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Atenção à dor

Frei Danilo Salezze

Santo António deve a sua popularidade, durante a vida e na Glória, ao facto de sempre ter acompanhado com atenção as diversas situações humanas de precariedade; um contemplativo em contacto direto com a vida.

Jesus Cristo, com os olhos da sua misericórdia, fixou intensamente o género humano doente e este foi o sinal da nossa salvação; aproximou-se de nós, tomou sobre si a nossa enfermidade, subiu à cruz e, ali, no fogo ardente da sua paixão, apagou e destruiu os nossos pecados.

Santo António, Ladaínhas ou Rogações, 2

Fiquei impressionado com algumas pinturas de ex-votos, simples e singelas, num santuário antoniano da minha terra, nas quais o Santo intervém poderosamente numa altura crítica, numa doença ou em situações desesperadas, como se ele fosse o permanente “santo de sentinela”, sempre pronto para ajudar, tal como o adulto que segue com cuidado os passos da criança. A sua intervenção graciosa parece até antecipar os pedidos de ajuda. De tal forma que surge uma certeza, juntamente com a devida gratidão a Deus, resumida na frase: “Aqui esteve Santo António”. E nós, frades, sabemos por experiência que isso é verdade.

Nesta primavera de 2020, terça feira à noite, os frades da Basílica acompanharam a imagem de Santo António até à praça, para que ele pudesse contemplar mais de perto não só a cidade que ele ama, mas o mundo inteiro: trata-se de uma espécie de abanão singelo ao Santo, para ele intervir neste grave momento de pandemia – apesar de termos a certeza de que ele já o está a fazer, sobretudo através da consolação dos corações – e para que não nos perca de vista nem por um momento, ele que foi testemunha de como “Jesus Cristo, com o seu olhar misericordioso, fixa a humanidade doente”. E que o mundo inteiro está “doente” é uma evidência que deve ser assumida para que possa haver uma conversão de pensamentos e de projetos a nível global.

O Papa Francisco pediu aos católicos para participarem ativamente no dia de oração, de jejum e caridade, a 14 de maio, em comunhão com todas as religiões, para que o mundo seja libertado do coronavírus. Estamos todos no mesmo barco – tinha dito o Papa Francisco – lembrando-nos novamente o “Espírito de Assis”, que vai além das crenças e das culturas e que nos é tão querido, porque é condição de continuidade da vida da Criação.

É necessário um novo caminho de consciencialização: A COVID-19 causará muito menos vítimas do que os abortos, a fome e as suas consequências, a devastação das florestas, os bombardeamentos contra civis inocentes na Síria e em tantas outras partes do mundo. A cidade de Manaus, coração dos povos da Amazónia, acrescenta nestes dias outras mortes às muitas que a escravatura desumana dos mais pobres já tinha na sua consciência.

Cristo dirige o seu olhar para este mundo doente, está profundamente envolvido nele, sofre pelo homem, não está apenas tomando nota dos problemas humanos, à distância, preparando castigos, como alguns “profetizam” e quase desejam. Santo António diria que sendo muitos os inocentes que já sofreram, porquê então outros mais? Cristo fixou o seu olhar, tornou sua a miséria humana, não se envergonhou dela. António coloca diante de nós a teopatia, isto é, a compaixão de um Deus que não pretende ser obedecido, embora seja sempre compulsivamente obediente, perante a necessidade humana de misericórdia e de perdão.

Mas por que é que é tão difícil “curar-se” a si próprio e cuidar daqueles que vemos sofrer?

Fixar o olhar é importante, mas não é suficiente: Cristo veio até nós e tomou sobre si a nossa enfermidade, subiu à cruz… Sem esta aproximação, desprovida de preconceitos e “considerações” que todos temos, a doença, nossa e dos outros, continua a ser maldita e definitiva.

Toco esta realidade com a mão quando o João partilha comigo a sua desgraça, ele que esbanjou tudo em drogas e agora, em tempos de pobreza redobrada, já não tem recursos para viver. O mesmo me dizem a Paula e o seu bebé, agora que uma grave doença os separa, depois de tanto esforço para se salvarem juntos. Comprova-o, ainda, Mateus que continua a sentir-se incapaz de se reintegrar numa sociedade exigente e às vezes má e, também, o Alfredo que, simplesmente, não entende mesmo nada!

A teopatia, o sentimento de compaixão de Deus pelo nosso mal, mostra-nos novos caminhos, de modo que o lema destes dias (Tudo vai ficar bem) não se transforme numa frase ingénua e sem sentido.

Mas se Cristo fixa o seu olhar sobre a nossa dor, porque não a resolve de uma vez? Nestes dias de igrejas abertas, mas sem celebrações, percebemos que Deus nunca se afasta de nós; pelo contrário, terá prestado mais atenção às salas de reanimação e aos esforços dos profissionais de saúde; terá preenchido vazios dramáticos nas famílias afetadas pela pandemia; não suspendeu a atividade, aguardando que chegasse a dita fase 3 da quase normalidade. Cristo está a viver em nós a sua paixão permanente, a “normalidade” para Ele consiste em expor-se na cruz por nós “doentes” de coronavírus e de tantas outras doenças. Nesse por nós está toda a felicidade de Deus e a nossa também.


Foto da capa: Ex-voto a Santo António. Óleo s/ madeira, autor desconhecido, sec. XIX, MA.PIN.0038. Museu de Lisboa – Santo António, proveniência Igreja de Santo António de Lisboa.

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