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Economia de Francisco: O que há de novo na doutrina social da igreja?

Desde o início do seu pontificado, o Papa Francisco deu sinais inequívocos da sua inquietação com o funcionamento da economia que gera desigualdades e pobreza, que agrava as condições de vida da maioria das populações, que coloca em causa o ambiente.

Na minha opinião, três preocupações principais e interligadas emergem do questionar da economia subjacente à visão do Papa Francisco: i) A economia das desigualdades e da exclusão social; ii) A dignidade do trabalho; iii) As questões ambientais.

Um primeiro aspecto que deve ser destacado é que a análise que o Papa Francisco tem feito acerca das desigualdades, da pobreza e do papel dos mercados não é uma rotura, mas sim a continuidade e o aprofundamento da doutrina social da igreja, desenvolvida a partir de Leão XIII, aprofundada por Pio XI e sistematicamente invocada por Paulo VI, João Paulo II ou mesmo Bento XVI.

Mas enquanto os seus antecessores alertaram para os riscos e as injustiças potenciais que poderiam advir de um funcionamento desregulado da economia e dos mercados, o Papa Francisco vai mais longe ao afirmar que essa é a realidade contemporânea, não um risco potencial, mas a realidade efetiva.

O que há de novo
é a atribuição de uma nova centralidade
ao papel dos pobres,
à necessidade de combater as desigualdades
e as injustiças sociais.

O que é novo é a atribuição de uma nova centralidade ao papel dos pobres, à necessidade de combater as desigualdades e as injustiças sociais. O que é também inovador é a ênfase que é dada não somente aos resultados e às consequências das desigualdades e da pobreza, mas também às suas causas, à ligação entre o modelo económico e as desigualdades.

Nesse contexto, surge claramente a critica ao endeusamento do mercado como um fim e não como um instrumento, a denúncia do consumismo induzido pelo próprio funcionamento desregulado do mercado e a necessidade de um combate à cultura do desperdício. O Papa Francisco acentua igualmente a necessidade de mudanças profundas no ‘estilo de vida’ das sociedades modernas, critica aquilo que define como a globalização da indiferença e apela à construção de uma sociedade mais solidária.

Com os suas propostas, o Papa procede a uma alteração muito expressiva do paradigma dominante da relação entre crescimento económico e desigualdade afirmando inequivocamente que o crescimento não é condição necessária, nem suficiente, para erradicarmos a pobreza. Isso implica uma outra forma de olharmos para a sociedade, para a forma como produzimos, como consumimos, como a riqueza é distribuída.

Na carta apostólica A Alegria do Evangelho, o Papa Francisco associa claramente o modelo económico predominante nas economias desenvolvidas com a economia que mata, associando-a à injustiça social, ao desrespeito pelos direitos humanos e à subordinação da vida familiar ao “império do dinheiro”. Nesse sentido, as palavras e as ações do Papa Francisco constituem hoje um incentivo para todos aqueles, católicos e não católicos, que defendem uma sociedade mais justa e inclusiva.

O que há de mais inovador, mais transformador em termos da mudança de mentalidades que o Papa Francisco defende é o facto de que tal mudança implica nós sermos capazes de alterar os nossos comportamentos e assim alterar a forma de funcionamento da sociedade, alterar o modelo económico, não só no modo como ele funciona, mas na própria forma como o concebemos.

Isso implica uma alteração profunda no funcionamento da economia e da sociedade, das relações laborais, da forma como usamos (e abusamos) dos recursos existentes.

Uma proposta tão abrangente sobre o nosso futuro colectivo não pode deixar de suscitar reações, algumas delas fortemente criticas da mensagem do Papa.

Tenho seguido com atenção várias opiniões sobre aquilo que comummente chamamos a Economia de Francisco e, em particular, a forma como alguns sectores na sociedade e na igreja tentam neutralizar o carácter inovador da abordagem do Papa Francisco.

Uns, talvez os mais radicais, dizem que a sua mensagem é uma heresia e, portanto, estão claramente contra a mensagem do Papa.

Há um outro grupo, infelizmente com algum peso em determinados sectores e correntes universitárias, que no fundo afirma que “a mensagem do Papa Francisco não tem nada de novo, está a dizer o mesmo de sempre, as diferenças são uma questão de estilo, de ênfase; um Papa que vem da Argentina não pode falar da mesma forma que um que vem do centro da Europa”. No fundo é uma linha de argumentação que tende a neutralizar aquilo que de inovador e de transformador a mensagem do Papa contém; são aqueles que não têm a coragem de se assumir claramente contra.

E, finalmente, há também aqueles que olham para esta mensagem como uma mensagem evangélica em relação à necessidade que nós temos de transformar o mundo e eu espero que esta linha venha a gerar frutos para a sociedade do futuro.

Um outro aspecto que eu gostaria de salientar na mensagem do Papa Francisco é o seu apelo aos jovens como fator de transformação social. Esta ênfase na questão dos jovens, não é porque o Papa ache que os jovens tenham mais facilidade em perceber a sua mensagem do que as outras pessoas.

O que está implícito, na minha opinião, é algo que tem a ver com a mensagem do Papa Francisco na sua globalidade: temos que mudar a economia, temos que mudar a sociedade, mas temos, também, que mudar os nossos hábitos de vida, nomeadamente formas de olhar para o consumismo excessivo, para a delapidação dos recursos naturais e aí, claramente, os jovens têm uma preocupação acrescida quanto ao futuro da sociedade e do próprio planeta.

Eu olho para os jovens e vejo uma predisposição para mais facilmente abdicarem de coisas que eram dadas como certas e, portanto, essa necessidade de mudar hábitos de consumo, de começar a olhar para o planeta de uma forma mais global como a nossa casa comum, possivelmente será mais fácil de implementar começando pelos jovens.

Sou professor universitário e ensino economia há mais de 30 anos e cada vez que olho para os meus jovens alunos, não deixo de pensar que também ao nível do ensino da economia é preciso que algo mude.

Se quisermos mudar mentalidades, se quisermos mudar o paradigma de uma economia ao serviço do lucro que serve apenas alguns, temos que olhar para os nossos jovens alunos e dizer-lhes que a economia é, como foi desde o início, cuidar da casa comum.

Cuidar da casa comum implica questões de eficiência, mas implica também questões éticas e de justiça social. Enquanto houver fome, injustiça e pobreza não podemos estar descansados, a nossa inquietação é necessária, mas uma inquietação que sirva para mudar as coisas.

O desafio do Papa ao convocar o Encontro de Assis acaba por vir ao encontro não só da reflexão, mas acima de tudo do coração de muita gente, que há muito acha que este modelo de sociedade se esgotou, na medida em que estamos a exaurir os recursos que estão à nossa disposição.

Precisamos de um modelo económico novo, de uma sociedade nova, onde os valores da justiça e da equidade tenham um peso acrescido.

Quando considero que a mensagem do Papa vai muito para além da Igreja Católica é por que ele conseguiu corporizar algo que é uma preocupação de todos aqueles que ambicionam um desenvolvimento socioeconómico sustentado e inclusivo, que preserve a casa comum que todos hoje habitamos e onde as novas gerações irão habitar no futuro.

3 comentários em “Economia de Francisco: O que há de novo na doutrina social da igreja?”

  1. A economia de Francisco é muito valiosa do ponto de vista de um cristão, mas o mundo contemporâneo é minoritariamente cristão. Além disso, a ideia de que os jovens são a solução para realizar essa economia é muito frágil porque a maioria dos jovens é indiferente ao outro, vive para o prazer e para o ter. Por outro lado, o Papa hoje não está na Idade Média e, assim, não tem um poder espiritual e temporal a sobrepor-se ao poder temporal, ou seja, aos estados laicos em que minorias de cristãos se movem com múltiplas dificuldades de ter alguma audiência nas áreas económicas, sociais ou sequer culturais…

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  2. É uma visão perfeitamente sustentável e que, provavelmente, tem adesão à realidade, no entanto, a generalização da ideia de que os jovens são indiferentes ao outro, vivem para o prazer e para o ter é perigosa e não corresponde necessariamente à realidade. Talvez essa afirmação se aplique com mais verdade aos adultos do que aos jovens.

    Os cristãos são uma minoria, mas são chamados a ser sal e fermento para em conjunto com todas as mulheres e homens de boa vontade projectarem um mundo novo mais justo e mais fraterno – o Reino de Deus.

    O Papa não está, nem quer estar, na Idade Média, mas é talvez o único leader a nível mundial com uma visão de futuro para a humanidade, a sua mensagem incomoda, desinstala e dirige-se a todos, não apenas aos cristãos católicos.
    A sua última encíclica Fratelli Tutti é uma lufada de ar fresco face ao calculismo e jogos de interesses que dominam a vida política mundial.

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    • 1. Diz que a minha afirmação “os jovens são indiferentes ao outro, vivem para o prazer e para o ter” é “perigosa”. Não sei que perigo pode comportar, como escreve, se é uma ideia que corresponde ao mundo contemporâneo que vemos retratado nos seus interesses por todos os meios de comunicação social, os media. Estamos também em contacto com esta realidade nas ruas por onde não podemos deixar de passar todos os dias. Só uma pessoa que vive fora deste circuito mundano, a que já dificilmente escapamos, pode achar uma afirmação “perigosa”. Infelizmente, os interesses maiores da juventude que frequenta as escolas básicas, secundárias e superiores, que cresceu numa sociedade consumista-materialista – desde as Américas à Europa e em parte à Ásia – não são de ordem espiritual. Isto é a realidade em que vivemos, ainda que alguns de nós não pactuemos com ela nem a acalentemos, antes a combatamos.
      Quanto a que “se aplique mais aos adultos”, isso é mesmo muito discutível, pois as discotecas, os bares nocturnos e os festivais rock são maioritariamente frequentados por jovens.

      2. “O Papa não está, nem quer estar, na Idade Média, mas é talvez o único leader a nível mundial com uma visão de futuro para a humanidade”, escreve na sua resposta ao meu comentário. O que eu escrevi e subscrevo (reescrevo) de novo. Quando afirmo que o “Papa hoje não está na Idade Média”, quero dizer que já não tem poder temporal/político sobre os estados soberanos, como tinha nessa época histórica. Nessa conjuntura política internacional medieval (por exemplo, no tempo de S. Francisco de Assis), o Papa usufruía de mais do que influência, exercia mesmo soberania sobre os reis de cada país. Com a vitória crescente, ao longo de vários séculos, do laicismo/nacionalismo nos estados, o poder papal foi-se apagando cada vez mais. Hoje, o poder do Papa é de ordem espiritual e não consegue, mesmo com as viagens inter-continentais, as Encíclicas e as Cartas Apostólicas, sobrepor-se ao poder temporal dos estados laicos (nestes, as minorias cristãs movem-se com múltiplas dificuldades e a audiência nas áreas económicas, sociais ou mesmo culturais é mínima). Isto é dramático, mas é verdade, nada disto é uma invenção ou um visionamento deturpado. Penso que o Papa Francisco está convencido de ter um poder executável nos estados através dos jovens, o que é talvez devido a estar mal informado pelos seus conselheiros mais directos.

      Teresa Ferrer Passos

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