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A vida em Cristo

O amor que Deus tem pelos homens O esvaziou: Deus, ao convidar o servo a quem ama, não permanece no mesmo lugar, mas desce e vai à sua procura; sendo rico, vem à morada do pobre; ao apresentar-Se, declara diretamente o seu amor e busca um amor igual.

“O perfume do Espírito exala copiosamente e enche tudo, mas não o pode receber quem não tem olfato”. “A vida presente é a oficina desta preparação”. “Pelo excesso do amor, nos nutrimos d’Ele como pão, ungimo-nos d’Ele como perfume, somos envolvidos por Ele como água”. A beleza poética das palavras que a polifónica tradição espiritual cristã nos oferece representa um dom, uma fonte por vezes escondida e inacessível ao comum leitor. A tradução para português de um clássico da Igreja Ortodoxa constitui por si um acontecer bem merecedor de registo.

Nicolau Cabasilas é celebrado como santo nas Igrejas Ortodoxas e como um dos seus mais insignes teólogos e poetas. Natural de Tessalónica (Grécia), Cabasilas marcou o contexto teológico mas também político e eclesial do século XIV bizantino, embora não se conheçam muitos dados biográficos seus. Para a tradição consignou duas obras fundamentais, A explicação da Divina Liturgia e este A Vida em Cristo, nas quais, no bom sabor oriental, os símbolos e gestos das celebrações sacramentais constituem a escola por excelência de uma vida cristã e humana em plenitude, traduzida nas Bem-aventuranças.

A Vida em Cristo percorre numa primeira parte os passos rituais do Batismo, da Eucaristia e da Unção (seja no Crisma como na consagração de um altar) para neles encontrar o diálogo e a divina parceria entre Deus e a Humanidade. O encontro com a espiritualidade ortodoxa oferece-nos uma visão positiva da história da salvação, na medida em que esta é muito mais do que a anulação de uma condenação: é a progressiva modelação da Carne, da humanidade à imagem de Cristo, seu Esposo; assim, Cristo não é apenas um mestre que caminha ao nosso lado, mas é o Corpo no qual vivemos e respiramos, como a criança que cresce no abraço materno. E todos os nossos membros – na segunda parte da obra –, todas as nossas faculdades são envolvidas nesta regeneração, com destaque para a nossa memória: é ela quem, na gratidão aprendida na oração quotidiana, permite que o Evangelho cure e liberte os dias marcados pelo medo, pela tristeza e pelo pecado.

A leitora e o leitor que se entreguem à fecunda leitura deste clássico, dedicando-lhe o tempo e a calma necessários, encontrarão diante de si um verdadeiro livro de teologia cristã e espiritual, não no sentido de um livro técnico ou reservado a especialistas, mas no sentido de uma obra de sabedoria sobre os bens divinos com que Cristo molda a nossa existência; bens que todos nós, sem exceção, somos convidados a conhecer e a saborear.

O amor que Deus tem pelos homens O esvaziou: Deus, ao convidar o servo a quem ama, não permanece no mesmo lugar, mas desce e vai à sua procura; sendo rico, vem à morada do pobre; ao apresentar-Se, declara diretamente o seu amor e busca um amor igual; rejeitado, não Se afasta; perante a insolência, não Se encoleriza; expulso, permanece à porta (cf. Ap 3, 20) e faz de tudo para Se mostrar verdadeiro amante; martirizado, suporta e morre.

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