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A forma perfeita da comunhão

Da homilia do domingo da Santíssima Trindade 2018, Pe. José Tolentino Mendonça, Capela do Rato

“Queridas irmãs e irmãos. Celebramos hoje a grande solenidade da Santíssima Trindade. Muitas vezes, o mistério da Santíssima Trindade é expresso numa linguagem filosófica que mais parece um daqueles problemas insolúveis da matemática. Como é que Deus é único e ao mesmo tempo é trino? Como é que Deus é uma única natureza em três pessoas distintas? Como é que se articula a singularidade e a unicidade de Deus com esta tripartição de Deus pela pessoa do Pai, pela pessoa do Filho e pela pessoa do Espírito Santo?

É sem dúvida um mistério. E nós temos de aceitar que o mistério é mistério. Sentimos isso muitas vezes na nossa vida: que a nossa razão toca apenas a fímbria, a borda do manto de um mistério que é muito maior do que a nossa razão e do que a nossa própria existência. O mistério de Deus está para lá daquilo que podemos pensar, dizer, medir, calcular, compreender. Deus é também incompreensível, Deus é também incognoscível, Deus também é secreto, é segredo, é silêncio. [ … ]

Há que dizer, também nesta solenidade da Santíssima Trindade, que o mistério da Santíssima Trindade é fácil. Qualquer um de nós pode chegar lá, qualquer um de nós pode entendê-lo. Porque se Deus é amor, Deus não pode ser uma solidão, tem de ser uma comunhão. Se Deus é amor, Deus não pode estar sozinho, porque se nós dizemos que a nossa vida é amor, não podemos estar sós. Temos de ser nós, tem de haver o eu e tem de haver outras coisas, outras pessoas, outras existências, outras formas na nossa própria vida.

E quantas formas há de haver? A forma perfeita da comunhão, aquela que é o símbolo de toda a comunhão é o ‘três’. Porque nós podemos amar-nos a nós próprios e é um dever, e é uma arte que temos de aprender a vida inteira, amarmo­-nos a nós mesmos, mas o amor que dedicamos a nós próprios é um amor incompleto, é um amor que precisa de outro amor, precisa de outra complementaridade. E encontramos isso no ‘dois’, quando amamos o outro. Quando o amante, o amigo realizam essa forma de amor, de amizade. Isso é uma forma de encontro, é uma forma de amor, é uma forma de plenitude que é fundamental. Porque todo o coração aspira por esse lugar que há no coração do outro. E essa busca do amor, a busca da amizade, a busca de uma relação privilegiada faz parte das ânsias mais profundas do nosso coração. De maneira que é muito natural que o ‘um’ anseie pelo ‘dois’. Mas, ao amor do ‘dois’ é sempre um amor especular, é um amor que é uma espécie de espelho, é o amor onde me revejo, é o amor onde eu procuro uma retribuição, onde eu procuro uma equivalência, uma reciprocidade, uma paridade. Essas são as características do amor do ‘dois’.

Então, o amor do ‘dois’ ainda é incompleto. O amor do ‘dois’ só se completa quando é capaz de integrar o ‘três’. E o ‘três’ traz outras coisas para dentro do amor e torna a comunidade do amor uma comunidade perfeita, uma comunidade parecida à Trindade. Porque o outro é o estranho, é o diferente, é aquele que não entra na relação de reciprocidade ou de paridade, mas que eu acolho numa forma de radical hospitalidade, de radical amor. E quando nós somos capazes de integrar o terceiro, então nós sabemos o que é o amor.

Se nós não somos capazes de fazer ‘três’, de dizer: “A minha fé é ‘três’, a minha vida é ‘três’.” … Porque a fé não é uma coisa e a nossa vida é outra. A nossa vida é ‘três’. Para nós o número ‘três’ é o objetivo, é aquilo por que nós temos de lutar. A nossa vida fica uma vida pobre e inacabada se nós não experimentamos o amor do ‘três’: a capacidade do amar por amar, da hospitalidade gratuita, ir além do amor (que é a nossa obrigação e a nossa felicidade e tudo) mas buscar um outro amor. Aquele amor que nos obriga a andar pelas ruas e a acolher os pobres, aquele amor que nos ajuda a acolher mais um, a integrar mais um na nossa vida, na nossa mesa, no nosso trabalho, no nosso dinheiro, no nosso tempo.

Esse é o amor de Deus. Todos são o amor de Deus. Mas esse ‘três’ dá-nos uma medida muito exata daquilo que é a Santíssima Trindade.

Queridos irmãos, a Santíssima Trindade não é um conceito filosófico que lembramos uma vez por ano, a Trindade é a nossa forma de viver, é o nosso estilo de viver. Um cristão, se tem de morrer por alguma coisa tem de morrer por ‘três’, por este amor que é um amor trinitário, e que representa aquilo que a nossa vida pode ser na sua plenitude.[ … ]”.

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