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Santo António e os seus Sermões

Com a devida vénia e agradecimento, publicamos estes apontamentos de Frei Giovanni Voltan, OFM Conv., acerca dos Sermões, nos quais Santo António revela toda a sua sabedoria e ânimo pastoral.

Frei António, a quem Deus deu a inteligência das Sagradas Escrituras e o dom de pregar Cristo ao mundo inteiro com palavras mais doces que o mel.

1Cel XVIII; FF 407

Passada a festa do Santo e dos 800 anos da sua entrada na Ordem dos Frades Menores, quero esboçar algumas linhas sobre Santo António à luz da sua única obra que chegou até nós: os Sermões dominicais e festivos. Neles encontramos o rosto e toda a existência de António: cónego regrante de Santo Agostinho, frade menor, mestre e pregador.

Como premissa, temos uma carta preciosa que Francisco de Assis escreve a António – um feliz encontro entre a intuição de António e o discernimento de Francisco – chamando-o de “meu bispo”: na prática, trata-se da autorização do Poverello de Assis a António para que este se dedique ao ensino da teologia aos frades, constituindo o Estudo de Bolonha.

Os Sermões recolhem os apontamentos das aulas dadas aos confrades preparando-os para a pregação.

No prólogo, o próprio António define os dois propósitos que o levaram a escrever tão extenso comentário sobre a Palavra de Deus: “a edificação das almas e a satisfação do leitor e do ouvinte”.

António escreve em tempos muito restritos, obtidos sabe-se lá como e quando, dado o seu generoso serviço itinerante em apenas dez anos de vida de frade menor! O frade lusitano, “vencido pela insistência e pelo amor dos irmãos”, coloca nas mãos dos confrades uma admirável coleção de materiais (especialmente os comentários aos evangelhos dominicais e festivos) capaz de alcançar as várias categorias de pessoas que os frades haveriam de encontrar.

O pregador “pregue”, antes de mais, com o seu testemunho

António não esquece a preocupação de Francisco: o pregador “pregue”, antes de mais, com o seu testemunho, viva o que anuncia, não se meta em brigas ou disputas, mas submeta-se a toda criatura. Seja irmão menor de todos.

Uma novidade dos Sermões consiste no modo de conceber a evangelização: António, além do conteúdo, tem em conta os protagonistas, ou seja, os pregadores e os fiéis que precisam ser alcançados pela Palavra da salvação.

Deste modo não se trata de uma obra apenas doutrinária ou teológica, mas, como o atestam as orações dirigidas ao Senhor Jesus, no final de cada comentário, António pretende acender em cada um uma espiritualidade capaz de se elevar até à contemplação.

O objetivo da obra é “partilhar” a Palavra com sabedoria, torná-la compreensível e útil para a vida, convertendo o coração para uma vida evangélica. Levar para Jesus!

Não é fácil penetrar nos Sermões, nos quais António coloca toda a sua formação anterior ao serviço da tarefa evangelizadora assumida pela família franciscana: é preciso conhecer o contexto cultural, teológico e eclesial da época. É preciso alguém que nos “guie” para entendermos como os comentários (as “glosas”) da época eram aplicados às Escrituras, em que ponto estávamos na caminhada teológica e na compreensão bíblica (em sentido literal, alegórico, moral e anagógico).

Enfim, precisamos de um “esquema básico”, não esquecendo também a forma original como António trata e interpreta as Escrituras. O próprio Santo – proclamado Doutor Evangélico (Pio XII, 16 de janeiro de 1946) – atua como um “mestre”, indicando em cada comentário o que pretende tratar e acentuando o sentido moral da sua obra, porque, afinal, é a Palavra acolhida que transforma a consciência e se concretiza na vida.

Escutemos António: “As escrituras são a terra fértil que produz primeiro a haste, depois a espiga e finalmente o grão maduro”.

Nesta densa frase do prólogo que segue a sugestão do livro da criação, encontramos três sentidos do texto sagrado (alegórico, moral e anagógico), conjugados com as três virtudes teologais (haste – sentido alegórico ligado à fé; espiga – sentido moral, caridade; grão maduro – sentido anagógico, esperança). Quanta riqueza!

É preciso coragem, mas com um pouco de paciência e leitura “assistida”, podemos, também nós, penetrar no livro de Sermões, de modo que o mesmo não passe de um belo exemplar na estante da biblioteca pessoal ou conventual.

Por fim, destacamos a semelhança dos tempos de Francisco e António com os nossos, no que diz respeito à pregação e à sua fundamental preparação. A primeira “fraternidade” encarregou-se desde cedo, – de forma testemunhal, “dentro” e não “contra” a Igreja – conforme o pedido do Concílio de Latrão IV (1215).

O concílio de Latrão propunha a reforma de todo o tecido eclesial a partir da retoma da pregação pelos Bispos e pelos colaboradores por eles designados.

A perigosa “concorrência” era constituída pelo aumento dos movimentos heréticos, muito mais ativos e capazes de explicar na língua vernácula as Escrituras, captando a necessidade das pessoas que ansiavam por uma renovação evangélica. Uma vitória fácil para os hereges, pois o clero não brilhava nos bons costumes, nem estava preparado para a pregação.

Quanto a nós, vivemos no período do pós-Concilio, da “nova evangelização” (cf. João Paulo II), da necessidade – mais prioritária do que nunca – de saber comunicar, com a linguagem mais adequada, a alegria do Evangelho (cf. Papa Francisco: Evangelii gaudium). São Francisco exorta-nos a fazê-lo com a nossa própria vida secundum sancti Evangelii; Santo António, na mesma senda, pede que a boa preparação seja um ato de amor ao Senhor e às pessoas, bem como uma ocasião para a conversão pessoal e comunitária. E, depois, oferecer a Palavra com estilo franciscano: com cordialidade humilde, sem discursos “pomposos”, descendo à vida concreta (vícios e virtudes), certificando tudo com uma vida de verdadeiro irmão menor e alegre (cf. Regra bulada, III). Na aparição de Arles, Francisco “confirma” António, enquanto este prega aos seus confrades um sermão sobre a cruz (o acontecimento é relatado mais do que uma vez nas fontes franciscanas).

Uma última palavra: a habilidade do pregador é passar do estudo para as pessoas concretas. Assim, gostamos de pensar em António (Arca do Testamento, conforme a expressão de Gregório IX), capaz de passar “do livro para a multidão” (cf. Do livro para a multidão. Antonio de Pádua e o franciscanismo medieval, de A. Rigon) e de falar a língua de todos, de ser entendido por todos.

A sua língua incorrupta é para nós um sinal eloquente de quanto cada um de nós, com a pregação por palavras, obras e vida, pode ser um humilde e eficaz ministro da alegria do Evangelho. Sem esquecer a imensa confiança que as pessoas ainda depositam em nós, frades, porque nos consideram próximos deles, os freis /os irmãos do povo.


Foto da capa: Santo António, Doutor Evangélico (sec. XVIII), Convento de São Francisco, Lamego. Atualmente na exposição temporária “De Fernão se fez António”, patente no mosteriro de Santa Cruz de Coimbra, no Jubileu 2020. Foto arquivo MSA.

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