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Há esperança: São Maximiliano Kolbe, 14 de agosto

Os prisioneiros passaram a noite perfilados ao sereno. Aqui e acolá alguém tombava ao chão, vencido pela inanição.

1941, campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. A fuga de prisioneiros era um fato raro, mas quando acontecia havia um enorme rebuliço no campo todo. Os soldados da elite, SS, carrascos impiedosos, não suportavam e ideia de alguém ousar rebelar-se e desafiar a lei de terror do campo. A fuga do inferno era sentida como ofensa e desafio de um ser inferior ao poder omnipotente. Como podia um verme se rebelar, pensar, ter vontade? Se um prisioneiro fugisse, se alguém ousasse desafiar os deuses, a vingança não podia esperar e vinha a compensação: dez prisioneiros do bloco ao qual pertencia o fugitivo deviam morrer de inanição. A morte dos dez compensava a fuga.

As horas intermináveis da espera foram interrompidas quando o chefe do campo apareceu acompanhado por dois soldados. Um deles segurava papel e caneta. Devagar, com um sorriso sarcástico, o comandante começou a andar entre as fileiras dos prisioneiros. Senhor da vida e da morte, fitava os prisioneiros, um a um. De vez em quando levantava o chicote. Era o sinal, e o soldado anotava zelosamente o número do prisioneiro. No fim, satisfeito, o coronel subiu o pequeno estrado de onde costumava contemplar os ‘seus’ prisioneiros. O soldado gritou os números marcados, e veio o anúncio: “O prisioneiro que fugiu não foi recapturado. Vocês conhecem a lei: no lugar dele, dez de vocês”.

Todos continuavam de cabeça baixa, olhando de soslaio as dez vítimas que eram retiradas das fileiras. De repente, gritos lancinantes romperam o silêncio: “Ai, minha mulher, os meus filhos! Nunca mais os verei!”. E aconteceu o que nunca ocorrera no campo: arrastando os tamancos, um prisioneiro, o 16670, avançou, lentamente, em direção ao comandante. A mão no coldre, pronto a puxar o revolver, este gritou-lhe: “O que você quer?”. O prisioneiro, calmamente, com palavras tranquilas, pedia para morrer no lugar do pai de família. Dizia-se velho, doente, inútil; melhor seria ele morrer no lugar daquele pai que, talvez, sobrevivesse.

– Quem é você? – perguntou, incrédulo, o comandante.

– Um padre católico. Peço para morrer em seu lugar – e indicava o companheiro de desventura que, atónito, parou de chorar.

Dias depois, os SS que precisavam da cela da morte para outras vítimas eliminaram os três que ainda sobreviviam com uma injeção de ácido fénico na veia. Um dos três era Maximiliano Kolbe, o padre polonês que escolheu morrer no lugar do companheiro. Era o dia 14 de agosto de 1941. A Igreja Católica o declarou santo, ‘mártir da caridade’, exemplo para a humanidade.

Os campos de concentração são motivo suficiente para descrer da humanidade. Pessoas como Maximiliano Kolbe dão motivo para – apesar de tudo – ainda ter esperança.     

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