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Quem não dá o salto não é santo

A juventude leva a escolhas radicais, sendo habitada por grandes desejos e paixões. Foi o que aconteceu a António que, aos 25 anos, decidiu morrer mártir.

Certo dia, discípulo perguntou ao mestre: “Meu Pai, qual é o caminho para a perfeição?” O velho monge, com a sabedoria solitária do deserto, feita de visões angélicas e de lutas contra o demónio, respondeu-lhe: “Mas quando é que entenderás que não há um caminho? Pois, o caminho interrompe-se abruptamente e diante de nós abre-se um abismo: então a única solução é saltar! Este é o “caminho”.

António é um jovem que luta para que tudo lhe saia bem, para que a contabilidade do deve e do haver bata certo e a longa e, por vezes difícil, equação existencial apresente um resultado arredondado sem casas decimais.

Como se as metas da nossa vida fossem o resultado óbvio e evidente das nossas previsões e do nosso esforço. Como se “1+1” tivesse que dar sempre “2”, mesmo nos assuntos do Espírito e ainda mais no discernimento vocacional. Por exemplo, não é verdade, como canta o Salmo 125, que podemos ir a chorar, levando a semente para ser lançada e, no regresso, voltarmos com alegria, trazendo nos braços os molhos de espigas, que recolhem os nossos frutos, finalmente alcançados?!

Mas os jovens são assim: basta pouco, desde que seja grandioso, verdadeiro e, pelo menos aparentemente, definitivo e não necessariamente realizável, para os inflamar. As escolhas precipitadas dos 25 anos, são próprias dos 25 anos: quando somos habitados por grandes desejos e ainda maiores paixões.

O poeta Rilke escreveu-o muito bem, numa carta de 14 de abril de 1914:

Pergunto-me muitas vezes se a satisfação tem a ver com o desejo. Sim, se o desejo é fraco é como se bastasse satisfazer apenas uma parte para o resto se tornar autónomo. Mas os desejos podem também ser uma coisa singular, completa e saudável que não precisa de mais nada para crescer, formar-se e completar-se. Às vezes podemos pensar que foi esta a causa da grandeza e da intensidade de uma vida que se desenvolveu com base em grandes desejos que empurravam de dentro para fora, ação após ação, causa após causa, esquecendo que tais desejos foram projetados e transformados, como a água tempestuosa que ao cair, se transforma em obras e simpatia, em coragem ardente.

Sim, estes são os jovens.

E António é, de facto, um destes jovens. A notícia do martírio dos cinco Frades Menores em Marrocos, que chega a Coimbra pouco tempo antes de chegarem as suas relíquias; a radicalidade imprudente do seu testemunho de fé, descurando as consequências futuras; o “agir” deles em contraposição ao seu “saber”; a sua coragem sobre-humana, como verdadeiros super-heróis; o invejável trágico “desfecho” desse evento; tudo isto incendeia o coração e a mente de António. E fá-lo decidir pelo martírio: a paixão dos mártires de Marrocos (passio, em latim, é o relato da morte de um mártir), torna-se literalmente a sua paixão, o seu grande desejo.

Sem “se”, nem “mas”, também ele morrerá pelo Evangelho!

“Deixa o céu em paz, / se decidiste viver / com os olhos fechados” (Michail Kuz’min), mas António quer viver de olhos bem abertos. Ele está disposto, na sua inconsciência juvenil, não só a não deixar o céu em paz, mas a… tentá-lo! Não importa que o martírio procurado a todo o custo e a pretensão absurda de dispor da própria vida, não sejam, de facto, atitudes verdadeiramente franciscanas: a energia, segundo o primeiro princípio da termodinâmica, não se cria nem se destrói, mas transforma-se. Com esta carga de energia pode ousar dar… o salto.


Ilustração de Luca Salvagno

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