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Como, onde, quando, se e porquê

Gilberto Borghi e Chiara Gatti

As palavras de uma canção sobre a recente pandemia apontam um caminho que prevê também a possibilidade radical de falhar, de morrer, mas não de fingir.

E os jovens? Alguém disse que pertencem aos grandes esquecidos do corona vírus. Um deles, um jovem cantor e compositor, Francesco D’Angelo, na canção Estes dias torna-se o porta-voz corajoso da sua geração:

Estes dias tão diferentes, tão absurdos e estranhos
entraram de improviso na nossa vida
sem pedir licença, sem aviso, como um ladrão de noite,
vieram perturbar as nossas certezas e seguranças,
roubar a alegria do convívio, de um copo,
de uma saída com os amigos, onde vamos esta noite?
Nestes dias estamos todos em prisão domiciliária,
desnudados dos nossos sentimentos:
Ei!… Que desculpa tens agora?

A perceção que transparece é a de um roubo da vida, vida que os jovens normalmente vivem fora de casa, na sua forma de se encontrarem, nas suas relações significativas de amizades e laços sentimentais. De repente, este inimigo invisível roubou-nos a certeza de um copo à noite, de um jogo de matraquilhos com os amigos, de uma saída em que perguntamos “onde vamos, hoje?”

E assim estes estranhos “dias de confinamento” levaram os jovens a sentirem-se nus e a ter de refletir no estranho berço familiar para onde foram enxotados… Mas é preciso saltar fora desse berço, verdadeiro ou imaginário, desnudados dos velhos e seguros sentimentos para o despertar inseguro de novos sentimentos, próprios de quem está a crescer e a libertar-se. São muitas as emoções e quantas não ficam sufocadas.

E a canção continua:

Estes dias curiosos põem-nos em crise,
levantam perguntas sobre o sentido das coisas,
o sentido sobre o que está certo e o que está errado.
Estes dias, como a neve quando se derrete,
permitem-nos ver o que estava escondido
nem sempre belo de se ver.
Estes dias que nos tornam iguais: “biológica democracia”
não importa se és rico, famoso, importante, poderoso
nada importa!
São dias para esquecer ou lembrar
depende do nosso olhar e do nosso pensar
no “como”, no “onde”, no “se”
e sobretudo no “porquê”.

São dias feitos de propósito para “nos colocar em crise”, canta Francesco D’Angelo, para nos perguntarmos o significado das coisas que devem ser procuradas em palavras simples, mas fundantes: “como”, “onde”, “quando”, “se” e, sobretudo, “porquê”. É preciso encontrar o fio da meada de uma narrativa, a narrativa que flui sobre os porquês da própria vida, que mede as alternativas, que procura modalidades passadas, lugares e tempos vividos ou sonhados. Então, surge a imagem de uma paisagem coberta de neve branca e imaculada, que ao derreter, põe a nu as imperfeições e o lixo acumulado. Assim é a vida de cada um de nós, mas sobretudo do jovem que ainda não sabe explicar certos nós do seu passado, mas descobre que também aí deve haver um sentido e quer mergulhar nele para se tornar cada vez mais ele próprio, protagonista da sua história. E como em qualquer história verdadeira, o final feliz não está garantido, porque nestes dias de “democracia biológica”, em que todos somos igualmente confrontados com nós mesmos, não é um dado adquirido que tenhamos encontrado um sentido para esta histária, por isso há que continuar à procura, aberto a tudo.

Estes dias que nos revelam quem somos
que significado temos
se é que a vida tem algum sentido…
E uma grande pergunta ecoa ao coração destes jovens, homens de amanhã:
Será a terra mãe ou escrava,
vale mais o dinheiro ou a verdade?
A canção não dá respostas, mas afirma:
Quão errado é dar tudo por garantido!

Juntamente com Greta Thunberg e todos os jovens do movimento Fridays for future, pergunta sobre o caminho em que assentará o amanhã, pergunta se a lição de uma natureza, que se revolta violentamente contra tantas violências sofridas, foi realmente entendida. E coloca-se de novo a questão do poeta Leopardi e de cada homem:
A Natureza é Mãe ou Madrasta?

Se, de facto, é escrava das leis humanas do dinheiro e do poder, um dia transformar-se-á inevitalmente numa madrasta vingativa. Ou, então, lembremos o que São Francisco escreveu na Cântico das Criaturas e que o psicoterapeuta Frei Giovanni Salonia tão bem sublinha:

E se aquele que chamou as criaturas de “irmão”, “irmã” tiver razão? Ele próprio nos advertiu: a mãe terra nos sustenta e nos “governa”. Alimenta-nos, mas temos de lhe obedecer. Devemos obedecer à Terra. Este pode ser um tempo de aprendizagem.

Então, uma maravilhosa confirmação desponta nas rimas desta canção de um jovem que fala para outros jovens:

Saibamos reagir!
Nestes dias em que a vida defronta a morte.
E a morte defronta a vida:
será que tudo acaba, ou não?

Há um último e grande salto que o crescimento te obriga a fazer, graças aos tempos de crise que aceleram este crescimento, quando vividos em plenitude: é o salto para aprender a lidar com a possibilidade radical do fracasso; fomos todos confrontados sem meias tintas com a morte, algo que contrasta com a natural despreocupação dos jovens.

E uma vez guardada a máscara
voltaremos a colocar a máscara de sempre?

Isso, os jovens não vão tolerar.


Foto da capa: Fotomontagem MSA: coronavirus e foto de Gayatri Malhotra | Unsplash

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