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Já foste ver o mar?

Quando esta revista se abra nas mãos dos leitores, já a primavera vai alta e o junho traz a certeza do verão.

O ciclo virtuoso das estações do ano é menos incerto do que o rosto que cada tempo vai ter: que verão será o nosso? O das noites de brisa quente ou o dos fins de tarde ventosos? O do sol que brilha desde bem cedo ou daquelas manhãs nubladas, ao-meio-dia-ou-carrega-ou-alivia?

Que verão vai ser o do nosso desconfinamento? Podemos (devemos?) perder o medo?

Escrevia a minha amiga Catarina no Facebook nos idos de maio: “Quando não podemos ver o mar, a malta pira. Quando desconfinamos, a seguir à família a pessoa corre para ver o mar.”

Pelo que ouço e leio, tanto no espaço público como em privado, há uma permanente nostalgia do mar. Não se trata só da praia, do direito ao lazer, dos pés na areia quente, do perfume a bronzeador, das frases nítidas no meio da confusão de vozes, da beira mar…

Não se trata apenas dessa promessa-memória daqueles dias estivais que suspendem a monotonia do ano inteiro. O mar que vejo e ouço nessas imagens e declarações é sobretudo o horizonte sem fim, uma extensão imensa em três dimensões a que o olhar consegue dar limites. E abarcar. E abraçar.

Não tenho a certeza de que todas as pessoas que falam e escrevem sobre a necessidade de ver o mar, o vejam tão amiúde.

Foto de Pedro Barros
Foto de Pedro Barros

E também penso que é mais fácil dizê-lo e fazê-lo para quem vive no litoral, mas que há outros mares de terra arada e troncos altos, mares feitos da ondulação, suave ou abrupta, das serras e dos montes, águas que correm doces e arbustos carregados de amoras.

Sei que todos têm o mar no que ele representa de liberdade, de esperança, de silêncio, e de poesia. Não a poesia sublime dos versos de Sophia de Mello Breyner, que desenhou mares em palavras, que navegou oceanos de todos os quadrantes e de todos os tempos. Falo da poesia que não é para ler, da poesia que amam aqueles que nunca leram mais versos do que o Camões “enfiado pela goela abaixo” (e essa maneira de tratar o mais alto dos Poetas não conta como poesia), da poesia como modo de respirar (com) a Terra.

Creio que o desejo de ver o mar é menos pela paisagem do que pela necessidade que temos de futuro. O futuro em que quase não ousámos pensar nos dias do confinamento obrigatório (e necessário). Quando o verbo surgiu – desconfinar – ninguém ficou parado na estranheza da palavra, nem a desconfiar de certas parecenças ortográficas; desconfinar é a nossa pequena conquista, o aprazível privilégio de desejar algumas coisas só nossas. Como escrevia a Catarina, primeiro a família e depois o mar.

E depois disso, o que escolhemos como breve concessão a uma normalidade que não volta?

Um café com os amigos, um almoço em casa da família, uma partida de cartas, um passeio no jardim, um copo na esplanada ao final da tarde? De fugida, de máscara (valoriza os teus lindo olhos), o álcool à mão, momentos roubados ao tempo da Covid.

Como chamamos ao tempo depois? Como medimos este tempo, como o contamos e separamos e legitimamos, e como lhe damos sentido? Confinar, desconfinar, continuar?

Insisto: como damos sentido ao tempo estranho e duro que vivemos?

A promessa do mar pode ser o sentido de que precisamos; cada qual o seu mar, o seu horizonte, o seu futuro, a sua esperança –necessários como candeias acesas ao longo de todo o tempo deste caminho de traçado ignoto.

Em qualquer momento podem perguntar: E tu, já foste ver o mar? Desejo responder: Não fui, não. É que não o perdi de vista.

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