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Desatar as amarras

Texto: Fabio Scarsato – Ilustração: Luca Salvagno

É útil e, até, necessário medir os prós e os contras. Avaliam-se diligente e repetidamente todas as razões válidas para decidir ficar sossegados onde se está e não se exclui o peso da própria preguiça.

Revê-se o filme da própria vida em câmara lenta, quadro a quadro, tentando encontrar um fio condutor ou, pelo menos, algo de válido para decidir. Os mais supersticiosos podem consultar os horóscopos e as conjunções astrais ou examinar o fundo do copo depois de mais um trago inconclusivo. São bem-vindos os conselhos dos amigos ou de especialistas. A paixão e o sonho são também convocados. Mas tudo isso, para António, que acabou de mudar de hábito e de nome, não é suficiente.

É preciso um bom motivo
para decidir fazer-se ao largo sem olhar para trás.
O que moveu António?
Levar o Evangelho a todos, pelo mundo fora.

“É preciso um bom motivo”, tinha concluído o alcoólico da história de Victor Frankl, o psicólogo que sobreviveu ao campo de concentração “para deixar de beber e eu não vejo motivo nenhum”.

Eis a questão: é realmente necessário um bom motivo para decidir, de vez, levantar as amarras, ultrapassar as zonas de conforto, confiar e partir: zarpar definitivamente, sem olhar para trás, a não ser um olhar fugaz de despedida ao lugar que, provavelmente, nunca mais veremos; caso contrário, corre-se o sério risco de sermos transformados em estátua de sal, como aconteceu, na Bíblia, à esposa de Lot quando fugia de Sodoma em chamas.

É necessária, portanto, uma forte motivação para superar resistências, dúvidas e dificuldades, algumas objetivas e reais, e, ao mesmo tempo, acautelar uma reserva de energia suficiente para o arranque.

Se os nossos olhos, ao perscrutar o horizonte, vislumbrarem um destino válido, então estaremos dispostos a enfrentar com mais serenidade o mar aberto, com os seus perigos e os monstros que o habitam nos abismos. Se a ocasião faz o ladrão, não poderia, também, por outro lado, torná-lo virtuoso?

António passou muitos anos no mosteiro debruçando-se sobre a Palavra de Deus, estudando os textos sagrados e os livros daqueles que, já antes dele, os tinham aprofundado. António dispôs de tempo e de espaço para refletir.

O “eu”
é um obstáculo
a outras
possibilidades.

Agora, a missão de levar a palavra do Evangelho aos incrédulos, arriscando a própria vida, saltando para a linha da frente, torna-se o objetivo da sua escolha de vida religiosa franciscana. Eis a “boa motivação” que ele precisava. Porque não é possível ficar eternamente à margem das coisas. É necessário ir, literalmente, pela rua, frequentar as praças e os lugares onde as pessoas passam, se encontram e vivem: o acreditar enraíza-se na vida concreta do homem!

Para António, a missão, identificada concretamente com a pregação em Marrocos entre os muçulmanos, sem se importar, por agora, se era isso o que Deus tinha em mente para ele, é o antídoto contra a rotina de nos centrarmos em nós mesmos, que acaba por nos privar do resto do mundo e dos outros. O “eu” é um obstáculo a outras possibilidades.

Além disso, a missão não é apenas “farinha do mesmo saco”. De facto, funciona como uma “boa razão” justamente porque vem de fora. É um chamamento, uma oferta, que pode agradar mais ou menos aos nossos gostos e realizar, no todo ou em parte, os nossos projetos, mas sua força está noutro lugar. Está à nossa frente, não atrás. Chega de repente, peremptória, sem aviso prévio. E, sobretudo, não vem com livro de instruções.

Por isso, António pode confiar, pode dizer o seu “sim”. Agora, trata-se de um assunto sério, amadurecido; é “a necessidade faminta que te chama e não uma mera convicção adolescente” (Pandelis Bukalas).

Foto da Capa: Nos Passos de António 7 – Desatar as amarras e partir para Marrocos, ilustração de Luca Salvagno.

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