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Uma realidade Pasmada

Em tempos de Covid-19, parece que vivemos na permanente tensão entre estar farto de falar do vírus e não conseguir falar noutra coisa. É verdade que “há vida para lá da Covid”, mas não tenho a certeza sobre que vida é essa. Embora saturados de um “tudo isto” que, afinal, é “só disto”, não é este o tempo para uma alienação cor de rosa que nos retire de um mundo em suspenso. Porque assim é a vida, agora. 

Estamos em suspenso, dentro da realidade, também ela hesitante. Uma realidade pasmada perante a sua própria evidência: estar aqui e agora, mas sem ter do passado mais do que uma lembrança difusa e sem muito ânimo para imaginar o futuro. Esse é porventura um dos efeitos que destacaria da atual vivência: querer sonhar com as férias, com o café com os amigos, com o almoço de aniversário da avó, com a viagem a Itália, com o regresso dos primos do Luxemburgo no verão… e não nos atrevermos sequer a desejar. Não é necessariamente medo – e também há quem o tenha – é viver com uma espécie de cãibra do espírito, os movimentos tolhidos, a “embotada vontade” do poema de O’Neill.

Regressarei a ele.

Parece pessimista, mas é só da vida, dos dias. Todos o temos sentido, não é verdade? Nuns dias temos o peito cheio do mundo e de amor, noutros temos as costas curvas de um peso que não vemos, mas que sentimos bem. Um peso que aumenta por só se falar do vírus já que a repetição das notícias amplifica o seu impacto.

Em 1983, a escritora Marguerite Yourcenar publica uma coleção de ensaios intitulada O tempo, esse grande escultor. A edição portuguesa da extinta editora Difel é de 1984, com tradução de Helena Vaz da Silva.

O título do livro (que é o de um dos seus mais curtos ensaios) é, como muitos bons títulos, uma evidência sintética de algo que jamais fora tão bem dito, que se nos revela como tese e que pode produzir nova reflexão fora do âmbito onde surgira.

Perguntamo-nos: que esculpe agora o tempo?

Como transcorre um tempo suspenso? Como se reequilibra o tempo? Como se reativa o devir, se vivemos sem a exata noção do que éramos ainda há pouco, em fevereiro, de que se faziam os nossos dias, com que sonhávamos?

Que esculpirá em nós o tempo da pandemia, do confinamento, da distância social, da etiqueta respiratória, das máscaras, de uma comunidade por turnos, dos aviões parados, das praças vazias, das igrejas fechadas?

Ouvimos amiúde que o tempo nos define o rosto ou que as rugas são “marcas do tempo”; lemos com intuição uma história de leveza ou de sofrimento na face de um familiar ou de amigo querido. Na verdade, não é apenas o passar do tempo que nos molda, mas sobretudo a experiência desse tempo. Por isso, o modo como vivemos agora a nossa realidade pasmada consigo mesma, o nosso tempo suspenso, definirá em grande medida a obra que seremos. A obra do escultor não é apenas fruto dos instrumentos que escolhe, da força que coloca na maceta com que maneja o cinzel, mas também da pedra que lavra. Que pedra somos? Que obra seremos depois de tudo isto? Como é que as nossas contingências individuais se (re)configurarão em comunidade?

Agora o poema de Alexandre O’Neill que citei antes.

Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja, 
que o absurdo, mesmo em curtas doses, 
defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!
[…]
Se faca afia faca,
então que a faca do absurdo 
venha afiar a faca da nossa embotada vontade, 
venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado
e o dia a dia será nosso e diferente.
Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.
Mas tudo será melhor que este dia-a-dia.
Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.
Mas nós não queremos ser um povo feliz.
Para isso bastam os suíços, os suecos, que sei eu?
Bom proveito lhes faça!
[…].

Alexandre O’Neill (1924-1986)
da coletânea O princípio da utopia…,
publicada em 1986, ainda em vida do poeta

Neste inesperado poema-prece pede-se um absurdo salvífico, que nos retire da melancolia, de um dia a dia monótono que não nos pertence: Depois da lista de maleitas, desamores e várias misérias sociais, a prece termina: “Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia, / um pequeno absurdo às vezes chega para salvar”.

Sempre gostei muito deste poema, que nos perturba e sacode com afiado escândalo, tão característico de O’Neill. Sei-o de cor, lemo-lo várias vezes nas minhas aulas de Língua Portuguesa.

Todavia, agora não nos serve. Vivemos um grande absurdo, em doses nada curtas que, como disse antes, nos tolhe os movimentos do corpo e do espírito. O pequeno absurdo quotidiano é agora um quotidiano absurdo. Que fazer do/no tempo suspenso?

Sairemos da realidade pasmada, é certo. Resta saber com que capacidade ainda de nos pasmarmos com ela, mas já no sentido de espanto que desejamos ter com a vida diante de nós, dentro de nós; dádiva que fará tanto mais sentido quanto puder ser celebrada e partilhada, com passado, com futuro.

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