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Amar um país (de adoção)

Desde Janeiro que não entrava num avião. Aconteceu de novo agora na última quinzena de agosto.

Quando entro no aeroporto costumo comprar um livro que devoro na viagem de ida e volta. Desta vez o livro já tinha sido recomendado por uma amiga. O que é amar um país. O poder da esperança, de José Tolentino. Não sou português de origem, mas identifico me com quanto o poeta e cardeal português afirmou no dia de Camões e das comunidades portuguesas.

Mergulhei mesmo com o coração nas ondas das suas palavras pronunciadas no dia 10 de Junho passado no claustro do mosteiro dos Jerónimos. Uma síntese para mim dos 26 anos de vida em Portugal.

Irrita me bastante ouvir os meus conterrâneos definir o que é Portugal e quem é o português depois de uma viagem turística low cost, visitando Lisboa, Porto ou Algarve, com um pulo, talvez, até Fátima e Nazaré.

Facilmente usamos lugares comuns para simplificar, mas perdemos a beleza e a profundidade de uma cultura. Assim como achava superficial a minha resposta à pergunta das pessoas nos primeiros tempos de vida em Portugal: gosta de Lisboa, gosta de Viseu, gosta de Coimbra? Já sabia que não bastava um sim.

Para conhecer e gostar é preciso mergulhar na cultura de um povo; descodificar valores e significados na língua que vamos aprendendo; contemplar tradições e relações na comida e rituais que vamos saboreando. Tudo isto requer tempo e respeito.

Descobri, por exemplo, que as terras do interior, considerado mais atrasado e pobre em comparação com as grandes cidades e o litoral, são as mais ricas em património cultural e “mediador de vida para as novas gerações” (Tolentino).

Amo a minha terra e a minha gente não só pelas glórias do passado e do presente, mas também pelas suas fragilidades que são nascente de compaixão e solidariedade. Amo o país em que vivo porque o vou descobrindo como a terra em que as minhas raízes encontram um novo humus.

Talvez seja esta a razão pela qual no avião que me leva de Lisboa a Veneza e vice-versa, sempre me sinto numa viagem de ida: à terra natal e à terra de adoção, ambas unificadas porque reconciliadas.

Afinal a experiência de amar um país faz-nos redescobrir laços de fraternidade e de família que se estendem numa geografia sem limites, porque, no fundo, é a geografia do coração de Deus.


Foto da capa: Piodão, aldeia típica do centro interior de Portugal, praia fluvial de Foz de Égua. Foto MSA 2015.

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