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Santo António, a usura e o coração

Artigo de Luigino Bruni

António aprendera na Bíblia que a luta contra a usura brota do amor pelos pobres. Na verdade, os que amam os pobres odeiam a usura e apreciam o trabalho.

O encontro entre António e Francisco foi um encontro entre dois carismas. Fernando tornou-se filho de Francisco, é claro, mas foi também seu irmão. Fernando tinha o seu próprio carisma antes de se tornar António e continuou a desenvolver o seu próprio carisma após o abençoado encontro com os franciscanos a partir de 1219 – 1220.

António continuou o magistério sobre a pobreza iniciado por Francisco na senda de Jesus Cristo. Muitas das coisas que ele disse e que não haviam sido ditas por Francisco, tornaram-se, depois, património franciscano e de toda a Igreja graças ao carisma de António.

Francisco foi cantor e mestre da pobreza, António foi mestre em desmascarar os artifícios da riqueza. Francisco é o santo de “bem-aventurados os pobres”, António de “ai dos ricos”, duas palavras do mesmo Evangelho, duas palavras da mesma vida.

É no contexto dos sermões do Santo sobre as seduções da riqueza que floresce a sua pregação sobre a usura e os usurários: um pensamento e uma ação baseados na Escritura, do Antigo e do Novo Testamento, que faz de António um dos primeiros “biblistas” ante litteram da Idade Média.

Uma das histórias mais conhecidas sobre António está ligada à riqueza.

Na Toscana, decorria com pompa e circunstância o funeral de um senhor muito rico. Na cerimónia estava presente Santo António, o qual, movido por uma inspiração repentina, começou a gritar que aquele morto não devia ser enterrado num lugar sagrado (…) pois a sua alma estava condenada no inferno e, além do mais, aquele cadáver não tinha coração, conforme afirmou o Senhor no relato de Mateus:
“Pois onde estiver o teu tesouro, ali estará também o teu coração” (Mt 6,21). Naturalmente, todos ficaram chocados com essa intimação e surgiu uma excitada troca de opiniões. Por fim, foram chamados uns cirurgiões, que abriram o peito do falecido. Mas não encontraram o coração que, segundo a previsão do santo, estava no cofre juntamente com o dinheiro aí guardado (…).

Polentone, Vita di S. Antonio

Um episódio extraordinário, um misto de história e lenda, com um enorme alcance pedagógico, antropológico e teológico.

Pormenor do mesmo milagre, baixo relevo de Lombardo Tullio, sec. XVI, Basílica de Santo António de Pádua. Foto Deganello Giorgio, Messaggero di Sant’Antonio.
Pormenor do mesmo milagre, baixo relevo de Lombardo Tullio, sec. XVI, Basílica de Santo António de Pádua. Foto Deganello Giorgio, Messaggero di Sant’Antonio.

António, nos seus sermões, fala frequentemente da usura e dos usurários:

Diz o profeta Naum: “Ai da cidade sanguinária, cheia de fraude, de violência e de contínuas rapinas!”(Na 3,1). A alma vive do sangue, o pobre dos seus escassos recursos. Se retirarmos o sangue do homem e aos pobres os seus recursos: ambos morrem. Os saqueadores e os usurários que se apoderam das coisas dos outros serão chamados “cidade sanguinária”. E o sangue dos pobres é frio.

Sermões, V

Os Montepios, as primeiras formas de banca ética e sem fins lucrativos (dizia-se então: sine merito), nascidos para combater a usura, são plantas nascidas no final do século XV, a partir da semente lançada por Francisco, mas foram, sobretudo, fruto da palavra e da ação de António.

Na Bíblia, a usura é condenada porque é uma forma de rendimento que resulta não do trabalho e do esforço, mas do facto de alguém possuir e utilizar em próprio benefício uma posição de poder.

Hoje, em tempos de escassa liquidez, a usura renasce e cresce de novo, porque há sempre quem possui muito dinheiro e usa este poder para ganhar ainda mais à custa daqueles que não tendo dinheiro, precisam dele para viver.

Ontem, como hoje, as vítimas da usura são os pobres.

E, assim, as palavras de António ressoam com uma extraordinária atualidade: quem ama os pobres odeia a usura e aprecia o trabalho.

Ontem, hoje e amanhã: “O usurário transforma num deserto a Igreja do Senhor” (António, Sermões, Prólogo).

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