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Um tempo oportuno

Escrevo estas linhas no momento em que se celebra a semana Laudato Si’ para assinalar o 5º aniversário da publicação desta Encíclica (24 de maio de 2015).

Na convocatória, que desafia as comunidades cristãs para esta celebração, o papa Francisco lança uma pergunta: Que tipo de mundo queremos deixar para aqueles que nos sucedem, para as crianças que estão crescendo? E a pergunta é feita a partir da constatação de que o clamor da terra e o clamor dos pobres não podem esperar mais por respostas concretas e decididas.

Face a esta realidade, a dúvida insinua-se de um modo, cada vez mais, evidente: será que ainda vamos a tempo? Será que temos mesmo vontade de fazer algo diferente? Os tempos que estamos a viver suportam igualmente estas interrogações. Pouco a pouco vamos procurando regressar a uma dita ‘nova normalidade’. Fartos que estávamos de ter as nossas rotinas alteradas queremos, agora, regressar aos modos e estilos de vida a que estávamos habituados, se bem que saibamos que, para isso, temos de usar máscaras e não estar tão próximos fisicamente uns dos outros.

Mas será que essa é a única novidade? Será que o grande objetivo é regressar à ‘normalidade’ existente antes da pandemia

São muitas perguntas eu sei, mas se quisermos aprender algo com tudo isto que estamos a viver, então não vejo como não as colocar. É que podemos viver esse tempo como algo meramente passageiro, algo que lentamente vai ficando para trás e que ficará para sempre registado nos livros de história como um acontecimento extraordinário que causou muita perturbação e sofrimento a muitas pessoas, mas que pode correr o risco de ficar reduzido a essas páginas de memória, ou, então, podemos vivê-lo como um tempo oportuno para repensar e recriar muitas coisas na maneira como vivemos e no futuro que estamos a construir e vamos deixar às nossas crianças.

A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum

Ao pensar assim, neste contexto, recorro a uma passagem da Laudato si’ que aqui partilho convosco, por me parecer bastante inspiradora:

O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. (nº 13)

Sim, as coisas podem mudar. Atrevo-me mesmo a dizer que as coisas têm de mudar. Não podem, de modo nenhum ficar na mesma. Se assim fosse esta poderia ser uma oportunidade perdida.

Este é um tempo que nos faz cair na conta da necessidade da mudança. Já percebemos que não somos ‘todo-poderosos’; já experimentámos a nossa generalizada fragilidade (há grupos de risco, mas todos podemos ser infetados); já intuímos que o ‘cada um por si’ não é o melhor caminho; já constatamos que nesta, como em quase todas as situações, são sempre os pobres que sofrem mais; já sentimos o terrível peso do isolamento e o que a solidão pode provocar; já vimos como o esquecimento (de pessoas concretas) pode condenar.

Seria terrivelmente pouco

Por tudo isto, e tantas outras coisas que cada um de nós experimentou e está a experimentar das mais diversas maneiras, a novidade não pode ficar pelas máscaras, pelos dois metros de separação, pelas filas e espera na entrada dos estabelecimentos comercias, pelo menor número de mesas em restaurantes e esplanadas, pela delimitação do areal das praias, pelo menor número de passageiros, por beijos e abraços mais contidos e reservados… ficar por esta novidade seria pouco, terrivelmente pouco.

Manifestação de protesto de actores, em Atenas, 7 maio 2020. EPA | Orestis Panagiotou.
Manifestação de protesto de actores, em Atenas, 7 maio 2020. EPA | Orestis Panagiotou.

Temos de ser capazes de ensaiar outra novidade que seja mesmo capaz de dar resposta ao grito da terra e ao grito dos pobres, que seja capaz de nos unir como família humana na procura do desenvolvimento sustentável e integral, onde não haja lugar para ‘sobrantes’ nem ‘descartados’. Este deve ser, tem de ser, não pode deixar de ser um tempo oportuno para trilharmos esse caminho.

Deixo-me de novo inspirar pelo texto da Encíclica agora no seu nº 202:

Muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas antes de tudo é a humanidade que precisa de mudar. Falta a consciência duma origem comum, duma recíproca pertença e dum futuro partilhado por todos. Esta consciência basilar permitiria o desenvolvimento de novas convicções, atitudes e estilos de vida. Surge, assim, um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos processos de regeneração.

Este é, de facto, um dos grandes desafios culturais, espirituais e educativos que temos de enfrentar. Mas ainda vamos a tempo e este pode mesmo ser um tempo oportuno.


Foto da capa: Fotografia do confinamento no Brasil – projeto câmara escura, Brasil, 3 maio 2020. EPA | Guilherme Santos.

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