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1. Das Avé Marias à neurociência

Adelaide Miranda e Rui Pedro Vasconcelos

Os verbos da salvação: MEDITAR
1. Das Avé Marias à neurociência

Um verbo que sempre se fez presente na tradição da Igreja e, nas últimas décadas, também na investigação científica e nas revistas da moda.
E, ao mesmo tempo, um verbo que nos parece distante, reservado a uns poucos.
Afinal, meditar não faz parte do dia-a-dia do cristão?

Rezando o terço. Foto: Daniele Levis Pelusi | Unsplash.
Rezando o terço. Foto: Daniele Levis Pelusi | Unsplash.

No início havia o Ser humano…

… E o ser humano, a par do pensamento rápido, de ação-reação que lhe permite sobreviver num ambiente hostil, desenvolveu um pensamento lento, próprio de um cérebro em evolução.

Uns milénios à frente cá estamos nós e, por curiosidade, fui tentar perceber como tem evoluído o interesse da meditação como objeto de estudo científico. Para isso, usei uma base de dados que se chama PubMed. Esta base de dados, desenvolvida e mantida pelo Centro Nacional de Informação Biotecnológica dos EUA, contém mais de 30 milhões de citações e resumos de literatura científica nas áreas biomédica e da saúde. Escrevi “meditação”. O resultado encontra-se no gráfico à data de 27 de Maio. São 7000 artigos publicados.

Centro Nacional de Informação Biotecnológica dos EUA: resultados da pesquisa sobre "meditação". São mais de 7000 artigos a 27 de maio de 2020.
Centro Nacional de Informação Biotecnológica dos EUA: resultados da pesquisa sobre “meditação”.
São mais de 7000 artigos a 27 de maio de 2020.

É todo um corpo de conhecimento que se considera ainda na sua fase de infância. É interessante ver que o estudo científico surge na década de 70, continua timidamente nas duas décadas seguintes e cresce exponencialmente neste milénio. Tal não será alheio, por um lado, ao desenvolvimento das neurociências e das técnicas de imagiologia médicas, e, por outro lado, ao interesse geral relativo às práticas de meditação.

Em termos científicos, o que é a meditação?

A meditação pode ser definida como uma forma mental de treino cujo objetivo é melhorar as capacidades psicológicas fundamentais de um individuo, como a atenção e a autorregulação emocional. A meditação engloba uma família de práticas que incluem a meditação mindfulness, meditação com mantras, yoga, tai chi e chi gong.

Essa coisa da meditação faz bem ao quê?

Descobriu-se que meditar influencia o ritmo cardíaco e respiratório. E recitar, em particular, estabiliza o ritmo respiratório. Um estudo de 2001, efetuado pelo departamento de Medicina Interna de Pavia, propôs-se avaliar os efeitos da oração do terço (Avé Maria) e da recitação de mantras de Yoga nos ritmos cardiovasculares autónomos. Os resultados mostraram que em ambas as fórmulas os movimentos síncronos aumentam de forma impressionante nos ritmos cardiovasculares quando recitadas seis vezes por minuto.

Trocado por miúdos, fórmulas rítmicas que envolvem ciclos respiratórios numa relação de 6 por minuto induzem efeitos fisiológicos favoráveis.

Em 2017, um estudo liderado pelo mesmo autor tinha como ponto de partida as dificuldades associadas a esta área de investigação. Por exemplo, a respiração é muitas vezes direta ou indiretamente alterada durante a prática de meditação. Como é que se estudam e avaliam os efeitos da meditação na pressão arterial e na oxigenação dos tecidos se a respiração pode ser afetada?

Pela primeira vez, mostrou-se que a prática da meditação a curto prazo e de forma continuada desencadeia modificações importantes do ponto vista clínico no sistema cardiovascular e respiratório a curto e longo prazo nas pessoas que meditam. Trocado por miúdos, respira-se melhor e o coração agradece.

Meditação mindfulness

Nas últimas duas décadas, de entre estas práticas, a meditação mindfulness, frequentemente descrita como a atenção, sem qualquer julgamento, às experiências do momento presente, foi a que recebeu mais atenção na área da neurociência. Mais uma palavra de origem anglo-saxónica que nos entrou pela vida dentro. Até livrinhos de colorir para entreter os graúdos se inventaram. Mindfulness que dizer “atenção plena”.

Em termos práticos significa desligar o telemóvel e as milhentas apps que nos interrompem sem permissão, quando se está a lavar a loiça (no exemplo clássico do monge budista Thich Nhat Hanh), pondo toda a atenção no que estamos a fazer ou, como ouvi a um monge de tradição cristã, “mondar cenouras é uma excelente forma de meditar”.

Uma coisa de cada vez, totalmente concentrados no que estamos a fazer. É importante dizer que a investigação da meditação mindfulness enfrenta muitos desafios ao nível dos métodos que se usam, o que limita a interpretação dos resultados. O tema torna-se mais controverso quando se faz a translação destes estudos para o tratamento de doenças do foro mental. Há evidências crescentes que há alterações nas propriedades estruturais e funcionais do cérebro com a prática da meditação.

Representação esquemática das regiões cerebrais envolvidas na meditação mindfulness.
Representação esquemática das regiões cerebrais envolvidas na meditação mindfulness.

Na imagem esquemática do cérebro estão representadas as regiões cerebrais envolvidas na meditação mindfulness: o córtex cingulado anterior e o corpo estriado no controlo da atenção, as múltiplas regiões pré-frontais, as regiões límbicas e o corpo estriado na regulação emocional, e a ínsula, o córtex pré-frontal medial, o córtex cingulado posterior e o pré-cúneo na autoconsciência.

Ainda estão por descobrir quais são os mecanismos que suportam estas alterações. É possível que seja por crescimento dendrítico, sinaptogénese, mielinogénese ou até neurogénese adulta. Ou ainda, é possível que a meditação mindfulness afete a regulação do sistema autónomo e a atividade do sistema imunitário, o que leva a uma preservação neuronal, recuperação ou inibição da apoptose – a morte celular programada. Até ao momento sabe-se que as técnicas de mindfulness são muito eficientes na redução do stress e que é possível que tal redução possa mediar alterações no cérebro. Quem sabe, até uma combinação das duas!

Kim En Joong, Sem título, 2000, Óleo sobre tela, Coleção Museu Irlandês de Arte Moderna, Doação, IBRC, 2011
Kim En Joong, Sem título, 2000, Óleo sobre tela, Coleção Museu Irlandês de Arte Moderna, Doação, IBRC, 2011

E isso da meditação não é só para cientistas estudarem ou para aqueles que passam o dia todo a rezar?

Se tudo isto parecer muito afastado do nosso dia-a-dia, pensemos, por exemplo, na oração do terço. Lembro-me de nas férias, ver a minha avó materna rezar o terço, do toque do sino “às avé-marias”, de acender a luz do Santíssimo, ou ainda de ao final da tarde na aldeia do meu pai juntarem-se umas poucas de pessoas na casa de outra para rezarem o terço ao som da Renascença. Certamente que as minhas memórias fazem eco na de muitas outras… e cá para os lados científicos, certamente, ainda há muito a descobrir.


Foto da capa: Deserto-Saudade, Enrique Mirones, Mosteiro de Santa Maria de Sobrado, Galiza

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