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O segredo para viver

CONFIAR, PARTIR

Texto de Gilberto Borghi e Chiara Gatti

Henrique pensou: “E se o professor tivesse razão, quando me disse, naquela manhã de neve, que para ter amigos basta decidir arriscar?”

Quando Henrique frequentava o décimo segundo ano da escola secundária, numa fria manhã de janeiro, não foi fácil chegar à escola, devido a uma grande queda de neve, na noite anterior.

“Olá, professor, estou sozinho”, disse, enquanto dava as boas-vindas ao professor, sentado na sua carteira no meio da sala de aula, com uma expressão entre o divertido e o aborrecido.

“Mas quando viste que estavas sozinho – respondeu o professor – não te passou pela cabeça ligar para casa para te virem buscar?”

Normalmente, Henrique, quando estava na sala de aula, ficava muito quieto e silencioso, mas, desta vez, surpreendentemente, abriu conversa, talvez favorecido pela situação em que se encontrava: “Infelizmente, professor, não há ninguém em casa: a minha mãe trabalha o dia todo e o meu pai vive numa outra cidade”.

“Pois é: os teus estão separados?”

“Sim, mas para mim isso melhorou a situação! Quando meu pai estava em casa era uma briga contínua entre ele e a mãe, todos os dias. Agora, pelo menos, o clima está mais calmo. Antes, eu sentia-me… sei lá?… como se ninguém se interessasse por mim. Agora, quando a minha mãe regressa, há paz e sossego, encontro-me com os amigos no WhatsApp… e ouço música!”. O professor ouvia, mas não parecia satisfeito com aquela conversa diferente do que estava à espera de ouvir.

“Mas está tudo bem contigo? Não gostas de sair e conviver com os amigos, ter uma namorada?”. Reconhecia que estava a pressionar, ultrapassando, talvez, os limites do respeito por aquele rapaz que, até ao dia anterior, era apenas um entre muitos.

“Mah! Às vezes, gostaria. Mas é melhor não arriscar”.

O professor, então, insistiu: “E quando te sentes sozinho, como é que lidas com isso?”

“Não sei, Prof.: aguento-me. Viajo pela Net e, quando me aborreço, jogo um vídeo game. Ah! E, às vezes, sinto vontade de rezar!?”

“Não me digas: estás a brincar comigo ou falas a sério?”

“Não, Prof., estou a falar a sério. Às vezes sinto mesmo vontade de rezar, porque isso faz-me sentir menos só, é um sentimento estranho”.

“Ah, e o que é que sentes? Como ficas quando rezas?”

“Mah! Às vezes, parece-me mesmo não estar sozinho: é como se alguém me levasse a sério, como sou, aceitando-me assim … mesmo quando faço asneira”.

“Muito interessante o que me dizes, Henrique, mas acho que procuras algo mais, que gostarias de ter e estás a fazer por isso. Penso que estás com vontade de tentar, embora isso te assuste um pouco”.

“Tentar o que, Prof.?”

“Viver, Henrique; ter amigos, ser aquilo que és…!”.

A conversa terminou abruptamente assim, com um sorriso enigmático por parte do Henrique. Entretanto, os dias voltaram ao habitual, até que chegou o inesperado confinamento, com fecho das escolas e a mãe em casa, que agora trabalhava à distância. Começou assim uma nova maneira de “ir às aulas”, muitas vezes de pijama e no isolamento do quarto.

No início, o Henrique achava o máximo: não ter que se esforçar todas as manhãs para socializar com os companheiros e não ter que enfrentar os outros pessoalmente. Mas as semanas sucederam-se até ao final da escola sem aulas presenciais. A vida em casa, sozinho com a mãe, tornava-se meio chata. É verdade, ainda tinha o WhatsApp para trocar piadas, partilhar vídeos, smilies… até que uma noite, depois de um jantar rápido, deu por si no quarto a olhar para o ecrã desligado do computador.

E uma voz surgiu dentro de si: “Isto já não chega para mim, já não consigo viver assim! Quero um amigo de verdade, mesmo que seja no WhatsApp!”. E pensou no Marcos, o último colega de carteira: ele também adorava o basquete, tocava baixo num grupo musical, mas não sabia muito mais sobre ele. Isso, porém, era mais que suficiente para o achar simpático; todavia, durante as aulas nunca foi capaz de lhe falar sobre outras coisas. Agora, durante o confinamento, no bate-papo da turma, Henrique lia sempre primeiro as suas intervenções, que lhe pareciam diferentes, menos agressivas, não publicadas para se exibir. Foi assim que, de repente, naquela noite, lhe apareceu na frente o rosto de Marco, como se ele estivesse lá apenas porque pensava nisso e queria conversar com ele e dizer-lhe como se sentia só naquele momento e como gostaria de aprender a tocar viola baixo, como ele.

Então, Henrique inicia um chat com “Marcos -III C” e escreveu de rompante: “Olá Marcos, como estás? Desculpa, queria dar-te um abraço. Nunca cheguei a dizer-te, mas gosto a sério da forma como tocas baixo: és o máximo!”.

Com o coração a bater, Henrique esperou pela resposta. Felizmente, alguns segundos depois, apareceu a resposta do Marcos: “Olá, Henri, tu gostas mesmo de tocar baixo? Então, quando nos encontrarmos de novo, vou dar-te umas lições; entretanto, ouve esta cover: é fantástica!”.

Henrique ficou embasbacado: será que o seu professor tinha razão quando, naquela manhã de neve, lhe dizia que basta decidir arriscar?

Provavelmente, Deus com quem falava cada vez mais, também estava entusiasmado com aquele chat. Arriscar? Nunca o tinha feito antes! Seria esse o segredo para viver melhor?

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