não for curada. A existência do homem é um sopro, a sua história é fugaz, mas quem reza sabe que é precioso aos olhos de Deus e, por isso, tem sentido rezar e bradar para o Céu. Pode acontecer, e até frequentemente, que não compreendamos os desígnios de Deus. Mas os nossos gritos não estagnam aqui na terra: elevam-se até Ele, que tem o coração de Pai e chora por cada filho e filha que sofre ou morre.

Peçamos ao Senhor que dê aos que choram a sua consolação e aos que não sabem chorar o dom das lágrimas, para tornar o nosso caminho de vida mais autêntico e solidário.

Foto da capa: Parentes choram a morte da palestiniana Dalia Smoudi, morta por militares israelitas durante um ataque à cidade de Jenin, 7.AGO.2020. Foto: EPA / ALAA BADARNEH.

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